quinta-feira, abril 19, 2018

CABO DO MEDO (Cape Fear)

Não sei onde eu estava com a cabeça na época em que deixei de ver nos cinemas CABO DO MEDO (1991). E olha que eu já tinha saído de uma experiência inenarrável após a sessão de OS BONS COMPANHEIROS (1990). Só podia estar passando por algum momento muito delicado, não sei dizer. O fato é que, na época, só vi este remake espetacular dirigido por Martin Scorsese em VHS. E mesmo assim foi um impacto gigante. Mas se eu não me engano o filme não era bem uma unanimidade na época. Havia gente que achava muito comercial, se não me engano.

A releitura de CABO DO MEDO agora, desta vez respeitando a janela original e em uma ótima cópia ripada de um blu-ray, se deveu a uma brincadeira nova do pessoal do Cinema na Varanda, que está fazendo um novo quadro mensal dedicado à discussão de clássicos. O escolhido do mês de abril foi este filme estrelado por Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange e Juliette Lewis.

CABO DO MEDO foi a sétima colaboração entre Scorsese e o seu então ator-fetiche De Niro. Uma colaboração das mais belas da história do cinema. Já Nick Nolte, havia trabalhado com o cineasta no segmento "Lições de Vida", de CONTOS DE NOVA YORK (1989). A caracterização dos dois personagens chega à perfeição, levando em consideração que ninguém se importe com o nível de intensidade que o filme prefere adotar. Nas cores, nas interpretações, na trilha sonora, na violência etc.

O embate dos dois personagens lembra muito o de PACTO SINISTRO, de Alfred Hitchcock. Aliás, todo o filme parece uma grande ode ao mestre do suspense, com uma homenagem explícita a PSICOSE, na cena da cozinha. O que é aquele momento, meus amigos? A própria trilha sonora é de Bernard Herrmann (do filme original), o que dá um tom hitchcockiano especial. Scorsese lida com todas as ferramentas cinematográficas de maneira tão genial que, naquele momento, era difícil não dizer que estávamos diante do maior cineasta americano vivo.

Toda a sequência que antecipa a tal cena da cozinha, com a tentativa de fazer uma armadilha para o ex-presidiário e estuprador é de uma tensão tão grande que jamais imaginaríamos que essa tensão se potencializaria na sequência do barco, quando o filme se encaminha para o seu grandioso desfecho.

Há sequências em que o uso de recortes para simular a profundidade de campo lembra bastante os trabalhos do colega de geração Brian De Palma. E há uma cena em especial que a música fica um pouco de lado para que possamos quase parar de respirar: caso da cena do primeiro encontro de Max Cady (De Niro) com a jovem e inocente Danielle (Juliette Lewis). A cena tem um misto de tensão, perigo, sensualidade e proibição que jamais imaginaríamos nos dias de hoje. Aliás, no ano seguinte, a própria Juliette apareceria beijando Woody Allen no também memorável MARIDOS E ESPOSAS. Ou seja, não faltava exploração da sensualidade da estrela adolescente na época.

CABO DO MEDO é um produto de sua época, mas talvez justamente por isso tenha envelhecido tão bem, tenha adquirido essa aura de clássico, ainda mais com tanta homenagem à velha Hollywood. Um filme que também possui a arte de deixar o nosso sangue intoxicado. Digo isso como elogio. E olha que não exaltei as qualidades formais da obra, que são imensas.

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ÓDIO

Um dos filmes mais singulares da história do cinema brasileiro. Tem uma elegância impressionante na direção, na mesma maneira como também não se importa em mostrar os excessos que a própria história precisa contar. Certamente vai ficar na minha cabeça por um bom tempo. Projeto pessoal e muito querido do Carlo Mossy. Ano: 1977.

