sábado, junho 17, 2017

A MÚMIA (The Mummy)

E a Universal tenta mais uma vez trazer seus monstros clássicos de volta. Foram um sucesso gigantesco nas décadas de 1930-40 e tiveram uma revitalização pelos estúdios Hammer nos anos 1960-70. A tentativa de fazer filmes mais sérios e supostamente mais fieis a suas origens literárias na década de 1990, com DRÁCULA DE BRAM STOKER, de Francis Ford Coppola, e FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY, de Kenneth Branagh, foram da rival Columbia e o segundo filme acabou não agradando muito. Por isso, este novo A MÚMIA (2017), estranhamente estrelado por Tom Cruise, tem mais em comum mesmo com outra produção da Universal: justamente a aventura bem-humorada A MÚMIA (1999), de Stephen Sommers.

Daí vem a justificativa de ter um ator de filmes de ação como Tom Cruise encabeçando o elenco desta superprodução com sabor de filme B. Ou seja, encarando o filme como mera diversão escapista e nada mais, é possível gostar um pouco de A MÚMIA, de Alex Kurtzman, que brinca, inclusive, com a inclusão de outro monstro clássico na trama, ainda que isso conte mais pontos negativos do que positivos à produção.

O curioso é essa necessidade de encher o filme de efeitos especiais e de gente correndo o tempo todo. Isso acaba tornando, paradoxalmente, o filme com visual falso e andamento por vezes maçante. E pensar que é bom o A MÚMIA (1932), o original de Karl Freund, que não precisava disso. De todo modo, não devemos nos prender a propostas antigas, mas às novas, aceitando o novo filme como ele é, ou seja, uma brincadeira inofensiva com os gêneros terror, aventura e comédia e que contam com um ator que, apesar de estar em baixa, ainda é considerado do primeiro time de Hollywood. Sem falar na participação de Russell Crowe em um papel que deve render novas aventuras futuras, caso ele tenha se comprometido com o personagem em contrato.

Há pelo menos uma cena digna de nota em A MÚMIA: depois que os personagens de Tom Cruise, Jake Johnson e Annabelle Wallis (do horror ANNABELLE) conseguem descobrir um sarcófago egípcio em pleno Iraque, o plano deles é levá-lo para investigação. Acontece que a múmia que ficou presa por milhares de anos agora tem o poder de fazer um avião cair e trazê-los até onde estão outros objetos necessários para a finalização da maldição da múmia (Sofia Boutella). E a tal cena do avião é quase tão empolgante quanto as ótimas cenas de avião de filmes dos anos 1930. Pelo menos para alguma coisa o orçamento milionário serviu, além de pagar o salário de Cruise e de apostar em efeitos visuais genéricos.

Aliás, vale destacar que A MÚMIA, ao contrário de quase todas os filmes recentes protagonizados por Cruise, não foi produzido por ele. O astro foi convidado a interpretar o tipo que ele já está acostumado a fazer em seus filmes de aventura e ação e não um personagem mais desafiador, como o vampiro Lestat, no hoje cultuado drama de horror ENTREVISTA COM O VAMPIRO, de Neil Jordan.

De todo modo, mesmo com a recepção crítica ruim de A MÚMIA, já estão engatilhados pela Universal novos filmes com outros personagens clássicos do meio, como o Lobisomem, o Médico e o Monstro, Van Helsing, Frankenstein, o Homem Invisível etc. Se a moda agora é trabalhar com universos compartilhados, que o digam os sucessos da Marvel, da DC e até de Star Wars, então, o tal Dark Universe pode ser uma nova galinha dos ovos de ouro nascendo.

sexta-feira, junho 16, 2017

FRANTZ


Às vezes achamos que ver uma adaptação de certa obra que será refilmada pode atrapalhar um pouco sua apreciação, diminuir bastante suas surpresas, por exemplo. Felizmente, não é o que acontece com FRANTZ (2016), do prolífico François Ozon. Isso porque, mesmo depois de se ter visto recentemente NÃO MATARÁS (1932), de Ernst Lubitsch, as surpresas não param de saltar em inúmeros plot twists, ora feitos para nossa diversão, ora feito para machucar ainda mais os personagens e também a nós, espectadores.

No filme de Lubitsch, sabemos desde o início quem é o francês que está naquela cidadezinha alemã que está em luto logo após o fim da Primeira Guerra Mundial. Sabemos que ele está ali para conhecer e pedir perdão à família de Frantz, o rapaz que ele matou no front, durante a guerra. No drama de Ozon, porém, as motivações do jovem francês se constituem um mistério durante boa parte da narrativa.

Ozon, muito habilmente, manipula as expectativas do espectador, ao mesmo tempo que também brinca com subtextos homoeróticos, uma vez que há claramente uma tendência a se acreditar que Adrien (Pierre Liney) tinha algo mais do que uma amizade com Frantz, a partir de imagens em cores que surgem como possíveis flashbacks que mostram alguns bons momentos que os supostos amigos de países inimigos tiveram na França. O jogo de cores, aliás, é muito bonito, e geralmente elas surgem quando há algum momento de paz na trama.

E se não temos um patriarca tão amoroso quanto Lionel Barrymore em NÃO MATARÁS, é porque o cineasta francês opta por enfatizar ainda mais a relação dos jovens: o atormentado Adrien e a moça que casaria com Frantz, Anna (Paula Beer). Há uma cena que traz uma carga gay que torna mais complexa a relação entre Adrien e Anna: Adrien tem a ideia de tirar a roupa para nadar em um lago ali perto, durante uma caminhada com Anna. Sendo Ozon um cineasta que costuma integrar elementos queer em seus filmes com certa frequência, esse não seria o único momento em que poderíamos pensar em Adrien como um rapaz apaixonado não por Anna, mas pelo falecido Frantz.

Ozon, tendo já transitado por diversos gêneros e sabendo lidar tão bem com sentimentos e personagens mais profundos em títulos como O AMOR EM 5 TEMPOS (2004), O TEMPO QUE RESTA (2005) e O REFÚGIO (2009), mais uma vez nos coloca no lugar de uma personagem especialmente atraente. E não é Adrien, mas Anna. Afinal, é pelos olhos dela, principalmente, que vemos o filme. E é pelos olhos dela apenas que o ato final coloca este trabalho como um dos mais brilhantes e mais tocantes da carreira do cineasta francês.

O caminho que a heroína percorre na meia hora final diferencia o trabalho de Ozon completamente do filme de Lubitsch, que até se torna muito mais alegre e simples na comparação com a nova adaptação da peça de Maurice Rostand. No mais, vale deixar registrado: ouvir "A Marselhesa" cantada pelos franceses com sangue nos olhos é de arrepiar. Assim como o destino final dos atormentados personagens. Grande filme.

quinta-feira, junho 15, 2017

ROCK'N ROLL – POR TRÁS DA FAMA (Rock'n Roll)


A grande surpresa da edição deste ano do Festival Varilux de Cinema Francês talvez seja a comédia ROCK’N ROLL – POR TRÁS DA FAMA (2017), de Guillaume Canet. No filme, Guillaume Canet é Guillaume Canet e Marion Cotillard é Marion Cotillard. Pra não mencionar os tantos outros atores e atrizes que interpretam a si mesmos. Pelo menos supostamente. Só por isso, o filme já se torna bastante atraente. Além de se tornar um produto convidativo para que conheçamos mais do cinema francês contemporâneo, já que há várias piadas que só quem conhece as pessoas citadas vão entender melhor.

ROCK’N ROLL é desses filmes que acaba se encaminhando para algo totalmente diferente do que imaginaríamos, o que de certa forma é muito bom. O efeito surpresa é fundamental para que o filme seja apreciado ou até mesmo odiado. A primeira parte do filme nos apresenta a Guillaume Canet, um ator na faixa dos 40 anos que percebe que já não está mais na turma dos jovens astros em ascensão. Isso acontece principalmente em uma entrevista que ele dá com a sua colega de filme vivida por Camille Rowe, belíssima jovem modelo e atriz que interpreta sua filha no filme dentro do filme.

Indignado, Canet não acha nada legal estar fazendo o papel do pai daquela garota. E mais indignado ainda quando sabe de uma lista de atores “pegáveis” do cinema francês e que ele está lá no fim da relação. Quer dizer, não adianta ser um cara estabelecido e ainda por cima casado com Marion Cotillard, a juventude acaba se tornando uma obsessão para ele.

Marion Cotillard parece estar se divertindo muito no papel de uma atriz que tem mania de usar o método de imersão para dar força a seus papéis. É assim que, depois de convidada para atuar em um filme de Xavier Dolan (o não citado É APENAS O FIM DO MUNDO), cisma que precisa estudar e ficar falando no francês de Quebec. E isso não é nada bom para o marido que queria ao menos desfrutar de uma noite de sexo com a esposa.

E aí começam as mudanças de comportamento: se ele não é do tipo que bebe e usa drogas, passa a querer provar para os outros que pode sim entrar nessa vida desregrada, o que acaba rendendo algumas situações engraçadíssimas, como a cena da paralisia facial. Aos poucos, vamos percebendo que o próprio Canet aparece mais envelhecido de propósito para compor esse personagem decadente. Mais a frente, os trabalhos de maquiagem se tornarão fundamentais para a segunda e mais ousada parte do filme.

ROCK’N ROLL é um filme que faz uma crítica a esse modelo de comportamento de querer ser "forever young", mas o faz de maneira muito espirituosa, divertida e sem parecer estar dando uma lição de moral ou coisa parecida. Os excessos são abraçados pelos personagens e a sensação de estranheza acaba sendo mais do que bem-vinda. E se antes não tínhamos tanto motivo para acompanhar a carreira de Guillaume Canet, em detrimento da carreira de sua muito mais famosa esposa, eis o cartão de visita ideal.

segunda-feira, junho 12, 2017

PARIS PODE ESPERAR (Paris Can Wait)


Curiosa a trajetória de Diane Lane. Embora tenha aparecido e se destacado em filmes importantes quando jovem (seu primeiro filme é de 1979), foi com INFIDELIDADE, de Adrian Lyne, já com as pequenas rugas aparecendo, que ela de fato chamou a atenção como protagonista. Em seguida, pôde ser vista em duas comédias leves e agradáveis, SOB O SOL DE TOSCANA e PROCURA-SE UM AMOR QUE GOSTE DE CACHORROS. Tudo isso dentro do curto espaço de 2002-2005. O melodrama NOITES DE TORMENTA, de 2008, em que ela reencontra Richard Gere, talvez tenha sido seu último trabalho de destaque. Na verdade, nem são grandes filmes, mas que se tornam dignos de atenção por causa de Diane.

