quarta-feira, dezembro 04, 2013

AZUL É A COR MAIS QUENTE (La Vie d'Adèle)



Para uma filmagem que durou 800 horas, até que três horas de duração para AZUL É A COR MAIS QUENTE (2013) não é tanto assim. No entanto, o tempo do filme é um dos aspectos que mais chamam a atenção, mas que é importante para denotar o recorte de tempo na vida de Adèle, seu período de descobertas afetivas e sexuais, vivendo junto ou chorando sozinha.

Três anos atrás, o cineasta franco-tunisiano Abdellatif Kechiche havia lançado um título de longa duração e também controverso chamado VÊNUS NEGRA (2010). A polêmica ocorreu porque o filme trata de uma mulher africana que, por ter áreas do seu corpo maiores do que o que é geralmente convencionado na Europa, é apresentada como uma aberração de circo.

Em AZUL É A COR MAIS QUENTE, a controvérsia está nas cenas de sexo bem tórridas do casal de moças interpretado por Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. Isso se deu pelo fato de que as garotas reclamaram do longo tempo das tomadas e acusaram o diretor de estar abusando delas. Para se ter ideia, uma das cenas de sexo durou 10 dias de filmagem. Ainda que elas tenham usado vaginas prostéticas nas cenas de sexo oral, não deixa de ser mesmo um longo tempo de exposição.

Mas valeu o sacrifício. O resultado é de uma beleza rara. Em determinado momento as duas formam como que "uma só carne", para usar o termo bíblico. Porém, como em quase todo o filme a preferência do diretor é por planos bem próximos, os rostos em êxtase nas cenas de sexo, principalmente o rosto lindo de Adèle, são flagrados de maneira aproximada e por isso mesmo mais íntima do espírito das personagens. Mesmo em cenas como a do jantar com os pais de Emma (Léa), Kechiche opta pela câmera passeando pelos rostos das pessoas na mesa em vez do tradicional campo/contracampo ou da câmera parada em locais estratégicos.

E, tendo em vista a extrema naturalidade de Adèle no trato com coisas simples, como o ato de comer, ou não esconder a bagunça do cabelo ou como fica o seu rosto quando chora, passa a impressão de que aquela personagem é muito próxima da atriz e não uma completa construção, como a personagem de Léa, que aqui precisou parecer um tanto máscula, a fim de fazer o papel, digamos, de ativa da relação.

Essa naturalidade e humildade de Adèle, explicitada na cena em que ela serve macarronada para um grupo de amigos intelectuais de Emma, faz da personagem não só uma das mais adoráveis do cinema nos últimos anos, mas também uma das que mais despertam nossa empatia. No entanto, esse nível de empatia só chega a tal ponto na antológica cena do encontro no café, provavelmente o momento mais sublime do filme, que melhora à medida que pensamos mais nele.

AZUL É A COR MAIS QUENTE levou a Palma de Ouro em Cannes, que foi tanto para o diretor quanto para as duas jovens atrizes, fato inédito na história do festival.

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