FITZCARRALDO

Lembro de ter começado a ver este filme e não ter prosseguido numa exibição na televisão. Com a cópia restaurada, surgiu a chance de ver no cinema. Está longe de ser dos meus favoritos do Werner Herzog, mas não deixa de ser admirável em sua construção e sua ambição. Quem teria bancado um filme desses? Ano: 1982.

QUADRILHA MALDITA (Day of the Outlaw)

Que maravilha de filme, hein! Uma espécie de OS OITO ODIADOS que deu certo. Acho que Tarantino bebeu muito da fonte deste filme pra construir o seu ambicioso projeto. André De Toth é mestre e o seu filme é do mesmo ano de outro western muito especial, o RIO BRAVO, do Hawks. Ano: 1959.

domingo, abril 15, 2018

SEVERINA

Impressionante como as histórias de amor não se esgotam e se reinventam, passados tantos séculos. No caso de SEVERINA (2017), retorno de Felipe Hirsch à direção de cinema depois de um relativamente longo hiato, temos a história de amor de uma livreiro e uma ladra de livros em uma cidade do Uruguai. Ele (Javier Drolas), cujo nome nunca é citado ao longo da narrativa, talvez tenha deixado aquela moça bonita roubar os livros por ela ser bonita. Na terceira vez, no entanto, ele não deixa passar. Até porque ele também tem interesse em conversar e saber quem é aquela jovem mulher, vivida por Clara Quevedo.

Ela afirma se chamar Ana, mas nunca sabemos se é mesmo esse o verdadeiro nome. Um dos fortes atrativos da moça está no seu mistério. É pelo mistério que o livreiro se vê cada vez mais enredado em seus quereres, e é pela obsessão que ele sente por ela que ele se vê capaz de fazer algo inimaginável. O amor está associado fortemente ao perdão nesta espécie de fábula que tem o sabor de um ótimo livro, desses que a gente faz questão de fazer anotações, marcar os trechos mais interessantes. Há diversos momentos no filme em que queremos dar uma pausa para fazer anotações, guardar certos diálogos ou mesmo citações. SEVERINA, inclusive, já começa com uma inquietante epígrafe de Williams Carlos Williams.

O prazer da palavra também está presente no uso do recurso da voice-over, acentuando o sentimento de melancolia do narrador. A narração é bem-vinda, até por trazer ideias muito boas para dar força a esse delírio amoroso. Como é o caso de quando o narrador diz que a vida de um indivíduo é formada por coisas reais, coisas simples e coisas fantasmas. As coisas reais seriam aquelas coisas de grande valor e pouco frequentes na vida da pessoa, as coisas simples são as coisas rotineiras e as coisas fantasmas seriam aquelas terríveis, como a febre, dores e decepções terríveis.

A divisão da narrativa por capítulos também se constitui em mais um namoro do cinema com a literatura no filme, que pela própria história já seria óbvio. Os nomes dos capítulos que os antecipam fornecem um misto de suspense e humor que traz não só um ar de espirituosidade à obra, mas também um sentimento de surrealidade, à medida que os gestos de amor do livreiro por Ana vão se intensificando. E intensificam também o nosso interesse e respeito por SEVERINA, uma das melhores surpresas do cinema brasileiro recente.

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ZAMA

Acho que nunca um filme me causou tanto mal estar e tanta náusea. Talvez eu já estivesse predisposto a esse sentimento, mas o filme aumenta isso. Se é a intenção mesmo de Martel (acho que é), parabéns. Mas nunca mais quero ver este filme de novo. Ainda assim, só não o considero ruim pelo modo como a diretora encena. Mas sei lá se isso não é só pra parecer diferente. Direção: Lucrecia Martel. Ano: 2017.

A LIVRARIA (The Bookshop)

Um filme que é simpático por sua vontade de exaltar os livros e ao trazer personagens interessantes, mas que falha em muitas coisas. O que temos é a impressão de que houve falha na adaptação do romance. O personagem do Bill Nighy é um achado. Certamente no romance deve ser fascinante ou próximo disso. Mas infelizmente fica tudo raso no resultado final. Direção: Isabel Coixet. Ano: 2017.