PARIS PODE ESPERAR (2016) é o seu retorno ao mundo das viagens na Europa e também a uma possível infidelidade, a uma tentação, durante uma viagem de carro de Cannes a Paris. Na trama, ela é Anne, esposa de um produtor de Hollywood (Alec Baldwin) que o acompanha no Festival de Cannes (edição de 2015). Acontece que ela está sofrendo de dores no ouvido e alguém sugere que ela não viaje de avião - o marido está indo a Budapeste antes de ir a Paris. A solução seria encontrar o marido em Paris e um francês amigo do marido, Jacques (Arnaud Viard), se oferece para levá-la à capital.

Há quem vá achar que PARIS PODE ESPERAR é só mais um filme sobre turismo, mas pode ser uma experiência maior e melhor do que se espera. A matriarca Eleanor Coppola se aventura na direção de seu primeiro filme de ficção e sabe acentuar bem não apenas as diferenças entre americanos e franceses, mas também suas afeições mútuas. Vem de muito longe o namoro entre Estados Unidos e França e da mesma forma que tantos cineastas franceses homenagearam obras e diretores americanos, os franceses são apreciados em muitos aspectos pelos americanos, por sua maior sofisticação cultural e culinária.

Enquanto Jacques é o homem que crê que a vida deve ser muito bem vivida a cada momento e cada sabor, Anne é uma mulher essencialmente visual. Ela está sempre tirando fotos de tudo que encontra pelo caminho, da comida, inclusive. Não que isso seja uma simplificação do que hoje se vê nas redes sociais. Suas fotos são mesmo obras de arte, como bem destaca Jacques, sempre elevando o astral de Anne e fazendo-a perceber o quanto ela é uma mulher especial.

Esse francês galanteador tornará a viagem de Anne memorável, embora não se saiba o futuro dos dois. De todo modo, PARIS PODE ESPERAR não é exatamente sobre a relação desse casal e uma possível infidelidade, mas como esse percurso é importante para ambos, como, aliás, é tarefa de todo road movie de vergonha. E também como deve ou deveria ser toda viagem que fazemos, enriquecendo nossa alma através do contato com novas pessoas, novos lugares e novos sabores. Nós, espectadores, ganhamos em um filme como esse um passeio baratinho pela França, além de um olhar de cumplicidade para aqueles personagens. Que o diga o olhar final de Diane Lane para a câmera-espectador.

quinta-feira, junho 08, 2017

BEIJO NA BOCA


Um dos maiores méritos desses filmes brasileiros produzidos no início da década de 1980 é que eles estão mais inundados de uma voltagem erótica e uma maior nudez gráfica que permitem que sejam até hoje muito mais excitantes do que a grande maioria dos filmes pornográficos e com a vantagem de que isso não atrapalhe o andamento e o interesse da trama. É possível dizer isso pegando como exemplo um filme apenas mediano como BEIJO NA BOCA (1982), de Paulo Sérgio de Almeida.

Essas produções realizadas no Rio de Janeiro ainda tinham a vantagem de contarem com grandes nomes da teledramaturgia brasileira, como é o caso aqui do casal vivido por Cláudia Ohana e Mário Gomes, para citar apenas os protagonistas. Ambos funcionam muito bem nos papéis de dois jovens que querem viver uma vida fácil e dedicada principalmente ao prazer, mais especificamente ao sexo, sem qualquer preocupação com trabalho ou coisa do tipo. No entanto, há um preço a se pagar por isso e o filme mostra isso sem parecer moralista. De qualquer maneira, nem é preciso sair por aí dizendo que não se deve matar os ex-namorados da mulher que ama.

Aliás, o interessante do filme está mais em sua primeira metade, que explora a relação dos dois, que, principalmente na primeira cena, no motel, traz uma cena erótica bastante convincente e cheia de sensualidade. O modo como Cláudio Ohana se despe para subir tirando a roupa em cima do corpo de Mário Gomes passa uma vontade, um desejo, que transpira sexo. As demais cenas sensuais não serão tão boas ou convincentes, mas essa compensa as demais.

"Você não sabe o que passa pela cabeça de uma mulher com 21 anos de idade", diz Joana Fomm, no papel da mãe de Celeste, personagem de Ohana, ao marido, um militar linha-dura vivido por Milton Moraes. Esta frase, junto com a apresentação da personagem logo no início, tomando banho em casa depois de um quentíssimo sol de verão na praia, ajudam a dar o tom do calor da personagem e do modo como ela está disposta a entrar de cabeça nas relações físicas.

E é quando ela conhece um sujeito meio malandro em um planetário. Mário, personagem de Mário Gomes, não precisa se esforçar muito para ganhar uma nova namorada. E o modo como ele ama Celeste é de natureza bem carnal. Mário não diz que está apaixonado por ela, ele diz que está completamente tarado por ela. A paixão sobe à cabeça, assim como o ciúme, e Celeste acaba entregando algumas coisas do seu passado, sem saber do potencial de psicopata de Mário.

É quando o filme começa a desandar, embora seja bastante incômoda a cena na praia, em que Mário encontra um ex de Celeste. A cena é violenta e um tanto perturbadora. Nesse sentido, por mais chulo que a obra pareça no desenvolvimento dessa parte criminal, tem como mérito esse sentimento de mal estar provocado por essa cena em particular.

Pode-se dizer que o principal autor do filme é Euclydes Marinho, o roteirista que assinou a minissérie A VIDA COMO ELA É... (1996) e os longas para cinema PRIMO BASÍLIO (2007) e SE EU FOSSE VOCÊ 2 (2009), todas obras dirigidas por Daniel Filho. Enquanto isso, o diretor Paulo Sérgio de Almeida amargaria um fim de carreira triste com alguns horrorosos filmes da Xuxa.

segunda-feira, junho 05, 2017

TWIN PEAKS – O MISTÉRIO (Twin Peaks – The Entire Mistery)



TWIN PEAKS (1990-1991), a série original de David Lynch, nunca deixou de ser vista e revista ao longo de todos esses anos. Tanto por ser cultuada e querida quanto por ser criação (ou co-criação, já que não podemos deixar Mark Frost de fora) de um dos mais admiráveis cineastas de todos os tempos. Mas desde àquela época que nunca se falou tanto em Twin Peaks.

Isso se deve, claro, ao chamado TWIN PEAKS – O RETORNO (2017), um dos maiores eventos cinematográficos do ano. Mesmo sendo feito para a televisão, os dois primeiros episódios foram exibidos em Cannes e foram o maior sucesso do festival, superando em recepção todos os demais filmes, seja os da mostra competitiva, seja os da Un Certain Regard.

Não podia deixar de me preparar para o grande e enigmático retorno de TWIN PEAKS sem rever tudo o que fosse possível da série. Ou seja, as duas temporadas completas, o filme TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (1992) e a grande pérola do box em BluRay, TWIN PEAKS – THE MISSING PIECES (2014), as cenas deletadas do filme e que estavam, até então, inéditas. A surpresa é constatar que se trata de material de primeiríssima qualidade, talvez superando até mesmo o filme, por mais que isso possa parecer um exagero vindo de algo que depende de outras duas obras – filme e também série – para se compor.

Mas há algo em tudo que Lynch faz – ou quase tudo, pelo menos – que dá impressão de que cada cena dirigida por ele é como um presente para os amantes do grande cinema. E é assim que nos sentimos, mesmo tendo que passar por momentos tediosos e fora dos trilhos da segunda temporada da série, justamente por ter sido abandonada por ele durante um tempo.

TWIN PEAKS – A SÉRIE ORIGINAL

Rever a série original, além de se apaixonar de novo por Audrey, claro, é como visitar um lugar que você ama muito e que não cansa de revisitar. Principalmente o piloto, que eu já havia assistido várias vezes em uma cópia em VHS, e depois em cópias em DVD. È um trabalho que consegue unir ao mesmo tempo diversos gêneros – melodrama, história de detetive, suspense, terror, comédia etc. – e conseguir ser bem-sucedido em todos os aspectos. Foi uma revolução na época, algo que mudou para sempre a televisão, mas disso todo mundo já sabe.

O que teria, então, para acrescentar a uma série de que eu mesmo já falei aqui? Talvez apenas reforçar o quanto o piloto continua sendo a produção feita para a televisão mais impressionante de todos os tempos. Tantas cenas e tantos sentimentos e sensações ficam gravadas em nossa mente e nosso coração. A música maravilhosa de Angelo Badalamenti, o adorável e divertido Agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan), o modo como aquela cidadezinha é introduzida aos poucos, com todo o mistério e toda a graça. As mulheres lindas da série (Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, Mädchen Amick, Lara Flynn Boyle, Peggy Lipton), o mistério (que infelizmente teve que ser solucionado antes do tempo por causa da pressão da emissora), a ideia de um mundo alternativo que abriga entidades um tanto assustadoras, as inúmeras referências a vários clássicos do cinema. Tudo isso e muito mais fazem parte do encantamento da série.

David Lynch só dirigiu seis episódios para a série original, sendo que dois deles são o piloto e a series finale. E embora seja complicado deixar muita coisa nas mãos de diversos diretores claramente menos brilhantes, acompanhar a série, principalmente até o momento da revelação e do consequente fim do assassino de Laura Palmer, é muito bom. Por esses dias, graças à leitura de um livro sobre a série, acabei sabendo de detalhes de bastidores que me ajudaram a entender muita coisa que aconteceu ali, como as intervenções dos próprios atores para o andamento da trama, com o fato de Kyle MacLachlan não ter aceitado ser par de Audrey (Sherilyn Fenn) por achar que ela era uma colegial e isso não ia cair bem para ele. Ou que Sherilyn Fenn recusou usar fazer parte do concurso de Miss Twin Peaks por achar ridículo ficar ali de maiô, junto com as outras. São pequenas coisas que a gente percebe que vão modificando uma obra em aberto.

TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (Twin Peaks – Fire Walk with Me)

Rever o filme desta vez, imediatamente após ver a série, me deu uma estranha sensação, pela primeira vez, de que se trata de uma obra quase redundante, algumas vezes. De todo modo, é possível ver de outra maneira, a cada vez que vemos certas cenas que já havíamos criado em nossa mente, através da série, materializadas ali, quando o tempo volta e somos convidados a adentrar novamente naquele universo. E dessa vez Lynch podia ser mais ousados na violência e incluir algumas cenas de nudez, inclusive de sua estrela Laura Palmer (Sheryl Lee).

Mas o que mais dá para admirar em TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER é a construção visual. Fico exatamente triste de não ter tido a chance de ver esta obra no cinema e ver agora em BluRay não muda essa falta. Acho que não chegou a passar nos cinemas da cidade, pois lembro de ter visto CORAÇÃO SELVAGEM (1990) no cinema e já nessa época era fã de Lynch. Deve ter tido uma distribuição pequena, não sei.

