quarta-feira, fevereiro 01, 2017

AS MIL E UMA NOITES























Um dos títulos mais badalados entre os críticos mundo afora, AS MIL E UMA NOITES (2015) apareceu em algumas listas importantes de melhores do ano de 2015, sendo as principais a da Cahiers du Cinéma (em oitavo lugar, primeira posição para MIA MADRE, de Nanni Moretti) e a da Film Comment (quinto lugar, primeira posição para CAROL, de Todd Haynes). Muito provavelmente a boa recepção da crítica a AS MIL E UMA NOITES se deve mais ao prestígio alcançado por Miguel Gomes ao longo dos anos e principalmente por causa de TABU (2012), possivelmente sua obra-prima.

AS MIL E UMA NOITES é uma versão totalmente livre do clássico homônimo da literatura, adaptando apenas o conceito, mas mesmo assim muito pouco. A maior parte das histórias se passa no Portugal contemporâneo, que vive uma de suas maiores crises financeiras. O filme faz questão de destacar esse dado já no começo, como também para justificar sua produção de natureza modesta, mas que ainda assim teima em querer fazer algo próximo do grandioso, começando a partir da duração: mais de seis horas. Essa metragem é dividida em três no lançamento dos filmes, que acabei vendo com um espaçamento de tempo bem considerável.  Por isso, minha memória do primeiro filme, que vi no final de 2015, acho, está mais nublada do que a dos outros dois, vistos em janeiro deste ano.

AS MIL E UMA NOITES: VOLUME 1, O INQUIETO

Se por um lado é um pouco difícil adaptar-se ao tipo de humor lusitano, ao menos para os brasileiros o primeiro volume já traz um primeiro segmento bem divertido e que lida com a sexualidade masculina e a ideia de poder. "Homens de Pau Feito" é um sarro. Antes disso, durante meia hora ficamos confusos com uma discussão do próprio diretor sobre o fazer ou não o filme e uma crise nos estaleiros. Na história, homens do alto escalão (o primeiro ministro português e os representantes da Troika) ficam de pau duro depois de utilizarem um spray milagroso para impotência. Há uma crítica ácida à política e ao machismo. "A História do Galo e do Fogo" brinca com mais outro absurdo:  o caso de uma família de um pequeno vilarejo que é levada a julgamento por ser dona de um galo que canta mais cedo que os demais. "O Banho dos Magníficos"  é bem menos engraçado, com ênfase na história de pessoas que perderam seus empregos, um retrato bem parecido do que o país vivia ou vive nesses tempos difíceis. 

AS MIL E UMA NOITES: VOLUME 2, O DESOLADO

Considerado pela maior parte da crítica como sendo o melhor dos três, este segundo volume é certamente o mais regular. "Crônica de Fuga de 'Simão sem Tripas'" nos apresenta a um homem procurado pela justiça, uma espécie de fora-da-lei totalmente destituído de glamour, o oposto do que se vê em filmes americanos que tratam tais tipos. O velho "Simão Tripas" mais parece um sertanejo teimoso. "As Lágrimas de Juíza" é o mais curioso pelas alegorias e pelas surpresas e lembra bastante alguns autos, embora o tipo de humor lusitano possa nos soar estranho, pela falta de contato maior com a cultura, por incrível que possa parecer. Nesse segmento, vemos um grupo de pessoas todas culpadas, deixando a juíza quase perdendo o juízo. Curiosamente, o episódio começa com uma cena de nudez gráfica que nos engana com relação ao tipo de história que iremos ver. "Os Donos de Dixie" é talvez o mais bonito deste volume, mostrando um cãozinho que passa por várias famílias. Acompanhamos o drama desses donos, ao mesmo tempo em que também vamos conhecendo mais sobre a classe média portuguesa. 

AS MIL E UMA NOITES: VOLUME 3, O ENCANTADO 

Curioso o caso deste terceiro volume, que chega a ser insuportavelmente chato a partir de seu segundo segmento. O primeiro, porém, é muito gostoso de ver, "Xerazade", em que somos apresentados à personagem emprestada da literatura vivendo uma aventura em uma ilha em que um rapaz loiro é o dono do pedaço, sendo pai de quase todas as crianças da região. Crista Alfaiate, que faz a personagem principal, é linda e encantadora e a história flui sem preocupação nenhuma com uma linha narrativa. Parece um quadro pintado com gosto mas sem saber no que vai dar. Há muita música brasileira, o que contribui para o prazer que nos proporciona. Talvez seja o meu episódio favorito de todos. Por outro lado, o que se vê em seguida, com "O Inebriante Canto dos Tentilhões" e "Floresta Quente" é de pedir a Deus para aquilo tudo acabar. Até porque as histórias sobre passarinheiros que pegam tentilhões para disputarem em cantos com um pano que cobre a gaiola é um tanto perversa. E tudo se estende demasiadamente, como se aquilo ali fosse o grande objeto de interesse de Miguel Gomes. Uma pena terminar a trilogia com algo tão incômodo. Sinceramente, não sei qual foi sua intenção.

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