A NOIVA DO DESERTO (La Novia del Desierto)

Acho que me faltou mais identificação ou proximidade com os personagens para que eu me interessasse pelo romance deles. Mas gosto de como há momentos em que a atmosfera é bem captada, como na cena da tempestade, ou nas várias vezes em que o filme respira bem entre as falas dos protagonistas. Direção: Cecilia Atán e Valeria Pivato. Ano: 2017.

quarta-feira, abril 11, 2018

GUERRA CONJUGAL

Tenho lamentado muito a falta de atualizações do blog. Isso tem ocorrido em parte por causa de um cansaço que tomou conta de mim e que parece ir além da esfera física, em parte por este espaço ter ficado abandonado por leitores, em parte porque não tenho conseguido encontrar tempo para a atualização sem que eu fique com dor na consciência também em não estar fazendo outras coisas que são mais urgentes. Tempos difíceis.

Estou começando assim, mais uma vez em primeira pessoa, como nos primórdios do blog, falando um pouco por cima de meus problemas, para arrancar o texto que ainda não sei como sairá. A lista de filmes vistos e não escritos, aliás, é tão imensa que chega a dar tristeza. Mas aproveitemos este momento agora para escrever sobre um deles. O escolhido é GUERRA CONJUGAL (1974), de Joaquim Pedro de Andrade, um dos filmes que mais me deu prazer de ver nos últimos meses.

Só a cena que mostra o personagem do advogado vivido por Lima Duarte recebendo uma jovem em seu escritório já torna o filme muito especial. Mesmo levando-se em consideração o fato de ser um trabalho de um de nossos melhores realizadores. Não consigo pensar em outro título melhor do cineasta do que este, pelo menos não do ponto de vista do prazer narrativo. |

Acompanhamos em GUERRA CONJUGAL histórias em bloco de quatro personagens: o já citado advogado vivido por Lima Duarte; o casal de velhinhos vivido por Joffre Soares e Carmem Silva; e o cafajeste Nelsinho, vivido por Carlos Gregório. O filme certamente nos dias de hoje seria bastante problematizado, até pelo modo como a questão do assédio é tratado com leveza e humor, embora as mulheres não sejam nada bobas aqui.

O filme começa com o personagem de Joffre Soares acordando no meio da noite, reclamando que está se sentindo mal para a mulher. Ele teme morrer antes da esposa, por quem nutre uma relação de amor e ódio. Em seguida, vemos a tal cena do advogado tarado e aproveitador. Já Nelsinho, tem como grande destaque a cena em que está namorando uma moça perto da avó cega dela. Detalhe: a jovem está praticamente nua enquanto falam com a senhora idosa.

As linhas narrativas são mostradas em blocos, adaptando 16 contos extraídos de sete livros de Dalton Trevisan. Daí o texto ser tão bom quanto o trabalho de cenografia. Joaquim Pedro de Andrade consegue extrair beleza de espaços muito pobres, como a casa do casal de velhos, com um trabalho de cores que está sendo valorizado pela nova cópia remasterizada.

Pena que o filme poderia ser mais longo e ainda mais ousado se não tivesse sido vítima da censura da época, que o liberou com cortes para maiores de 18 anos, afirmando que era uma obra que afrontava as instituições familiares.

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MUITO PRAZER

Custei a acreditar que MUITO PRAZER foi feito depois de LÚCIA McCARTNEY, UMA GAROTA DE PROGRAMA (1971). Demorou demais o David Neves a fazer outra belezura. E é um filme bem diferente do anterior, é mais uma crônica, mas é também bem interessado na alma feminina. Otávio Augusto talvez tenha aqui o melhor papel de sua carreira, e Ítala Nandi e Antonio Pedro também estão excelentes. Ano: 1979.