Há pelo menos duas cenas bem assustadoras, envolvendo o assassino Bob na casa dos Palmer. E uma delas surge para tornar aquilo que já havíamos achando extremamente perturbador na série ainda mais intenso: o fato de que estamos diante de uma história de abuso sexual envolvendo pai e filha. Isso é terrível. É quando o horror do sobrenatural perde espaço para o horror da vida real.

Mas o filme é também uma espécie de tentativa de Lynch de trazer paz para o espírito de Laura, levando-a para uma espécie de paraíso, com direito a um anjo protetor. Assim, é mais um filme sobre redenção de uma alma sofrida, como O HOMEM ELEFANTE (1980) também foi.

TWIN PEAKS – THE MISSING PIECES

Ter acesso ao material não incluso na versão para cinema de TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER é ter acesso a uma joia escondida. Embora seja uma obra incompleta, ela se torna completa à medida que a somamos com o que já conhecemos. Assim, a edição, feita na mesma ordem da narrativa do filme, faz dessas cenas deletadas uma obra à parte, com brilho próprio.

Algumas cenas são extremamente tocantes, como uma sequência simples de Norma (Peggy Lipton) e Big Ed (Everett McGill) na caminhonete. Naquele momento, ambos estavam procurando paz em um mundo que lhes negava, ou ao menos dificultava o amor. Também gosto muito da cena de Laura no porão da casa de Bobby (Dana Ashbrook), pedindo um pouco de cocaína. Ele percebe que ela não gosta de verdade dele, que está com ele por causa das drogas. É uma das mais bonitas humanizações do personagem. No filme, a cena é mostrada de maneira bem curta e pouco impactante.

THE MISSING PIECES é também a chance de rever alguns personagens que não tinham tanta relação com a história de Laura, mas que tinham bastante importância na série. Em separado, essas cenas são uma delícia de ver. Há, também, mais de David Bowie, o enigmático agente especial Phillip Jeffries. Aliás, é importante destacar que as cenas com Jeffries são o elo perdido entre a série e a nova revolução de Mr. Lynch. Sem falar que é também um trabalho que tem um compromisso maior em fazer conexão com o fim da série em 1991.

OS EXTRAS

São poucos os extras que merecem menção especial, e alguns deles já podiam ser vistos na edição em DVD de TWIN PEAKS. Vale destacar a descrição de Angelo Badalamenti do processo criativo de "Laura Palmer's Theme". Cheguei a ver algumas vezes e me peguei chorando de emoção com aquilo. No mínimo, arrepiante. Assim como também é arrepiante ouvir de Julee Cruise falando do quanto lhe era difícil cantar "Falling", como ficava sem energia, dada a carga intensa de emoção. Ah, dos depoimentos de atores, vale destacar o testemunho de Al Strobel de quando ele perdeu o braço. È no mínimo impressionante. O ator interpreta o misterioso Mike, o homem de um só braço que também habita o Black Lodge.

Do material inédito, o que vale destacar mesmo são duas entrevistas que o próprio Lynch faz com os Palmer: primeiro com os três reaparecendo envelhecidos e contando como estão no mundo dos vivos ou dos mortos. Em seguida, há a entrevista de fato com os atores, que se mostram extremamente gratos e ansiosos em trabalhar novamente com Lynch. Talvez naquele momento a ideia de um retorno já estivesse na mente do mestre.

sábado, junho 03, 2017

MULHER-MARAVILHA (Wonder Woman)


Como começar a falar sobre MULHER-MARAVILHA (2017)? Pelos seus acertos ou pelas suas falhas? Comecemos pelos acertos. E o maior deles é a escolha de Gal Gadot para interpretar a mais icônica das super-heroínas já criadas. Ela dá luz tão bem à princesa amazona que deixamos de imaginar outra atriz para o papel. É como se a atriz e modelo israelense tivesse nascido para ser a Mulher-Maravilha.

Outra coisa que funciona relativamente bem é o modo como a princesa é apresentada, na Ilha Paraíso. O problema da origem da personagem é que não há maiores explicações sobre como ela recebeu seus poderes ou detalhes sobre a relação das amazonas com os deuses gregos. A história é contada em um longo flashback a partir de uma foto enviada pelo Batman à Mulher-Maravilha no final de BATMAN VS SUPERMAN – A ORIGEM DA JUSTIÇA, de Zack Snyder. A foto, que mostra Diana com um grupo de homens durante a Segunda Guerra Mundial, será o catalisador não só das lembranças de Diana e sua relação com um desses homens, vivido por Chris Pine, como da própria introdução da princesa amazona no mundo do patriarcado.

E é de se imaginar o impacto que é adentrar o mundo dos homens justo quando o mundo parece estar ruindo, devido a uma guerra que levou à morte milhões de pessoas. Para Diana, sua missão é encontrar Ares, o deus da Guerra, o grande responsável pelo que está acontecendo naquele momento. Vale lembrar que, do ponto de vista da astrologia, essa ideia não é de todo infundada, já que, no período de 1909 a 1944, o grande regente foi Marte.

Esse aspecto da busca de Diana é tratado com certa ambiguidade no início. Afinal, existe mesmo esse tal deus Ares ou aquilo é só mais um dos elementos que fazem parte das características inocentes e, justamente por isso, igualmente adoráveis da personagem? Enquanto a resposta não vem, embora quem conheça os quadrinhos já possa antecipar, é muito gostoso poder ver esses momentos de descoberta de Diana junto ao primeiro homem que ela encontra na vida, Steve Trevor (Pine).

Cada momento de Diana com Steve eleva o filme a pontos altos. A cena em que ela o encontra no banho; a conversa no barco; o momento de comprar novas roupas; a cena da dança (“É isso que os homens fazem quando não estão guerreando?”); a dramática cena do avião. Que, aliás, poderia ser mais dramática, mais eficiente nesse sentido, já que acompanhamos aqueles personagens desde o momento em que se conheceram.

Acontece que aquilo que é uma das coisas mais esperadas no filme, as cenas de ação com a heroína, acabam não sendo tão boas assim, muito por culpa do excesso de efeitos especiais, efeitos que não são tão bons, na verdade. Em alguns momentos, até é possível imaginar que algumas cenas, como as dos aviões no ar, foram feitas com a intenção de imitarem as antigas cenas de batalhas no céu em filmes das décadas de 1930 e 40, sem, no entanto, conseguirem ter o mesmo impacto de fazer com que sintamos que estamos no céu e em perigo, a bordo de um daqueles teco-tecos.

Mas o que incomoda mesmo é a conclusão, com a grande disputa épica da princesa com o deus Ares, que é mais um daqueles vilões excessivamente chatos e grandiloquentes que já cansaram há tempos, embora não seja muito diferente do Ares apresentado nos quadrinhos na série de histórias escritas por George Pérez, por exemplo, para citar um dos autores mais importantes na história dos quadrinhos da Mulher-Maravilha.

Como filme sobre a Segunda Guerra Mundial que apresenta um super-herói, MULHER-MARAVILHA é equivalente a CAPITÃO AMÉRICA – O PRIMEIRO VINGADOR, da Marvel, que é um trabalho muito melhor e que consegue nos fazer acreditar que o Capitão é mais do que um sujeito com um escudo na mão. Acreditar na Mulher-Maravilha e em seus poderes é um ato mais de aceitação do que de convencimento por parte da direção de Patty Jenkins e do roteiro Allen Heinberg.

E muito dessa aceitação se dá mais pela beleza divina e encantadora de Gal Gadot e por seu carisma do que pelo roteiro. Há, inclusive, um excesso de metragem que faz com que o filme se prolongue e se torne, muitas vezes, maçante. Não é o tipo de obra que queiramos ver novamente tão cedo, diferente do tão malhado BATMAN VS SUPERMAN, cujas falhas são bastante visíveis, mas que possui uma fluidez narrativa muito mais eficiente e atraente.

Pesando prós e contras, o filme da Mulher-Maravilha pode ser considerado um sucesso e um alívio para a DC/Warner, que, depois de ter amargado dois filmes considerados ruins pela crítica e por boa parte dos próprios decenautas, alcança redenção e esperança no futuro através de um filme que ainda tem o mérito de ser visto à parte dos demais, por se passar em outra época e ter uma cara própria.

quinta-feira, junho 01, 2017

A GAROTA DESCONHECIDA (La Fille Inconnue)


Embora A GAROTA DESCONHECIDA (2016) tenha sido recebido com alguma frieza e seja encarado como uma obra menor ou mesmo um deslize na filmografia dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, não há como negar que se trata de uma obra que carrega explicitamente o DNA dos criativos irmãos, e um filme que dialoga bastante com seus trabalhos anteriores, especialmente o imediatamente anterior, DOIS DIAS, UMA NOITE (2014), inclusive pela estrutura semelhante.

Troca-se a busca desesperada pelo emprego perdido em um mundo cruel em que o capital está acima dos valores humanos pelo mesmo mundo cruel, mas um mundo cruel que, dessa vez, trata imigrantes pobres como lixo. Por mais que saibamos que não tenha sido essa a intenção de Jenny Davin, a personagem de Adèle Haenel (FACES DE UMA MULHER), tratar como lixo a mulher que aparece em seu consultório médico após o horário de encerramento do expediente, há toda uma questão social que vem à tona e Jenny se transforma numa espécie de representação do que seria a culpa de toda uma sociedade rica europeia frente aos imigrantes pobres, que só estão ali porque seus locais de origem foram saqueados e destruídos por essas pessoas que agora vivem em situação mais abastada.

Não abrir a porta para aquela garota desconhecida resultou em seu assassinato. Ela estava fugindo de alguma pessoa e agora Jenny se sente culpada e quer ao menos descobrir a identidade dessa mulher para que a família seja notificada e e jovem falecida não seja enterrada como indigente. A busca de Jenny é de natureza exagerada até, chegando até mesmo a correr risco de ser morta, caso dê de cara com o responsável pelo assassino em sua caminhada, que vai ficando muito mais importante do que sua rotina de trabalho como médica.

A trajetória de Jenny lembra um pouco também a do menino Cyrill, de O GAROTO DA BICICLETA (2011), na busca pelo pai. Tão próximos um dos outro, os três filmes até formariam uma espécie de trilogia da busca dos cineastas belgas. E, assim como esses e os demais trabalhos dos realizadores, A GAROTA DESCONHECIDA também opta por um registro muito simples na direção de arte e no uso bastante econômico da música. Aliás, o fato de quase não haver música nessas obras contribui bastante para que elas conquistem o interesse do espectador através do desconforto e da tensão gerada por esses silêncios. Não há também um interesse, por parte dos Dardennes, em criar falas memoráveis. As falas são próximas da vida real, sem floreios, mas tão contundentes quanto uma pedrada.

