terça-feira, junho 17, 2014

PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA (Pulp Fiction)



Curiosamente, desde a primeira vez que vi PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA (1994) no cinema nunca parei para revê-lo, a não ser por alguns trechos exibidos na televisão. No entanto, é impressionante como essa obra de Tarantino, mesmo que passados 20 anos, continua com suas cenas tão frescas na memória. A audição tantas vezes da trilha sonora pode ter contribuído, mas creio que é mesmo o poder das cenas que faz isso.

Aliás, é bom destacar que o filme foi lançado no Brasil em fevereiro de 1995 e não em 1994. Portanto, ainda não são 20 anos para nós, brasileiros, que vimos o filme em circuito comercial. De todo modo, é importante rever o filme depois de passados tantos anos e perceber que suas qualidades continuam intactas, embora o impacto de vê-lo no cinema pela primeira vez, com a surpresa de sua estrutura e de seus diálogos e de tantas outras coisas que o filme oferece, já não seja mais o mesmo na revisão. Agora é momento de analisar de maneira um pouco mais fria esse segundo filme de Quentin Tarantino.

Antes de escrever a respeito, fiz questão de ler uma série de textos contendo críticas, entrevista e um excelente ensaio sobre o filme presente no livro Quentin Tarantino, organizado por Paul A. Woods, e lançado no Brasil pela editora Leya. O que mais me agradou foi o ensaio "A Segunda Melhor Coisa...", de Peter N. Chumo II. Nele, o autor traça paralelos muito interessantes sobre a questão do tempo na trama estrelada por Bruce Willis e sobre a questão da direção no último ato do filme. Há também importantes observações acerca da presença de John Travolta e de sua relação com o tempo.

Tanto o tempo quanto a questão da direção do filme já se estabelecem na interrupção do prólogo do filme, em que vemos os dois assaltantes de restaurante vividos por Tim Roth e Amanda Plummer. A imagem é congelada, os créditos se iniciam com a excitante "Misirlou", de Dick Dale and Del Tones, e Tarantino se mostra deus supremo daquele universo, com direito, inclusive, a operar milagres, como na cena em que os gângsteres vividos por Travolta e Samuel L. Jackson não são atingidos pelas balas.

As relações que Tarantino faz com outros filmes (A MORTE NUM BEIJO, de Robert Aldrich; PSICOSE, de Alfred Hitchcock; OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE, de John Badham; VIVER A VIDA, de Jean-Luc Godard, entre outros), além de haver referências ao seu filme de estreia, CÃES DE ALUGUEL (1992), são misturadas a outras homenagens ao cinema mostradas especialmente no momento em que Vince (Travolta) leva Mia (Uma Thurman), a esposa de seu chefe, para um restaurante temático da década de 1950.

O texto de Chumo II também fala da questão do tempo em torno de Butch, o personagem de Bruce Willis, que gira todo em torno do passar das horas. A começar pelo título, "O Relógio de Ouro". Não é a luta que ocasiona a morte do outro boxeador o mais importante da história, mas o tal relógio, cuja importância sabemos através de um sonho que Butch tem pouco antes da luta. Até mesmo um detalhe pequeno, como a "torta de café da manhã" de Fabienne (Maria de Medeiros), é também mais uma alusão à fixação do personagem ao tempo.

Outro destaque curioso, e isso eu não vi em texto nenhum, é que na cena da dança, enquanto Vince dança de maneira mais suave, sob efeito da heroína que injetara um tempo atrás, Mia dança mais rapidamente, sob efeito da cocaína que cheirara tanto em seu apartamento quanto no banheiro do restaurante. Depois, quando os dois chegam à casa dela bêbados e com o troféu, a canção que ela bota pra tocar é "Girl, You'll Be a Woman Soon", quem sabe prevendo o momento de "ressurreição" por que ela iria passar na inesquecível cena da injeção de adrenalina.

Falando em inesquecível, impressionante o quanto PULP FICTION é cheio de tantas cenas memoráveis. É como se cada cena do filme fosse importante, mesmo aquelas que parecem banais, como quando os dois assassinos conversam sobre uma massagem nos pés, pouco antes de entrarem na casa de um devedor do chefe e fazer uns estragos bem feios. Tudo em PULP FICTION, então, parece essencial, por mais que alguém venha reclamar de sua duração.

E o engraçado é que hoje quase ninguém mais acha que a Palma de Ouro em Cannes deveria ir para A RAINHA MARGOT, por tão bom que seja o sangrento drama francês. É que PULP FICTION representa um momento muito especial para o cinema contemporâneo, trazendo o que que podemos chamar de novo cinema pós-moderno, seguindo o rastro do que fizeram antes diretores como Jean-Luc Godard, Sergio Leone e Brian De Palma.

O filme é tão especial que eu escrevi vários parágrafos, mas deixei de falar de tantas outras sequências inesquecíveis, como o tiro acidental dentro do carro, o estupro na loja de penhores, a questão religiosa envolvendo o personagem de Samuel L. Jackson, o homem que chega para limpar o carro, vivido por Harvey Keitel, etc. São tantos os momentos que se poderia falar de maneira mais detalhada que o texto ficaria enorme e ninguém iria querer ler.

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