XICA DA SILVA

Ficou linda a restauração deste filme de Carlos Diegues. Com as cores vivas e belas como devia ser na época de seu lançamento. Não sou tão fã da protagonista e às vezes até acho o filme meio aborrecido, mas gosto muito a partir da chegada do personagem do José Wilker. Se bem que Walmor Chagas também passa uma nobreza admirável a seu personagem. É o filme que anteciparia as duas obras-primas de Diegues, CHUVAS DE VERÃO (1978) e BYE BYE BRASIL (1980). Melhor do que isso ele não ficaria. Ah, e é muito legal ver a Elke Maravilha linda, antes de chegar aos 30. Ano: 1976.

A GRANDE CIDADE OU AS AVENTURAS E DESVENTURAS DE LUZIA E SEUS 3 AMIGOS CHEGADOS DE LONGE

Outro belo filme dentro da filmografia irregular de Diegues. O que mais se destaca é a câmera do Dib Lutfi, que faz do Rio de Janeiro um personagem grande na história. Antonio Pitanga também está ótimo e a cena final da Anecy Rocha é impactante. Tinha-a visto em CINEMA NOVO, do Eryk Rocha, e já achado bem forte. Já o papel do Leonardo Villar é um pouco fraco. Ano: 1966.

quarta-feira, abril 04, 2018

MADAME

Há filmes que se constituem em tão boas surpresas que simplesmente lamentamos o fato de que serão obras pouco vistas ou descobertas por uma audiência maior, mesmo uma audiência acostumada a ver bons filmes no cinema ou em casa. É o caso da comédia MADAME (2017), segundo longa-metragem da cineasta francesa Amanda Sthers.

A visibilidade mínima desta obra muito se deve à presença de um belo elenco internacional, que já chama a atenção no próprio cartaz, que traz a australiana Toni Collette, o americano Harvey Keitel e a espanhola Rossy de Palma, cujo rosto expressivo remete a trabalhos de Pedro Almodóvar, embora ela só tenha aparecido em cinco de seus filmes. Como se já não bastasse um trio como esses, há um ótimo elenco de apoio também em MADAME.

A história se passa em Paris, na casa de um casal de americanos que vive em uma pomposa mansão. A matriarca, Anne Fredericks (Toni Collette), prepara um jantar especial para convidados e tem um quadro de Caravaggio para negociar com um dos presentes. Ela não esperava que o filho fosse aparecer e, supersticiosa que é, não quer que na mesa tenham treze pessoas. Assim, ela tem como solução colocar a governanta da casa, uma senhora de modos simples e pouco requintados, Maria (Rossy de Palma), entre os convidados. Para não dar na vista, Maria deve permanecer calada e comer pouco durante o jantar.

Se o filme já começa com uma cena bela de Anne com o marido Bob (Keitel) pedalando pelas ruas de Paris, ele vai se mostrando melhor ainda com os preparativos e com a cena do jantar em si, que é narrada sem pressa e destacando cada pessoa presente na mesa, revelando tanto casos amorosos extraconjugais como o rápido interesse de um homem de negócios pela enigmática Maria. Boas piadas não faltam e é impressionante como o filme não se esforça para que o humor funcione de maneira bem natural.

Por mais que MADAME denuncie as diferenças de classes e o modo como a empregada deve se portar, de acordo com as regras rígidas da patroa, não há uma intenção em tornar a rica dona da casa em uma vilã, mas também uma mulher insegura. Afinal, ela não faz sexo com o marido (bem mais velho que ela) há algum tempo e agora vê a empregada feliz e tendo uma aventura amorosa. Anne dá suas escapadas, mas isso não é o suficiente para que ela se sinta especial dentro daquela situação inesperada. Mesmo a narrativa transitando pelas histórias pessoais dos três personagens principais, é graças a Maria que a trama ganha força e maior interesse.