A GAROTA DESCONHECIDA foi mais um dos títulos da excelente safra apresentada no Festival de Cannes do ano passado.

quarta-feira, maio 31, 2017

MELHORES AMIGOS (Little Men)























Ira Sachs, que anda conquistando boa parte da crítica desde pelo menos DEIXE A LUZ ACESA (2012), anda trilhando um caminho curioso em sua busca por chamar um público cada vez maior aos seus filmes de temática homoafetiva. Do seu primeiro filme de grande repercussão ao seguinte, O AMOR É ESTRANHO (2014), já se notava uma tendência do cineasta a se aproximar do mainstream, embora isso não seja exatamente um problema se a intenção é contar uma história em que o sexo não é um elemento tão importante. No caso, o mais importante é o amor entre os dois protagonistas.

E o mesmo acontece em MELHORES AMIGOS (2016), embora aqui não haja efetivamente uma relação de contato físico entre os dois meninos de 13 anos. Quase pode ser visto como um filme sobre amizade na adolescência sem a intenção de ver a história como sendo a do surgimento do primeiro amor, ou algo do tipo. Até porque o filme é muito sutil ao abordar essa amizade dos dois garotos.

Assim como em O AMOR É ESTRANHO, são questões de ordem socioeconômicas que fazem com que os protagonistas tenham seu relacionamento afetado. A trama nos apresenta primeiramente a Jake (Thoe Taplitz), um garoto que está se mudando para o Brooklyn com seus pais, vividos por Greg Kinnear e Jennifer Ehle. Os pais mudaram-se para essa nova casa, que foi deixada pelo patriarca, recém-falecido.

O velho alugava a preço barato um pedaço do edifício para uma mulher chilena (Paulina García) e seu filho Tony (Michael Barbieri, ótimo) cuidarem de uma pequena loja de roupas. A chegada dos filhos, que querem aproveitar mais o espaço e o potencial de lucro daquele lugar, acaba prejudicando a vida daquela família simples.

Os dois meninos, porém, sem saber o que acontece e vivendo suas vidas como pessoas daquela idade, sem as preocupações de adultos, acabam por se tornarem melhores amigos. E é justamente o modo delicado como o filme trata essa amizade que está o grande desafio e o grande mérito de MELHORES AMIGOS. No fim das contas, por mais que a história seja importante, é o que acontece no meio dos espaços entre os diálogos que torna o filme um dos mais bonitos trabalhos sobre a amizade na adolescência, esse espaço difícil em que a vida adulta começa a bater à porta.

É trazendo essa questão, a da iminência do futuro, que a cena mais bonita do filme é a de um diálogo entre Jake e seu pai, lá perto do final. MELHORES AMIGOS já nos havia ganhado forte àquela altura. E é difícil não ficar com os olhos marejados e o coração triste naquele momento. Só por isso filmes assim já merecem o nosso respeito. E esse ainda ajuda a elevar e trazer mais luz e interesse na filmografia passada e futura de Ira Sachs.

segunda-feira, maio 29, 2017

FACES DE UMA MULHER (Orpheline)

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Eis um filme que cresce à medida que pensamos nele. FACES DE UMA MULHER (2016), de Arnaud des Pallières, apresenta quatro estágios da vida de uma mesma mulher, mas de maneira desconcertante e um tanto confusa a princípio. Até que o espectador perceba que determinada atriz representa a mesma pessoa demora um pouco, embora essa estranheza e esse desconforto sejam bem-vindos e provoquem no espectador um interesse em unir as pontas.

A confusão se dá muitas vezes pelo fato de as personagens aparecerem com diferentes nomes, embora o filme, logo no início, desmascare uma delas com um nome falso. Trata-se de Renée (Adèle Haenel, de A GAROTA DESCONHECIDA), que tem sua rotina de vida (como professora de crianças) perturbada pela chegada de uma mulher recém-saída da prisão (Gemma Arterton). A chegada daquela mulher representa o fim de seu sossego.

Do ponto de vista formal, percebe-se, logo de cara, a fotografia que destaca os rostos com seus detalhes ressaltados: as olheiras nos olhos de Haenel; as sardas de Arterton; mais à frente os hematomas, feridas e uma maquiagem com um exagero no uso do vermelho dos lábios, como na tentativa de restaurar a beleza dessas mulheres maltratadas. E haja maus tratos. As mulheres do filme de des Pallières recebem porrada a todo instante. E isso dói também no espectador ver tais atos de violência, sempre praticados quase sempre por homens mais velhos.

Logo em seguida, somos apresentados a Sandra (Adèle Exarchopoulos, de AZUL É A COR MAIS QUENTE), uma jovem em seus 18-20 anos que está em busca de dinheiro, seja através de um emprego normal, seja através da "adoção" por um homem mais velho. Essa oferta, ela recebe de um senhor viciado em jogos e corridas de cavalos. A vida de Sandra cruzará com Tara (Arterton) também. Quem não perceber de início, mais à frente perceberá que estamos diante de um flashback da personagem anteriormente apresentada.

Mas o filme vai mais longe e nos apresenta a outras duas interessantes atrizes/personagens: Karine, a garota de 13 anos rebelde e que sai em festas noturnas para adultos e é violentada/castigada pelo pai; e a garotinha de 6 anos Kiki (Veja Cuzytek), que tem uma vida normal até que um evento envolvendo seus amiguinhos de infância muda sua forma de ver o mundo. Ou parece ser essa a intenção de o filme procurar dar motivo para o comportamento posterior da personagem, em suas diferentes encarnações.

Algumas situações ficam pouco claras, mas isso não chega a ser um grande problema. Ao contrário: só dá ao filme um charme todo especial. Os personagens masculinos, em sua maioria, são egoístas, violentos ou pouco compreensivos, mas dois deles fogem a essa regra, os personagens de Sergi Lopez e Jali Lespert. Este último é parte fundamental de um dos momentos mais especiais do filme, envolvendo a gravidez da protagonista.

Às vezes parece faltar em FACES DE UMA MULHER um pouco mais de coesão nas histórias dessas personagens, mas esse aspecto fragmentado pode ser visto como um ponto positivo em um filme que valoriza não apenas a narrativa, mas também a construção de climas tensos e sensuais e de um visual que sabe lidar muito bem com a vida sofrida dessa mulher múltipla, quebrada e fugidia.

domingo, maio 28, 2017

SETE FILMES VISTOS NO FESTIVAL VARILUX DE 2016























A edição do ano passado Festival Varilux de Cinema Francês foi uma das melhores, se não a melhor em termos de quantidade de ótimos filmes vistos. E o curioso é que boa parte desses filmes não são de cineastas cultuados ou renomados. São nomes relativamente novos e de menor expressão. Se em 2016 estava assim, este ano promete ser ainda melhor. Veremos. Enquanto isso, falemos um pouco destes sete filmes que deveriam ter tido mais espaço ao longo do ano no blog, mas que acabaram, por um motivo ou outro, ficando de fora.

CHOCOLATE (Chocolat)

O filme que abriu o festival, CHOCOLATE (2016), quarto longa-metragem de Roschdy Zem, tem como principal força a presença e o carisma de Omar Sy, como o primeiro artista de circo negro da França. A história de Rafael Padilla, que ficou conhecido como o palhaço Chocolat nos últimos anos do século XIX, é bem comovente. Descoberto por um artista de circo britânico, George Footit (James Thiérrée), ele e Footit tiveram dias de glória e sucesso como uma dupla na Paris da Belle Epoque. Mas a questão racial vem à tona, assim como o fato de que Chocolat sempre interpretava o sujeito que apanhava nos espetáculos, o que acabou o incomodando, assim como também sua vontade de alçar vôos maiores e provar que podia ser também um grande ator. A história de decadência, amizade, fortuna acaba com um gosto bem amargo, mas isso só torna o filme ainda mais forte.

MARGUERITE

Catherine Frot ganhou o César de melhor atriz em 2016 por seu papel em MARGUERITE (2015). Na verdade, a personagem Marguerite Dumont é uma construção fictícia em cima da britânica Florence Foster Jenkins, que ganharia um filme próprio quase na mesma época, dirigido por Stephen Frears: FLORENCE – QUEM É ESTA MULHER?. Mas o sexto longa-metragem de Xavier Giannoli tem o seu brilho todo próprio, até por ser menos cômico e mais trágico do que a versão de Frears da história, embora ambos tenham em comum sua parcela de tragicidade. A personagem é convencida de que é uma boa cantora, mas as pessoas só querem tirar proveito de seu dinheiro, e ainda por cima escarnecer de sua voz e do ridículo da situação. Há um cuidado com a direção de arte que chama a atenção no trabalho de Giannoli.

UM HOMEM, UMA MULHER (Un Homme et un Femme)

O clássico do festival do ano passado foi UM HOMEM, UMA MULHER (1966), de Claude Lelouch, Eu, particularmente, fiquei um tanto decepcionado com o filme, embora admita que se trata de uma obra que tem sim o seu charme. Gosto principalmente das cenas que não economizam diálogos entre os dois amantes. É quando o filme mais dialoga com o cinema contemporâneo. Mas o excesso de vezes em que a canção-tema toca e mais algumas cenas que parecem pouco expressivas para a construção do romance do casal acabam prejudicando um pouco. De todo modo, foi muito bom poder ver este filme, em cópia restaurada, no cinema.

VIVA A FRANÇA! (En Mai, Fais Ce Qu'il Te Plaît)

Quarto longa-metragem de Christian Carion, VIVA A FRANÇA! (2015) é mais um bom drama de guerra que fala sobre a resistência francesa nos tempos terríveis da Segunda Guerra Mundial. Neste filme, vemos o começo da invasão alemã no território francês e a imagem dos aviões avançando pelos céus talvez seja um dos momentos mais memoráveis, embora o drama mesmo aconteça nos momentos seguintes, quando inocentes são assassinados por soldados nazistas. O filme se passa em espaços rurais e se concentra em personagens que resolvem contrariar as ordens do governo francês e fugir para outros lugares, abandonando seu vilarejo. O personagem principal, porém, é o de um alemão refugiado na França, e que justamente por isso acaba correndo perigo. O fato de ele se perder de seu filho pequeno contribui para a força do drama. Há trilha do mestre Ennio Morriccone, produção caprichada, mas parece faltar algo para que seja o grande filme que almeja.

AGNUS DEI (Les Innocentes)

A diretora Anne Fontaine já havia comparecido ao Festival Varilux com alguns bons filmes, COCO ANTES DE CHANEL (2009) e GEMMA BOVERY – A VIDA IMITA A ARTE (2014). O novo trabalho, AGNUS DEI (2016, foto), é mais ambicioso. E talvez até mesmo seja o seu melhor filme, embora não tenha visto os demais. O próprio ponto de partida já é bastante curioso: dezenas de freiras polonesas aparecem grávidas em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra. Ficamos logo sabendo que todas elas foram vítimas de estupro por parte de soldados do exército russo. O filme faz uma investigação cuidadosa do estado psicológico delicado, já que, além de terem passado por uma situação obviamente traumática, ainda há questões relativas à religião, à dificuldade de exposição do corpo, até mesmo para a enfermeira da Cruz Vermelha, muito bem interpretada por Lou de Laâge, que é chamada para atender àquelas mulheres religiosas. Há um momento especialmente bem emocionante.

