sexta-feira, julho 27, 2012

MARGARET



Uma pena ter que dizer isso, mas, hoje em dia, o melhor do cinema não está no cinema. O circuito brasileiro, pelo menos, não tem dado o devido valor às joias que se produzem e que acabam sendo descobertas pelos cinéfilos através da internet. Santa internet, nesse caso. De que outra maneira teríamos acesso a esta maravilha que é MARGARET (2011), de Kenneth Lonergan? Trata-se do segundo longa-metragem do diretor, que só havia feito até então o belíssimo CONTE COMIGO (2000). Como ele é mais dramaturgo que cineasta, Lonergan tem uma habilidade com o trato com os diálogos, o texto e a interpretação, mas sem torná-los "teatrais" quando transpostos para o cinema.

Junte-se sua dedicação ao teatro com as dificuldades enormes da longa gestação de MARGARET e temos esse longo hiato na carreira de um cineasta que poderia nos presentear com mais filmes prazerosos como este. É também uma pena saber que, devido a problemas relacionados a disputas judiciais com financiadores e outros problemas de ordem burocrática e financeira, o filme quase não viu a luz do dia e ainda ficou sem 36 minutos, que foram cortados por imposição da Fox Searchlight. O filme ficou com duas horas e meia. Para se ter uma ideia de quanto o filme rodou, um dos produtores executivos é Sydney Pollack, falecido em 2008! E no final, quem acabou montando a versão para cinema não foi Lonergan, mas Martin Scorsese e Thelma Schoonmaker.

Acontece que MARGARET não é um drama qualquer e sua razoavelmente longa duração não é sentida. Cada cena é feita com tanto carinho que poderia ter cinco horas de duração que sairíamos ganhando. Fica essa impressão, pelo menos. O ideal é fazer como eu: ver o filme sem saber nada a respeito, sem ler nenhuma crítica. Mas como eu estou aqui para escrever a respeito, falemos um pouco da trama sem entregar muita coisa.

MARGARET conta a história de uma garota, Lisa Cohen, vivida por Anna Paquin, no melhor momento de sua carreira, que enfrenta conflitos internos e externos nas mais variadas esferas de sua vida: na família, na escola, na vida sentimental. E tudo se torna ainda mais complicado e intenso depois que ela é parcialmente responsável por um acidente fatal, numa das cenas mais impactantes do cinema dos últimos anos. O fator surpresa, claro, ajuda a torná-la mais perturbadora e trágica.

O filme retrata também um momento especialmente tenso para os americanos, já que a história se passa ainda poucos anos após o calor dos acontecimentos do 11 de setembro. E isso é explicitado nas calorosas discussões das aulas de História e em tomadas que mostram aviões sobrevoando o céu de Nova York. A construção da personagem de Lisa, porém, é que é o grande mérito do filme. MARGARET é quase todo centrado nela e algumas vezes em sua mãe (J. Smith-Cameron). Nota-se uma jovem ainda tateando para encontrar o seu caminho e procurando justiça para o que aconteceu no acidente.

O elenco de apoio excepcional, formado por Mark Ruffalo, Jean Reno, Kiearan Culkin, Matt Damon e outros nomes menos conhecidos mas não menos brilhantes, contribui para tornar MARGARET ainda mais especial. E assim como acontece em CONTE COMIGO, Lonergan deixa a catarse para o final, mas de uma maneira muito discreta e delicada, que faz com que a gente fique olhando para a tela em respeito ao fim de uma obra-prima do cinema contemporâneo.

P.S.: Confira no Blog de Cinema do Diário do Nordeste a relação dos filmes selecionados para o Festival de Veneza 2012. AQUI.