Para completar, há uma sensibilidade muito especial que a diretora imprime, trazendo dignidade e afetividade para Maria, que, depois de tanto tempo, tem a possibilidade de viver um grande amor, e não apenas ficar trabalhar de doméstica para poder pagar os estudos da filha, que mora na Espanha. Além do mais, o modo como o filme se encerra é também de uma beleza admirável. MADAME certamente não traz inovações no campo formal, mas acerta em tudo que tenciona.

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ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (Murder on the Orient Express)

Filme bonito de ver, mas maçante pra caramba de asssistir. Eu já não sou muito fã dessa coisa de whodunit, e do jeito que o Branagh fez não me entusiasmou nenhum pouco. Queria saber dos fãs da Agatha Christie. O Branagh, ele curte texto e também curte imagem, mas infelizmente está fora de forma faz muito tempo. Ao menos, ele rendeu um bom Poirot. Direção: Kenneth Branagh. Ano: 2017.

PATTI CAKE$

Filme que quer enganar posando de indie, mas é pior do que muito filme sobre superação e luta produzido com muito dinheiro. Achei fracos os momentos dramáticos, as músicas, o modo como o diretor quer que a gente sinta empatia pelos personagens, e até o senso de humor. Esperava mais. Direção: Geremy Jasper. Ano: 2017.

BONECO DE NEVE (The Snowman)

Não esperava que o filme fosse tão chato e tão desarticulado. Nem a montadora do Scorsese salvou esse aqui. Chega um momento em que eu não quero mais saber quem é o assassino. Só quero que acabe logo. Não sei se foi falha na hora de adaptar ou se o livro já era vagabundo mesmo. Tem cara de ser, não sei. Mas grandes diretores tiram grandes filmes de livros vagabundos, que o diga Hitchcock. Direção: Tomas Alfredson. Ano: 2017.

sábado, março 31, 2018

I LOVE YOU, DADDY

Eis um filme que não poderia ter sido feito em pior momento. Na verdade, do jeito que Louis C.K. narra a sua história de um pai que quer dar o melhor para sua filha adolescente, mas que se vê diante de uma situação complicada, fica a dúvida se ele queria provocar ou se estava sendo ingênuo ao abordar uma questão um tanto delicada dessas, por mais que, ao final, percebamos que I LOVE YOU, DADDY (2017) é uma espécie de conto moral.

O que acabou deixando o filme com fama de maldito (e proibido também, no caso) foi a repercussão negativa em torno das acusações de assédio sexual cometidas pelo diretor, ator e comediante. Talvez ele tenha sido mais vítima de suas taras (que envolviam ele gostando de se masturbar na frente das mulheres), não um monstro como foi Harvey Weinstein, esse sim um estuprador e manipulador que merece o desprezo da indústria e até a cadeia.

No caso de I LOVE YOU, DADDY, que só pode ser visto em cópia vazada na internet, Louis C.K. interpreta um roteirista de televisão que está passando uma temporada com a filha adolescente China (Chlöe Grace Moretz). A garota gosta de dizer que ama o pai, até porque o pai costuma satisfazer suas vontades. Como ir passar uma temporada com um grupo de outros adolescentes, fazendo só Deus sabe o quê. Em uma de suas primeiras cenas, Chlöe aparece muito à vontade de biquíni na casa do pai, enquanto ele conversa com o colega de trabalho. O fato de ela estar de biquíni nem deveria representar nada de mais do ponto de vista do erotismo, mas isso depende de quem vê o filme.

No entanto, não é a isso que I LOVE YOU, DADDY se apega. A verdadeira trama do filme surge quando a filha conhece um famoso cineasta veterano acusado de estupro e pedofilia. O sujeito é vivido por John Malkovich. Inicialmente, ela diz odiar o tal diretor, mas à medida que vai conversando com ele, começa a aproximação e posterior paixão. Por ele ser tão mais velho que ela, e ela ainda não ter completado 18 anos, a coisa fica mais delicada para o pai da garota, que se vê na tentativa de afastar a filha daquele velho tarado.