LA VANITÉ

Provavelmente o filme que mais foge do convencional dentre os exibidos no Festival, LA VANITÉ (2015), de Lionel Baier, nos apresenta a um microcosmo habitado por um homem que deseja pôr fim à própria vida (Patrick Lapp), uma mulher destinada a executar o serviço (Carmen Maura) e um garoto de programa (Ivan Georgiev). O minimalismo do local contrasta com a complexidade da psicologia dos personagens e o modo criativo com que a história evolui. Sem falar no cuidado no uso das cores nos ambientes internos e até mesmo externos, claramente artificiais, feitos em estúdio. Embora seja um filme que lide com a questão da valorização da vida vs. desencanto, isso nunca é simplificado ou banalizado, o que só eleva o filme cada vez que pensamos nele.

A VIAGEM DE MEU PAI (Floride)

Na época de sua exibição no festival, A VIAGEM DE MEU PAI (2015), de Philippe Le Guay, foi exibido com o título de “Flórida”, tradução direta do título original. Trata-se de um dos belos exemplares do quanto o cinema francês sabe equilibrar a comédia do drama como poucas cinematografias conseguem. Ou seja, ver A VIAGEM DE MEU PAI, ao mesmo tempo que é um exercício muito gostoso, é também um estudo de personagem admirável, especialmente pela presença brilhante do veterano Jean Rochefort, um homem de 80 anos de idade que é cuidado pela filha (Sandrine Kiberlaine) e que tem o hábito de enxotar as enfermeiras e mulheres contratas para cuidar dele. Claramente com problemas de memória e outros que surgem com a idade, esse senhor tem a ideia fixa de visitar a filha ausente na Flórida. De certa forma, acaba conseguindo viajar. Belo filme do diretor de PEDALANDO COM MOLIÈRE (2013).

sábado, maio 27, 2017

NÃO MATARÁS (Broken Lullaby)























A cinefilia, como, aliás, qualquer forma de arte ou conhecimento, acaba abrindo portas para novas e novas portas. Soube que o novo e elogiado trabalho de François Ozon, FRANTZ, é remake de um filme de Ernst Lubitsch que recebeu o título no Brasil de NÃO MATARÁS (1932). Fiquei imediatamente curioso e um título que nem estava nos planos de ser visto, de uma hora pra outra, acaba furando essa fila infindável e caótica que é a de ver filmes em casa.

NÃO MATARÁS, mesmo tendo os mesmos problemas da grande maioria das obras do início dos anos 1930, quando o cinema falado estava se instalando, ou seja, ainda um pouco engessado, há uma fluidez narrativa muito boa, que nos fisga desde o começo, mas que é preciso esperar até perto de sua meia hora de duração inicial para finalmente ficar encantado com a história e seus personagens.

No começo, somos apresentados a um homem atormentado, o francês Paul (Phillips Holmes), que está em uma igreja para se confessar para um padre sobre algo que o incomoda bastante: o fato de ter matado um homem durante a Primeira Guerra Mundial, um alemão, a quem ele chega, inclusive, a ler a última carta endereçada à noiva. Por mais que o padre lhe diga que ele estava apenas cumprindo seu dever e lhe dê absolvição do seu pecado, o inconformado homem resolve viajar e conhecer a família do homem que teima em aparecer em seus sonhos.

Assim, o filme se transfere de Paris para uma pequena cidade da Alemanha, onde mora um simpático e atencioso médico, o Dr. Holderlin, vivido pelo amável Lionel Barrymore. Aliás, o que seria do filme se não fosse Barrymore, este homem que parece transferir o sentimento de amor para a tela e para o espectador? Ele é o pai do rapaz morto na guerra por Paul. E, assim como todos em sua vila, nutre um ódio enorme pelos franceses, que venceram a guerra e tiraram as vidas dos jovens habitantes.

Na mesma casa também vive Elsa (Nancy Carroll), a jovem ex-noiva de Walter, o soldado falecido, que trata o sogro como pai. E já se imagina que o destino vai colocar Paul e Elsa juntos, tendo este segredo tão difícil de ser contado pelo rapaz francês no meio do caminho. Afinal, quem em sã consciência chegaria à casa de um soldado morto para dizer que ele mesmo fora responsável pela morte de um membro querido de uma família? Por mais que a história seja envolvente, acredito que falta ao filme um pouco mais de interesse em ingressar nas profundezas das dores de seus personagens. Tudo parece até leve para as circunstâncias, e depende um bocado da colaboração do próprio espectador para ligar os pontos que parecem faltar.

Mas há o mérito da economia narrativa. É tudo contado de maneira muito rápida e simples, com uma elegância na condução da câmera que não deixa de ser admirável para aqueles tempos de equipamentos pesados e de retrocesso na arte de contar histórias por meio de filmes. Quando percebemos já estamos no belo final. Além do mais, NÃO MATARÁS é um filme que levanta uma mais do que justa bandeira antibelicista. Ninguém sabia que aquele momento de paz era só uma trégua para algo pior que viria.

quinta-feira, maio 25, 2017

REAL – O PLANO POR TRÁS DA HISTÓRIA























Os filmes, por mais que tentem retratar uma época, acabam sendo reflexo da época em que foram realizados. Com REAL – O PLANO POR TRÁS DA HISTÓRIA (2017) não é diferente. É possível perceber que a rixa existente entre esquerdistas e neoliberais que abre o filme é muito mais rancorosa hoje do que era naqueles tempos em que Lula ainda não tinha conseguido vencer uma eleição. É também um filme que acabou chegando em um momento particularmente infeliz para o PSDB, que quis usar o filme como propaganda dos tucanos.

Se bem que é bem possível ver o filme sem esse viés. Até porque, no fim das contas, Fernando Henrique Cardoso não aparece no filme como o criador da ideia do Plano Real. Ele apenas, espertamente, juntou uma equipe que trouxe uma ideia pré-existente em um trabalho de faculdade para a realidade brasileira. Foi um projeto arriscado, mas até hoje se elogia a criação de uma moeda forte, por mais que isso tenha custado bastante ao povo brasileiro, que sofreu um desemprego gigante, além de taxas de juros absurdos, tudo para manter a estabilidade da moeda.

E, por mais que vejamos claramente os problemas do filme, principalmente os de interpretação, escalação de atores e de diálogos, trata-se de uma narrativa até bem envolvente, muito por tratar de um assunto que interessa ao brasileiro médio, especialmente o que viveu os anos 1990. Não dava para esperar grande coisa de Rodrigo Bittencourt, o diretor da tenebrosa comédia TOTALMENTE INOCENTES (2012).

O filme foca na história de Gustavo Franco, que é mostrado como principal responsável pela existência do Plano Real, como também uma pessoa que tentou de tudo para que a moeda persistisse estável, mesmo com uma crise mundial e nacional que pedia que o Brasil cedesse. Não dá também para dizer que ele é exatamente um herói. E nisso o filme tem como mérito a boa interpretação de Emílio Orciollo Netto, no papel do egocêntrico e arrogante Gustavo Franco.

Por outro lado, tirando Tato Gabus Mendes como Pedro Malan, todos os demais personagens soam ridículos, seja Norival Rizzo, como FHC, seja Bemvindo Sequeira como o Presidente Itamar Franco. Paolla Oliveira mais uma vez só serve para trazer beleza para a tela, pois sua interpretação nunca esteve tão constrangedora. Se nas telenovelas já é assim, nos filmes, suas limitações se agigantam. Assim, como Orciollo Netto acaba aparecendo bem mais na tela, os problemas de interpretação do filme são menores do que se esperava, pelo trailer. Ainda assim, não deixa de ser ridículo quando ele grita "Eu não vou desvalorizar a minha moeda!".

Quanto ao atual momento brasileiro de polaridades extremas entre esquerdistas, costumeiramente chamados de comunistas (como se isso fosse uma ofensa), e neoliberais, ela transparece desde o começo, mesmo que nas entrelinhas, embora nada seja tão forte quanto a sequência da discussão no restaurante entre Franco e um amigo que votou no Lula. Não se sabe até quando o país vai se unir novamente para o próprio bem do país, mas a impressão que dá é de que esse cenário vai permanecer por mais um bom tempo. Ainda mais em tempos de governo ilegítimo e uma podridão generalizada, que dessa vez está tão feia como uma ferida exposta.

quarta-feira, maio 24, 2017

CÃES SELVAGENS (Dog Eat Dog)























Curioso o título brasileiro ter usado o adjetivo “selvagem”. Afinal, foi em CORAÇÃO SELVAGEM, de David Lynch, lá em 1990, que Nicolas Cage e Willem Dafoe fizeram sua parceria anterior, pra lá de memorável. Mas Dafoe era então um coadjuvante. Em CÃES SELVAGENS (2016), novo trabalho de Paul Schrader, ele está de igual pra igual com Cage, tão protagonista quanto ele. E enquanto Cage continua no piloto automático, mesmo que com um ótimo papel, Dafoe está brilhante.

Um dos aspectos mais admiráveis de CÃES SELVAGENS é o fato de nenhum dos três personagens, os ex-presidiários vividos por Cage, Dafoe e Christopher Matthew Cook, ser merecedor de nossa piedade. Também pudera, o que Dafoe faz com uma mulher logo no prólogo é algo tão brutal que não dá pra pensar nele em algo menos do que um monstro. O que acontece é que tudo é mostrado com muito humor, ainda que esse humor seja bem pesado.

Mas o que dá impressão é que seria necessário mesmo um cineasta da Nova Hollywood para fazer uma brincadeira tão pesada e sair no lucro. Schrader, brilhante roteirista, tem uma carreira como cineasta marcada por altos e baixos, e até uma aura de maldito. Fazia tempo que um filme do cineasta não pintava no circuito e desde o incidente envolvendo o prelúdio de O EXORCISTA, negado pelos produtores e lançado posteriormente em vídeo com o título de DOMINION – PREQUELA DO EXORCISTA (2005), que Schrader andava meio apagado dos holofotes, por mais que não tenha deixado de fazer e lançar filmes com uma boa regularidade.

Filme que se assiste com um sorriso de orelha a orelha (isso se você não ficar muito chocado com os personagens e as cenas), CÃES SELVAGENS também desperta umas boas gargalhadas, como na cena em que os três amigos resolvem sair, cada um, com uma mulher. E cada um em uma situação diferente. Todos eles, além de muito brutos e violentos, estavam desacostumados com o mundo exterior e acabam não sabendo aproveitar o prazer e a graça que o sexo oposto oferece.

