sábado, abril 20, 2013

ANNA KARENINA



Eis um belo exemplo de um filme claramente imperfeito, mas que é também fácil de ser admirado e amado. ANNA KARENINA (2012) mostra mais uma vez o talento de Joe Wright quando ele envereda pelo drama de época, mas aqui podemos ver também um diretor experimentando cada vez mais. No uso da referência forte ao teatro, na movimentação dinâmica e em certo momento inebriante da câmera. Pena que essa experimentação vai diminuindo e quase desaparecendo ao longo do filme, que vai partindo para um registro mais convencional, como se Wright tivesse desistido da ideia inicial.

É também um filme que passa uma impressão de que sofreu inúmeros cortes na edição final, já que os saltos temporais são feitos de maneira bem arbitrária. Especialmente quando o filme parte para a conclusão. Mas é também um filme de grandes momentos, que compensam a irregularidade. Como não se encantar, por exemplo, com a cena do baile, em que podemos estranhar tanto a dança quanto os efeitos especiais utilizados? De uma beleza impressionante e auxiliado pela música, esse momento é também perturbador, tanto para o espectador quanto para os personagens envolvidos – Anna Karenina (Keira Knightley), Kitty (Alicia Vikander) e Vronsky (Aaron Taylor-Wood).

Aliás, Kitty é uma personagem que não se apaga no filme, ao contrário da versão de 1935. Ela ganha força e algumas cenas bem comoventes, especialmente perto do final. Joe Wright correu o risco de incluir essa subtrama, que poderia atrapalhar a trama principal, envolvendo Anna, o marido Karenin (Jude Law) e Vronsky, o amante. A história já é conhecida de boa parte da audiência, seja pelo livro, seja pelas outras versões cinematográficas. Então, o que é mais importante para o espectador é ver as opções estéticas de Wright.

A cena, por exemplo, dos amantes em um campo verdejante é bonita e sensual, com destaque para o close nas línguas dos dois, no momento do beijo, o que não é nada comum em filmes do gênero, a não ser os que têm definitivamente a intenção de mostrar cenas de sexo, como as adaptações de O Amante de Lady Chatterley.

Aliás, uma das coisas que são muito comuns nesses romances de época, principalmente os do século XIX, que tratam do adultério, é que neles, sempre a mulher é a figura que sai mais prejudicada, para dizer o mínimo. Penso em O Primo Basílio, de Eça de Queiroz; em Madame Bovary, de Gustave Flaubert; em A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne; e em Anna Karenina, de Liev Tolstói. Ao que parece, o preço que esses escritores pagavam para que pudessem falar de adultério defendo suas heroínas frágeis, naquela época, era mostrar os seus calvários.

Quanto ao calvário de Anna Karenina, ele é sentido de certa forma à distância, até pelo modo teatral com que Wright escolhe compor seus personagens, principalmente no início, quando Vronsky aparece todo cheio de pose num cavalo. Por isso é preciso comprar essa teatralidade que o filme impõe e que usa de maneira muito bonita em algumas sequências bem memoráveis. Destaco o momento em que Anna resolve contar para o marido que é amante de Vronsky, uma sequência carregada de intensidade.

E se não foi desta vez que Wright conseguiu superar sua excelência vista em ORGULHO E PRECONCEITO (2005) e DESEJO E REPARAÇÃO (2007), foi bom o cineasta ter usado pela terceira vez o seu amuleto de sorte: Keira Knightley. Além do mais, ANNA KARENINA é um dos filmes visualmente mais belos dos últimos anos. Definitivamente, uma obra para se ver na telona.

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