E o interessante é que Malkovich não faz muitos esforços. Ele apenas faz o papel habitual de personagem blasé e com uma boa dose de autoconfiança. Meio que uma variação do que ele já fez em outros filmes. Há outra subtrama que merece menção, que é a da personagem de Rose Byrne, uma atriz linda (e grávida) que ganha o coração do roteirista para ser a personagem principal de sua série. Quanto ao personagem de Malkovich, o curioso é que se a intenção de C.K. era  mesmo dar uma alfinetada em Woody Allen, o tiro saiu pela culatra.

sexta-feira, março 30, 2018

DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR (Un Beau Soleil Intérieur)

Há uma cena de DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR (2017) em que uma já cansada e sofrida Isabelle (Juliette Binoche) está em um táxi e pergunta ao motorista se ele está bem, como ele está se sentindo, quer, sinceramente, também saber dele. Tanto para saber do sofrimento alheio e quem sabe entender um pouco o seu, quanto para, talvez, se sentir menos sozinha ou mesmo encontrar alguma forma de alento. Esta é uma das mais belas, tristes e poéticas cenas do filme, embora seja também uma das mais simples. Precisa ser vista dentro do contexto dos acontecimentos anteriores para que seja melhor sentida.

No começo deste novo trabalho de Claire Denis, Isabelle, a heroína da narrativa, conversa de maneira bem pouco natural sobre seu drama, a dificuldade de encontrar alguém para amar, quase como se fosse um musical sem atores cantando. Na primeira cena do filme ela está transando com o amante, um homem casado, um banqueiro um tanto cínico. Ela é uma artista plástica que vive uma vida de menos posses para esbanjar, por isso o homem em certo momento a chama de proletária.

Mas a questão do dinheiro nem é um elemento forte do filme, não. O mais importante é a busca pelo amor, uma busca que esbarra constantemente em frustrações, em sentimento de rejeição. A história certamente encontrará identificação por parte do público, especialmente de um público que vive momentos frequentes de instabilidade na vida amorosa. Daí será fácil se ver um pouco na personagem de Binoche.

Aliás, que mulher, meus amigos. Esta afirmação é muito óbvia, levando em consideração que acompanhamos a atriz desde os anos 1980 e sempre com muita admiração, seja pela beleza, seja pela sensibilidade com que ela agarra os papéis. Mas em DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR ela parece estar mais plena como mulher. É possível que pelo olhar de uma diretora como Claire Denis ela tenha alcançado outro patamar de sensibilidade. Uma mulher desta vez vista pelo olhar de outra mulher.

E justamente por ser tão bela e tão apaixonante, é tão irritante vê-la ser rejeitada como nas cenas com o personagem do ator de teatro vivido por Nicolas Duvauchelle, que apareceu em DESEJO E OBSESSÃO (2001) e MINHA TERRA, ÁFRICA (2009), ambos da diretora. As cenas com Duvauchelle talvez sejam as melhores do filme, no sentido de mostrar a tensão de um primeiro encontro, a dúvida sobre o passo seguinte a dar, as palavras como agentes de atrito etc.

Talvez o filme comece a derrapar a partir de uma cena de festa, em que aparece um sujeito um tanto exótico, que chama a atenção de Isabelle. Sua aparência e seus gestos até provocam alguns risos da plateia. O humor em DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR é bastante singular e muito bem-vindo, servindo para atenuar o tom de tristeza da personagem.

Terminar como terminou representa uma promessa de um futuro melhor, ou ao menos de uma aceitação por parte da personagem sobre sua vida e seu destino. O conselho do personagem de Gerard Depardieu, em pequeno papel, parece um pouco óbvio até, mas como esquecemos continuamente tantas lições que a vida já nos ensina, é necessário que certas coisas sejam novamente ditas e lembradas.