Há quem vá achar tudo uma brincadeira de muito mau gosto, especialmente o duplo homicídio que abre o filme, mas a ideia talvez seja mesmo fazer uma obra em que o grotesco predomina, cujos exageros formais e narrativos andam de mãos dadas com seus personagens grosseiros, violentos e sem nenhuma esperança de conseguir um lugar naquele mundo estranho, depois de passarem tanto tempo atrás das grades. Se lembrarmos que Schrader é o roteirista de TAXI DRIVER (1976), podemos facilmente colocar esses novos personagens junto com o taxista psicopata do filme de Scorsese. Lembremos de sua cena levando a namorada para um cinema pornô. Mas, curiosamente, o roteiro é baseado em uma obra literária. Agora, cá pra nós, o que é aquele final, hein?

domingo, maio 21, 2017

CORRA! (Get Out)























2016 foi um ano muito especial para os filmes que traziam temática racial. Tanto que no Oscar deste ano foi MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR, de Barry Jenkins, o grande vencedor na categoria principal e O.J. – MADE IN AMERICA, de Ezra Edelman, na categoria de documentário, sendo que ambos já concorriam com pesos pesados da temática: UM LIMITE ENTRE NÓS, de Denzel Washington, e EU NÃO SOU SEU NEGRO, de Raoul Peck. Os quatro são obras que trouxeram uma rica e dura reflexão sobre o negro na sociedade americana.

Mas os filmes de horror, que muitas vezes são menosprezados, costumam ser excelentes análises políticas e sociais sobre a sociedade. Um dos exemplos mais claros disso é A NOITE DOS MORTOS VIVOS, de George A. Romero, que, aliás, possui um protagonista negro em plena década de 1960. Este e as demais sequências dos filmes que influenciaram definitivamente o que hoje se chama de filme de zumbi foram exemplares como representações do mundo.

Eis que este ano um filme de horror dirigido por um cineasta negro e que trata a questão do abismo existente entre brancos e negros nos Estados Unidos pegou muita gente de surpresa: CORRA! (2017), de Jordan Peele, que a princípio parece apenas a história de um rapaz negro, Chris (Daniel Kaluuya), que se vê aterrorizado com a expectativa de conhecer a família branca, ainda que liberal, de sua namorada Rose (Allison Williams, a Marnie da série GIRLS).

A aproximação com o horror vai acontecendo de maneira paulatina, com Peele tendo um domínio narrativo admirável, e ainda colocando um senso de humor original que envolve a plateia e faz rir, mesmo que seja de nervoso, em alguns momentos. O que deixa Chris mais cismado, logo que ele chega na casa da família dos pais da namorada são os criados: uma mulher e um homem negros, que mais parecem zumbis retirados dos filmes sobre zumbis haitianos, como A MORTA-VIVA, de Jacques Tourneur.

Sua tentativa de  conversar com eles só mostra o quanto sua ideia de que há alguma coisa terrivelmente errada naquela casa e naquela comunidade fazia sentido e não se tratava de paranoia – há uma cena em que a empregada negra chora e ri ao mesmo tempo, enquanto conversa com ele e outra em que ele leva um baita susto quando sai pra fumar um cigarro ao ar livre. São cenas de certa forma sutis, mas que antecipam, o cenário de horror e medo que vai sendo construído e que, no final apoteótico, eleva o filme à posição de um dos mais interessantes exemplares do gênero atualmente.

Assim, CORRA!, ao mesmo tempo em que funciona de maneira admirável como um filme de medo (os momentos mais eletrizantes não foram sequer mencionados aqui), o que já seria louvável, traz também um questionamento tanto da história de sofrimento do povo negro americano, que remonta à escravidão, quanto da questão do roubo, por parte dos brancos, da riqueza cultural afro-americana, o qual vem sendo feito explicitamente na música há muitas décadas e continua sendo.

sexta-feira, maio 19, 2017

A AUTÓPSIA (The Autopsy of Jane Doe)























Provavelmente estou dando um spoiler de um outro filme, mas fique à vontade para deixar de ler. Em A MORTE DE LUÍS XIV, de Albert Serra, há uma cena perturbadora para pessoas desacostumadas com imagens reais de partes do corpo humano dissecadas, como fígado, baço etc. No filme de Serra, certamente por ser tão realista, isso chega a incomodar mesmo, embora contribua ainda mais para a grandeza do trabalho do cineasta espanhol.

Pulemos então para este terror A AUTÓPSIA (2016), primeiro trabalho em língua inglesa do diretor norueguês André Øvredal. Imagina-se que o efeito do filme de Serra se estenderia por boa parte de um filme que lida com pessoas que retiram para análise partes do corpo de pessoas mortas. Mas não é bem isso que acontece: todas as cenas de autópsia do corpo da desconhecida que aparece são artificiais. Jane Doll parece uma boneca de borracha. E talvez seja mesmo, embora o ideal era que fosse mais real.

De todo modo, A AUTÓPSIA funciona justamente em sua primeira metade, quando acompanhamos pai e filho (Brian Cox e Emile Hirsh) se mostram felizes com seu trabalho de investigar a causa da morte dos cadáveres que chegam ao necrotério. E nós, do lado de cá da tela, também ficamos bastante intrigados com essa mulher desconhecida, que vai se revelando cada vez mais misteriosa a cada vez que eles cortam seu corpo.

O problema do filme está justamente quando ele se assume explicitamente de horror e todos os clichês já vistos em tantos outros trabalhos sobre casas assombradas e fantasmas ou outro tipo de ameaça sobrenatural acaba tornando tudo muito sem graça. Há poucas cenas de susto – e isso é até bom, torna o trabalho mais honesto –, mas os poucos que têm são frágeis.

A transformação do suspense de base criminal, ainda que saibamos que seria só o ponto de partida, em terror puro e simples, mas sem nada a acrescentar ao gênero, nem mesmo eficiência, acaba tornando a experiência de A AUTÓPSIA bem frustrante. Ficam as boas atuações de Cox e Hirsch, que dominam as cenas durante boa parte da narrativa, além do bom trabalho de direção de arte. Não deixa de ser um filme curioso e que merece a espiada.

sábado, maio 13, 2017

ALIEN - COVENANT























Ridley Scott com o tempo vem demonstrando, cada vez mais, tanto seu poder de criar imagens poderosas quanto suas fragilidades, quando mostra sua dificuldade em construir cenas de ação rápidas e eficientes. Essa fragilidade comparece com força em vários momentos de ALIEN – COVENANT (2017), sequência quase direta de PROMETHEUS (2012), na ordem cronológica da mitologia do universo Alien.

Mesmo não sendo o sucesso gigante esperado pela Fox, PROMETHEUS conquistou uma discreta geração de fãs. Além do mais, dessa vez, o nome “Alien” no título certamente surtirá um efeito maior nas bilheterias, agora que as intenções de Scott em voltar ao universo que ele deu início em 1979, com ALIEN, O 8º PASSAGEIRO, se tornaram bem mais claras. É quase como se ele dissesse: outra pessoa vai fazer uma continuação de BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDROIDES (1982), mas serei eu quem vai retomar as rédeas de uma franquia de sucesso iniciada por mim. E, assim, é possível que novas sequências de ALIEN venham no futuro, pelas mãos do próprio Scott.

Um dos pontos bem positivos de ALIEN – COVENANT é o cuidado com a construção das imagens que se manifesta desde o início, quando vemos o andróide Michael Fassbender despertando e mostrando sua perfeição como criatura sintética para seu criador. Ele se autodenomina David, em homenagem a uma escultura de Davi, o segundo rei de Israel, que vê na sala. Corta para uma imagem da nave Covenant, também com Fassbender, dessa vez supervisionando a espaçonave, enquanto a tripulação e um grande grupo de pessoas colonizadoras outro planeta dormem em suas câmeras criogênicas.

Porém, um acidente sério faz com que a nave seja abatida e danificada e muitos da tripulação acabem sido afetados. O próprio capitão é uma baixa. Billy Crudup, como Oram, acaba assumindo o posto, já que era o segundo em comando. O ego de estar no comando mexe com a cabeça de Oram, que fica até mesmo insensível à morte do capitão, companheiro de Daniels, vivida com relativo brilho pela inglesa Katherine Waterston, que foi destaque em ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM, David Yates, e VÍCIO INERENTE, de Paul Thomas Anderson.

O fascínio pelo visual das criaturas criadas pelo artista plástico H.R. Giger se mantém em ALIEN – COVENANT. Elas novamente surgem a partir do contato com o corpo humano, assimilando a organicidade dos corpos e os usando como fonte de materialização e efetivo nascimento, como sementes esperando um solo fértil para nascer e se desenvolver. Algumas das criaturas são menores e mais claras, e saem de dentro dos órgãos das vítimas em cenas gore bem interessantes; e uma delas é assustadoramente maior e de cor preta.

Elas acabam sendo o grande trunfo do filme, junto com a elegância da direção de Scott, mesmo com todos os problemas do roteiro fraco. Além do mais, algumas cenas são carentes de um maior cuidado, principalmente levando em consideração que, por mais que pudessem ter feito um filme B honesto com essa história, sabemos que não é o caso aqui. Afinal, estamos diante de uma superprodução, com todos os recursos necessários para fazer tudo no capricho. No entanto, na cena em que Daniels fica dependurada numa nave enquanto atira em uma das criaturas, tudo parece tão rápido e insípido e parecido com um videogame de geração ultrapassada, que se esta cena fosse deletada, seria para o bem do filme.

Scott é um excelente arquiteto de dramas também, embora nunca (ou raramente) tenha dirigido filmes feitos para chorar – o que não é um problema, de modo algum. No entanto, como gosta também de dirigir filmes caros e grandiosos, acaba derrapando com certa frequência, como foi o caso recente de EXÔDO – DEUSES E REIS (2014). Felizmente, sua volta ao espaço sideral com o ótimo PERDIDO EM MARTE (2015) fez com que ele tomasse novamente gosto por aventuras espaciais.

Mas, se por um lado, PERDIDO EM MARTE conseguia nos solidarizar com as angústias de seu protagonista, ALIEN – COVENANT. além de quase se assumir como um horror/sci-fi genérico, de tão desleixado que parece em certos momentos - as questões filosóficas de PROMETHEUS são quase que totalmente deixadas de lado ou mostradas de maneira muito rasas - seus personagens são rasos e desinteressantes. Por isso, a sorte é que quando Scott acerta, mesmo em um filme irregular como este, ele acerta bonito. O que acaba compensando.

segunda-feira, maio 08, 2017

TOP OF THE LAKE























No mesmo ano que TWIN PEAKS retorna, uma minissérie de prestígio mais recente, TOP OF THE LAKE (2013), também volta. Detalhe: ambas terão sua première com os dois primeiros episódios no Festival de Cannes. TOP OF THE LAKE não foi pensada para ser uma série, mas uma minissérie. E, de fato, há uma história fechada, contada em sete episódios de menos de uma hora cada.

