domingo, maio 13, 2012

EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS



A demora até que foi menor do que eu esperava. Graças à iniciativa da nova gestão do Cine Dragão do Mar, o novo trabalho de Beto Brant e Renato Ciasca, EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS (2012), aporta em Fortaleza com apenas algumas semanas de atraso em relação à data de estreia em São Paulo. A expectativa deste que vos escreve era grande, tendo em vista os efeitos devastadores de CÃO SEM DONO (2007), o filme anterior da dupla, em mim. Nem mesmo um problema na projeção, que cortava um pedaço do lado esquerdo da linda fotografia em scope, atrapalhou o prazer de um cinema de tamanha força e beleza.

Muito já se falou da excepcional interpretação de Camila Pitanga e das belas cenas de sexo. Até aqueles que veem o filme com restrições falam da impressionante entrega da atriz ao papel. Logo, não preciso repetir o que todos já disseram, apenas confirmo. Mas como EU RECEBERIA... não é exatamente um filme "de ator", mas um filme de autor - no caso, de autores -, prefiro vê-lo como um exemplar do melhor que a nossa cinematografia já produziu, o que é uma evolução do trabalho brilhante que Beto Brant tem feito desde sua estreia, com OS MATADORES (1997), passando pelo vibrante O INVASOR (2002) e entrando numa série de filmes que exploram com profundidade relacionamentos amorosos, cada um com uma cara própria e sem medo de experimentalismos. EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS é o quarto dessa safra.

Baseado em romance de Marçal Aquino, o filme segue o triângulo amoroso entre Lavínia (Camila Pitanga), uma bela e confusa mulher, o fotógrafo Cauby (Gustavo Machado) e o pastor Ernani (Zecarlos Machado). Os três são como estrangeiros naquele ambiente exótico. Na Amazônia, o culto ministrado pelo pastor Ernani segue uma linha mais sincretista, misturando o discurso tradicional das igrejas evangélicas com cultos a São Miguel e Benjamin. Isso aparentemente é relacionado com as crenças da região Norte do Brasil, também influenciadas pelas práticas religiosas dos índios.

Vale destacar que em nenhum momento o filme mostra Ernani como uma pessoa ruim ou enganadora. Ele acredita no que prega e inclusive tem um papel importante em alertar a população local acerca do desmatamento brutal da floresta amazônica. Mas o momento ligado a religião mais forte do filme é o da oração de Ernani em Lavínia, que a princípio foi recebido com alguns risos por parte da plateia, mas logo foi encarado com a seriedade que essa sequência merece. No entanto, como vemos o filme pelo ponto de vista de Cauby, a tendência é torcermos por ele, como se nós, meros espectadores, também pudéssemos possuir o corpo de Lavínia. Aliás, essa ideia de posse está entranhada no filme inteiro.

Em um filme que trata de um sério triângulo amoroso e levando em consideração o clima de mistério que vez ou outra alguma cena provoca, interrompendo a narrativa principal, como a de uma mulher tocando um instrumento de percussão, a tragédia parece iminente, seja através de coadjuvantes que funcionam como vozes de maldição (casos do personagem de Gero Camilo, de um velho palhaço e do delegado da cidade), seja através da música marcante e que reverbera em nosso corpo com seus graves fortes, a exemplo das trilhas de Angelo Badalamenti para alguns trabalhos de David Lynch.

Mas, por mais que EU RECEBERIA... seja um filme com elementos de suspense, com o uso constante de fades e elipses que remetem a CÃO SEM DONO, trata-se no fim das contas de uma história de amor. Um amor que se confunde com uma obsessão. Eis a referência mais do que obrigatória a UM CORPO QUE CAI. Essa obsessão, em especial a de Cauby, por Lavínia, é o grande eixo da trama e é por ela que ele vive o inferno e o céu. Essa trajetória é dolorosa também para o espectador, que acompanha com angústia e interesse a história desse filme que ainda tem tanto para se descobrir, estudar, refletir.