Há momentos que lembram David Lynch: Binoche dançando ao som de "At last", em linda interpretação de Etta James, como escolha ideal de canção sobre a definitiva (?) chegada do verdadeiro amor; ou mesmo a primeira aparição de Depardieu dentro de um carro, quebrando um pouco a linha narrativa, inserem na obra um ar surreal bem-vindo. Estar "aberta", neste caso, vale também para as escolhas de Denis.

terça-feira, março 20, 2018

MARIA MADALENA (Mary Magdalene)

Já há tantos filmes sobre Jesus que atualmente os realizadores se sentem na obrigação de mudarem um pouco o foco, o ponto de partida, o recorte ou mesmo o ponto de vista. Temos o caso recente de ÚLTIMOS DIAS NO DESERTO, de Rodrigo García, que fazia um recorte do período em que Cristo combateu as tentações durante sete dias, em jejum. MARIA MADALENA (2018), de Garth Davis, é um pouco mais ousado em sua proposta: quer contar a história pelo ponto de vista de Madalena.

É interessante como, até os dias de hoje, a imagem de Maria Madalena ainda é associada a uma prostituta. Ou, no mínimo, a uma mulher com uma sexualidade muito forte. O próprio filme de Martin Scorsese, A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO, em sua adaptação do romance homônimo de Nikos Kazantzákis, mistura a personagem de Madalena com a mulher que seria apedrejada e é salva pelo Nazareno.

Por isso causa estranheza ver uma Madalena até mais ativa em servir ao mestre do que os apóstolos Pedro (Chiwetel Ejiofor) e Judas (Tahar Rahim), para citar os dois que mais aparecem na narrativa. Rooney Mara está ótima como uma Madalena que acredita ser possuída por demônios - seus familiares acham que são os demônios que a impedem de querer se casar com um forte pretendente. Como ela não nutre amor pelo homem, quer mesmo é seguir aquele estranho e intrigante profeta que tem arrebanhado cada vez mais pessoas por onde passa.

Demora um pouco para aceitarmos Joaquin Phoenix como Jesus, mas aos poucos sua imagem como Cristo se torna até interessante. Inclusive nas escolhas do filme em mostrá-lo sorrindo, junto com Madalena, em cenas que compartilham juntos. Passa uma leveza que normalmente não se vê em obras que tratam da vida de Jesus. Embora haja cenas da crucificação, elas são rápidas, o que não quer dizer que não sejam dolorosas.

O que também impressiona é o diferencial no que se refere à ressurreição de Jesus, trazendo dúvidas sobre seu real e material ressurgimento do sepulcro. Afinal, ele aparece apenas para Madalena e é ela a portadora da boa nova, de que Jesus vive. Ao que parece, o filme não optou por ser fiel ao evangelhos canônicos, sendo mais próximo dos evangelhos apócrifos.

Algo que fica no ar é um certo clima de amor romântico não consumado que parece haver entre Madalena e Jesus. Porém, este tipo de impressão pode dizer mais do espectador do que filme em si, já que não é de maneira nenhuma explicitado. Talvez a impressão fique por causa da beleza esplendorosa de Rooney Mara, de seu olhar e de seu sorriso, ao olhar para o mestre. Longe de trazer volúpia, mas sim uma figura cheia de energia e amor, o que pode confundir. De todo modo, esse tipo de confusão está de acordo com certo diálogo entre Pedro e outro apóstolo: os dois acreditam que a entrada de Madalena no corpo de apóstolos não seria bom para o grupo.

Quanto à narrativa, é bom termos um filme narrado sem pressa, sem um particular interesse em conquistar um grande público. É um trabalho quase sensorial, no modo como brinca com a luz e com os olhares e os diálogos lentos dos personagens. MARIA MADALENA pode até não ser um grande filme, mas certamente está bem longe de ser uma obra ordinária ou esquecível, e ainda tem como vantagem o fato de dialogar com o atual momento de empoderamento feminino.