quarta-feira, julho 10, 2013

MARCAS DA VIOLÊNCIA (A History of Violence)



Aproveitando que estava (re)vendo aos poucos os filmes de David Cronenberg (ficaram faltando apenas FAST COMPANY (1979) e os trabalhos que ele fez para a televisão), resolvi rever MARCAS DA VIOLÊNCIA (2005), que na época que o vi no cinema eu estava muito sonolento e acabei não aproveitando direito o filme. Agora, com um pouquinho de cafeína na veia, pude finalmente apreciar em toda sua glória este que é um dos marcos da filmografia do diretor canadense. Na verdade, Cronenberg já havia saído do gênero horror em SPIDER – DESAFIE SUA MENTE (2002), mas, por algum motivo, é a partir de MARCAS DA VIOLÊNCIA que muitos marcam sua mudança.

Porém, apesar da mudança do gênero, em nenhum momento Cronenberg deixou de imprimir suas marcas. Aliás, elas se tornaram ainda mais evidentes. Estão lá a transformação, o sexo e a violência, temas presentes em cada um dos filmes do cineasta. No caso de MARCAS DA VIOLÊNCIA, Viggo Mortensen é Tom Stall, um pacato dono de uma lanchonete, que, de uma hora para a outra, depois que defende seu estabelecimento e seus funcionários de bandidos, passa a ser visto como um herói nacional. Até porque sua ação é incrível. Mas o impressionante da luta é o quanto a violência é gráfica, mostrando, por exemplo, o queixo estourado de um dos bandidos.

O sexo está presente em pelo menos duas sequências importantes: quando a esposa (Maria Bello) veste-se de cheerleader para satisfazer uma fantasia sexual, o que acaba gerando uma cena bem excitante, com um meia-nove lindamente fotografado; e a outra cena é quando a esposa transa não mais com Tom Stall, mas com o seu alter-ego, aquele que ele era antes de mudar de identidade. Neste momento, o sexo é agressivo, causando feridas nas costas da esposa, já que eles transam na escada. E já sabemos o quanto ferimentos também são vistos como objeto de fetiche por Cronenberg, vide CRASH – ESTRANHOS PRAZERES (1996).

A transformação, que não é tão brutalmente exagerada como em A MOSCA (1986), é também muito sentida, já que, uma vez que a família descobre que aquele homem com quem eles conviveram era na verdade um assassino em uma "outra vida", nada continuará da mesma maneira, embora a cena final, do jantar, seja tão bonita e poética. É possível comparar a mudança de vida do personagem com a dos jogadores de EXISTENZ (1999), que atravessam um portal para uma outra realidade. Uma realidade forjada, mas que é possível perder o controle. A jornada que o herói de MARCAS DA VIOLÊNCIA empreende, visitando o irmão para acabar de vez com as ameaças à sua família, só mostra o quanto ele está disposto a aceitar a "nova carne", para usar o termo várias vezes utilizado em VIDEODROME – A SÍNDROME DO VÍDEO (1983). Quer dizer, Cronenberg continua sendo um prato cheio para autoristas. E, para a nossa sorte, é um diretor que permanece bem ativo.

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