TOP OF THE LAKE, assim como THE KILLING (2011-2014), é devedora do caminho aberto pela revolucionária série de David Lynch e Mark Frost. A principal diferença é que aqui não temos nem humor nem surrealismo. É tudo muito sério, inclusive. Até porque se trata de uma minissérie de denúncia dos abusos que as mulheres sofrem dos homens, que são mostrados quase em toda a totalidade como seres repugnantes.

Jane Campion, junto com Gerard Lee, são os criadores da produção, que nos apresenta ao caso de uma garotinha de 12 anos de idade que se descobre grávida. Passando uma temporada em sua cidade natal, Robin, a detetive de polícia vivida por Elisabeth Moss, é chamada para ajudar no caso. Com pouco esforço, ela consegue conversar com a garota, coisa que os policiais da cidade não haviam conseguido.

Aos poucos, vamos percebendo, à medida que a história nos apresenta mais aprofundadamente a protagonista, que ela tem seus motivos para estar bastante interessada no caso de Tui, a garotinha grávida, que já no segundo episódio desaparece. Teria fugido? Ou foi sequestrada? Está viva ou morta? O pai da menina tem algo a ver com isso? São várias perguntas que surgem e que permanecem sem serem contadas por alguns episódios. Lembrando que o pai da garota, Matt (Peter Mulan), é temido na cidade justamente por ser extremamente perverso. Logo no primeiro episódio, por exemplo, vemos do que ele é capaz.

O que deixa Matt enfurecido de verdade é a invasão de um grupo de mulheres pertencentes a uma espécie de comuna que carregam consigo traumas com maridos e amantes e que seguem uma estranha senhora grisalha chamada apensa de GJ, vivida por Holly Hunter, que havia trabalhado com Jane Campion em O PIANO (1993), filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes.

As cenas mostrando a paisagem da Nova Zelândia são excepcionalmente belas e contribuem para enriquecer a experiência de ver TOP OF THE LAKE. O problema é que a minissérie, a partir do terceiro episódio, perde um pouco o impacto dos primeiros, que nos deixam cheios de entusiasmo. Felizmente, ainda que de maneira anti-climática, o desfecho é bom, sem falar na direção de atores e todo o trabalho de interpretação, que eleva a série a uma categoria respeitável.

sábado, maio 06, 2017

HIROSHIMA MEU AMOR (Hiroshima Mon Amour)























Há filmes que precisam de um pouco de maturação da nossa parte para que sejam minimamente valorizados. Minha relação com HIROSHIMA MEU AMOR (1959) não era das melhores, em comparação com o quanto este filme é amado e cultuado por uma vastidão imensa de cinéfilos. Muito da culpa disso está no fato de eu não ter me conectado nas primeiras vezes com o universo do filme e também conta o fato de eu ter visto duas vezes na telinha – e confesso que achava maçante, como quase todos os trabalhos que havia visto de Alain Resnais.

Mas aí eu resolvo dar uma chance e rever o filme, desta vez no cinema, em uma cópia linda, remasterizada em 4K. Meu Deus! O que é aquilo? Que obra maravilhosa é essa? Foi como se uma cortina escura tivesse saído de meus olhos e eu finalmente pudesse ver a beleza singular desta obra, perceber a perfeição em cada cena, o romantismo e o antinaturalismo das falas dos personagens, uma atriz francesa (Emmanuelle Riva) e um arquiteto japonês (Eiji Okada), ambos casados, que se encontram e se amam em Hiroshima. A situação de ambos até lembra a de ANTES DO AMANHECER, de Richard Linklater, e sua sequência, já que aquele é o último dia no Japão da atriz francesa.

HIROSHIMA MEU AMOR, pelo menos em sua parte inicial, que mostra a conversa íntima e poética dos dois amantes em um quarto de hotel, enquanto falam sobre Hiroshima e vemos imagens da terrível herança deixada pela bomba atômica naquela cidade, é uma espécie de continuação do documentário em curta-metragem NOITE E NEBLINA (1956), sobre o holocausto e os campos de concentração nazistas. Vê-se que a verve documentarista e o interesse pelos horrores da guerra ainda eram elementos que assombravam Resnais. Para isso ele recorria à poesia falada para ajudar a compor a poesia em imagens.

O filme foi um dos marcos inaugurais da nouvelle vague francesa, quando lançado no mesmo ano de OS INCOMPREENDIDOS, de François Truffaut, no Festival de Cannes. Porém, Resnais já tinha muito mais tempo de estrada do que o jovem Truffaut. Seu primeiro curta é de 1936. Há um gap de 10 anos entre a obra posterior, mas isso, muito provavelmente se deve à invasão alemã na França durante a Segunda Guerra Mundial. A partir de 1946 ele não parou de experimentar e se aperfeiçoar.

HIROSHIMA MEU AMOR tem um erotismo sutil, mas de certa forma ousado para a época. Não há grafismo, mas há as vozes e os corpos. O erotismo nesses 15 minutos iniciais se funde com as imagens do horror das vítimas da bomba que destruiu aquela cidade, das imagens do museu que mostra vestígios daquela tragédia e de pessoas sofrendo em hospitais. Depois dos 15 minutos iniciais, estamos de volta a algo mais próximo da realidade, quando os dois terão que se separar, pelo menos por ora, para ir ao trabalho. É quando o filme se concentra mais no drama dos dois, sem no entanto deixar de mostrar assombrações do passado, como a história contada por ela sobre seu primeiro amor, um soldado alemão.

A história da personagem de Riva é tão intensa e sombria tinha tudo para eclipsar o fio principal da narrativa. Mas, como tudo no filme funciona à perfeição, essa história só ajuda a tornar HIROSHIMA MEU AMOR ainda mais poderoso, a dar ainda mais profundidade à personagem feminina e a torná-la ainda mais fascinante. A cena no restaurante, com ela se embriagando de vinho enquanto conta sobre seu passado, é tão cheia de amor e amargura que somos quase impossibilitados de não nos contagiarmos com essa imensidão de sentimentos.

E temos, claro, a construção visual na fotografia em preto e branco exuberante, mas também um tanto claustrofóbica. Porém, me pergunto o que seria do filme sem o roteiro poético de Marguerite Duras. As palavras são faladas de maneira bem pausada, para que sintamos o significado e a importância de cada uma delas, para que possamos sorver a poesia e o sentimento de paixão e angústia daquelas duas almas que estão prestes a se separar, mas que não conseguem se manter distantes uma da outra. E é por isso que não devemos nunca deixar passar uma experiência de ver os clássicos no cinema. É na telona que somos mais tragados pela força de obras magistrais como essa.

quinta-feira, maio 04, 2017

O CINEMA FANTÁSTICO ORIENTAL EM TRÊS FILMES























O Japão já tem uma longa tradição de filmes de horror. A Coreia do Sul tem crescido o número e a qualidade de filmes do gênero com o passar dos anos. E a China é um caso especial, até no filme selecionado aqui. Os três filmes foram vistos no cinema meses atrás, então vou mesmo ter que puxar da memória algumas impressões e sentimentos com relação a esses trabalhos, que certamente mereceriam um cuidado mais especial, mas pelo menos vou trazê-los de volta à minha mente.

CREEPY (Kurîpî: Itsuwari No Rinjin)

Antes de ganhar espaço em nosso circuito, o cinema do japonês Kiyoshy Kurosawa já era bastante cultuado pelos fãs do cinema de horror, especialmente aqueles que visualizam também as produções do outro lado do mundo. Assim, trabalhos seus como CURE (1997), KAIRO (2001) e DOPPELGANGER (2003) já eram vistos como exemplos de grande cinema de gênero. CREEPY (2016, foto) teve a sorte de encontrar um circuito alternativo mais receptivo a obras das mais variadas formas. O filme conta a história de Takakura (Hidetoshi Nishijima), um ex-detetive que é chamado por um antigo colega, Nogami (Masahiro Higashide), para investigar o caso de uma família desaparecida há seis anos. Enquanto isso, o detetive e sua esposa recentemente se mudaram para uma nova casa e conhecem um estranho vizinho (Teruyuki Kagawa), que tem uma esposa doente e uma filha adolescente. Pelo menos é isso que ele diz. O ator que faz o vizinho bizarro é impressionante. Um vilão perturbador e que não duvido que tenha aparecido no sonho de muitos espectadores impressionados. Algumas cenas são particularmente marcantes, como a do rapto da família, dentro do carro. É quando o filme de Kurosawa atinge verdadeiramente o tom de sonho/pesadelo. Até os tons de cores na fotografia parecem diferentes. Talvez o problema do filme seja a duração, um pouco longa.

A VIDA APÓS A VIDA (Zhi Fan Ye Mao)

Há filmes sobre tudo. Até sobre um espírito de uma mulher que usa o corpo do filho pequeno como veículo para que o marido mude uma árvore de lugar. Sim, A VIDA APÓS A VIDA (2016), do chinês Hanyi Zhang, tem essa história como mote. Mas sabemos que a história não é o mais importante nesse tipo de obra. Também não é um filme feito para assustar, mas que deve ser visto com ar de intriga e contemplação. Este primeiro trabalho do realizador é tão espiritual quanto terreno. A força da natureza é tão imensa em toda a narrativa e nos chamados tempos mortos (se é que dá pra chamá-los assim) que a questão espiritual às vezes passa a ser vista como algo orgânico, concreto, por mais que o filme em si não o seja. É difícil explicar, mas esse tipo de obra, justamente por isso, deve ser vista com carinho e atenção. Além do mais, há também espaço para o humor. Só há uma cena bastante incômoda de maus tratos de um animal que realmente incomoda.

O LAMENTO (Goksung)

Eis um filme desafiador. Tanto pela duração (2h36min) para um filme de horror, quanto pelo modo como a trama vai sendo desfiada de maneira cada vez mais bizarra e estranha. O LAMENTO (2016), terceiro longa do sul-coreano Na Hong-Jin, ganhou muita visibilidade e atenção nos festivais de cinema, inclusive os daqui do Brasil. Assim tivemos a sorte de ter este filme em nosso circuito, ainda que em lançamento reduzido. Trata-se de uma história um tanto pesada sobre assassinatos cruéis cometidos em um vilarejo. Os criminosos parecem estar fora de si e as autoridades acreditam que eles estão ou estavam sob efeito de alguma droga ou coisa parecida. Porém, o inspetor de polícia Jong-Goo (Kwak Do-Won) suspeita que os casos tenham uma origem sobrenatural, tendo ligação com um estranho homem japonês que chegara ao local. Enquanto investiga o suspeito, ele percebe que sua filha pode ser também uma vítima do ataque. Um dos pontos altos do filme é a cena em que vemos uma disputa espiritual entre dois feiticeiros diferentes. É quando vemos até que ponto O LAMENTO é capaz de chegar em ser bizarro e sobrenatural.

quarta-feira, maio 03, 2017

VERMELHO RUSSO























É interessante esse aspecto seletivo da memória. Costumamos nos lembrar de coisas aparentemente sem muita importância, mas que acabam ficando, por algum motivo, registradas em nosso banco de dados com muito mais vivacidade do que certas ações e situações supostamente mais importantes. O trabalho que as meninas de VERMELHO RUSSO (2016) fizeram foi muito de resgatar momentos marcantes e reencená-los fazendo uma nova viagem à Rússia, dessa vez parar interpretar elas mesmas.

A primeira viagem ocorreu em 2009, quando Maria Manoella e Martha Nowill foram a Moscou para estudar teatro, em particular o celebrado método de atuação de Constantin Stanislavski. E do jeito que o filme mostra deve ter sido tudo muito interessante, com um professor que não fala nada de português comandando os ensaios que as duas amigas fazem de Tio Vânia, de Anton Tchekov. A vida passa a interferir na arte e no modo como as duas interpretam cada personagem. Uma delas precisa se mostrar feliz e radiante; a outra precisa ser triste e com autoestima baixa.

A viagem de Manu e Marta, que são os nomes adotados para elas nessa encarnação no cinema, como personagens de ficção, acaba sendo uma sucessão de situações e momentos muito bons mas também muito angustiantes e aflitivos, seja porque elas estavam em uma terra distante, seja por terem que enfrentar suas próprias inseguranças, pondo em xeque a própria amizade, que no começo do filme parece inabalável.

Interessante notar que o trabalho do diretor Charly Braun, de ALÉM DA VIAGEM (2010), acaba se tornando quase invisível. O filme parece ser um projeto feito e comandado por Manoella e Martha, até por terem sido elas quem vivenciou tudo aquilo, além de serem donas de cada cena e da evolução de suas personagens, mesmo com a aparição de alguns rostos conhecidos em cena, como Michel Melamed e Fernando Alves Pinto. De todo modo, o filme anterior de Braun era também o relato de uma viagem e o novo trás o protagonista do anterior como algo próximo de um alter-ego do diretor, como o cameraman que acompanha as duas moças.

Algumas cenas fogem da linha narrativa principal e funcionam como achados durante a viagem, como a velhinha que elas encontram no corredor do hotel e que trabalhou durante muitos anos na Mosfilm, ou a conversa com os embaixadores do Brasil e de Portugal na Rússia, vistos em uma festa, além da própria beleza gélida da cidade, que funciona como uma terceira personagem. Essa brincadeira entre verdade e ficção não deixa de ser interessante e nos deixa curiosos para saber detalhes das filmagens e de ter a oportunidade de conversar com as atrizes e o diretor. Principalmente com as atrizes, na verdade, que além de tudo são encantadoras. Aliás, se não fossem o filme não teria ganhado tão facilmente a nossa simpatia.

segunda-feira, maio 01, 2017

ALÉM DA ILUSÃO (Planetarium)























Há pelo menos dois motivos para se querer ver ALÉM DA ILUSÃO (2016). O primeiro deles está no fato de que a diretora é uma das roteiristas do excepcional APESAR DA NOITE (2015), de Philippe Grandrieux; o segundo está na presença de Natalie Portman como protagonista. Mas há também outros bons motivos. Afinal, uma história sobre duas irmãs que têm o dom de se comunicar com os mortos e que atraem a atenção de um produtor de cinema francês que deseja flagrar através das câmeras o fenômeno é ou não é atraente?

Pois bem. Acontece que a diretora Rebecca Zlotowski, em seu terceiro trabalho na direção, parece não saber conduzir a sua trama. Tudo parece muito solto e perdido. Por mais que haja algo de intrigante nas personagens femininas (Natalie e a jovem Lily-Rose Depp, filha de Johnny Depp) e no personagem do produtor de cinema, vivido por Emmanuel Salinger, suas motivações ficam no ar.

Ou ao menos desinteressantes ao longo do filme, por mais que a fotografia e outros aspectos técnicos sejam agradáveis de ver. Pode-se dizer que há o mérito de conquistar o espectador no início, com uma história intrigante, com as duas irmãs se apresentando em um teatro de vaudeville para um número considerável de pessoas. O espetáculo mostra a comunicação com uma pessoa falecida.

O fato de elas terem sido convidadas para mostrar no cinema os seus dons não deixa de ser curioso, já que, àquela altura, havia efeitos especiais que poderiam muito bem enganar uma plateia facilmente, seja através de truques de edição, seja mexendo no próprio negativo, como quer fazer um dos amigos do produtor que resolve acolher as duas irmãs americanas em sua casa.

O tal produtor é um homem que vive recluso. Não é casado e diz que quer se comunicar com o irmão falecido. Acontece que a presença que aparece na sessão mediúnica não é do irmão, mas de outra pessoa desconhecida. Mas ainda assim muito interessante para o homem, pois o leva a uma sensação de prazer erótica totalmente inesperada. Aliás, esse é outro dos motivos de o filme poder ser considerado pelo menos curioso: afinal, está se tratando de uma pessoa fazendo sexo com um fantasma.

Mas, afinal, qual é o problema do filme? Ou será que o problema é com a relação do espectador do filme, já que há sim algumas críticas positivas, ainda que poucas, circulando sobre o trabalho, exaltando suas qualidades. Ainda assim, pode-se dizer que ALÉM DA ILUSÃO carece de uma atmosfera de sonho ou de maior intriga diante do que ele se propõe. De todo modo, ao menos não se trata de um trabalho qualquer, desses bons, mas suficientemente fáceis de serem esquecidos. Apesar de tudo, há algo de charmoso neste filme torto de Rebecca Zlotowski.

sexta-feira, abril 28, 2017

GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2 (Guardians of the Galaxy Vol. 2)























Quando os estúdios Marvel anunciaram que o décimo longa-metragem do universo compartilhado Marvel seria estrelado por um grupo obscuro e não muito explorado dos quadrinhos chamado Guardiões da Galáxia ninguém ia suspeitar que o filme de James Gunn seria um baita sucesso. Passados três anos, a continuação, GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2 (2017), com a mesma equipe e o mesmo diretor, chega com a coragem de ser mais pessoal, com Gunn com mais opção de fazer um trabalho que ele deseja, embora haja ainda muita coisa em comum com os demais filmes da Marvel, como o próprio humor, mesmo que seja um humor ainda mais escrachado.

Ao mesmo tempo em que também é um filme em que o humor prevalece, há também um sentimentalismo sem medo de ser exagerado na hora de compor os dramas dos personagens. E é com isso que GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2 ganha pontos positivos. Afinal, nada como a coragem de meter o pé na jaca quando o assunto é sentimento em um filme que brinca com excessos de outros tipos, como o visual extravagante e derivado das décadas de 1970 e 80 e uma ação desenfreada que às vezes passa a impressão de algo desleixado.

Há quem vá achar, porém, o terço final do filme problemático e um pouco sem ritmo, mas talvez seja justamente neste momento que este volume 2 se mostra mais valoroso, ao lidar com as questões familiares de Peter Quinn (Chris Pratt), que finalmente encontra seu pai, aqui vivido por Kurt Russell. Aliás, Russell é um dos primeiros personagens a aparecer no filme, em um prólogo que se passa em fins dos anos 1970, quando ele aparece com feições mais jovens, modificadas pelo CGI. Mais à frente os fãs da Marvel terão uma surpresinha sobre quem ele realmente é. E esta é apenas um dos vários fan services que esta sequência traz.

Demora um pouco para que a história do filme se defina, mas até lá é possível se divertir já a partir dos créditos de abertura, os melhores de todos os filmes da Marvel até agora, mostrando a equipe lutando ao fundo, enquanto Baby Groot dança ao som de "Mr. Blue Sky", da Eletric Light Orchestra. Uma sequência animadora seguida de uma sequência de ação que parece não ter muita importância para a trama, a não ser brincar com a dinâmica do trabalho em equipe e com a característica de cada personagem, sedimentando o que ainda não havia ficado firme no primeiro filme.

Assim, agora é muito mais possível gostar do grandalhão Drax (Dave Bautista), por exemplo, pois são dele as partes mais engraçadas, principalmente quando entra em cena uma personagem chamada Mantis (Pom Klementieff) e ela é meio que alvo de bullying por parte dele, embora não pareça bullying para ela, que é um ser tão inocente. Enquanto isso, o filme dá mais humanidade e seriedade a Rocket (voz de Bradley Cooper) e ele deixa de ser apenas um guaxinim falante.

Aliás, uma das coisas positivas do filme é o fato de eles se aceitarem, no fim, como uma família disfuncional, já que todos eles guardam traumas ou ressentimentos do passado ou de aceitação. Assim, até mesmo Yondu, o personagem de Michael Rooker, acaba ganhando força e até simpatia em determinado momento. É bom quando um vilão chato passa a ser visto de outra maneira. Por outro lado, o verdadeiro vilão do filme se manifesta das maneiras mais exageradas possíveis. Mas neste momento o filme já havia conquistado e certas coisas podem ser relevadas.

As cenas de ação e de luta são boas, ainda que pouco orgânicas, e primam pelo cuidado com o colorido e a direção de arte. Destaque para as sempre bem-vindas cenas com Gamora (Zoe Saldana), cheia de charme lutando ou fazendo poses de mulher durona, mesmo quando está apenas dizendo 'não' às investidas de Peter Quinn. A própria Gamora também tem uma questão familiar que é problematizada e resolvida no filme, além de ser combustível para um pouquinho mais de sentimentalismo brega.

Mas é quando as boas canções de vez em quando entram para equilibrar e dar um pouco mais de encanto a este relativamente estranho filme, de final tocante. Assim, "Father and Son", de Cat Stevens, e "Bring it on home to me", de Sam Cooke, aparecem em momentos bem especiais, com a intenção de dar mais profundidade aos personagens e a seus dramas, em momentos de respiro.

No mais, GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2 se aproxima mais do futuro e do encontro com os outros heróis da Marvel, quando os heróis do espaço encontrarão os heróis da Terra em AVENGERS: INFINITY WAR, já no ano que vem. Assim, por mais que se possa reclamar de uma coisa ou outra nesses filmes da Marvel, eles estão muito à frente da concorrência, com o estúdio seguindo firme e forte para um encontro épico de vários heróis da Casa de Ideias.