sábado, janeiro 15, 2011

GÊMEOS – MÓRBIDA SEMELHANÇA (Dead Ringers)



Lembro da primeira vez que vi GÊMEOS – MÓRBIDA SEMELHANÇA (1988). Foi no extinto Cine Center Um. E uma das coisas que mais me marcou foi a volta pra casa, depois da sessão. Dentro do ônibus, eu sentia uma tristeza imensa, nunca experienciada antes. E atribuía aquilo ao filme. Mas não sabia bem o porquê de um filme sobre gêmeos ginecologistas e uma mulher com um útero tricervical ter me abalado dessa maneira. E vendo o filme pela terceira vez, tive novamente essa sensação. E só hoje, terminando de ler a entrevista contida no livro "Cronenberg on Cronenberg", eu vi que não fui o único a experimentar isso. Cronenberg contou que durante uma sessão-teste, um sujeito, um médico, chegou a ele e perguntou: "Você pode me dizer por que eu me senti tão estupidamente triste vendo este filme?" E o cineasta disse: "É um filme triste".

E depois outras pessoas perguntaram a mesma coisa a ele. O que é muito estranho, levando em consideração o tema do filme. Isso não está explicitamente relacionado à ginecologia ou aos irmãos gêmeos. Mas Cronenberg conseguiu atingir o coração das pessoas com essa obra. Eu diria que teve mais a ver com o sofrimento dos irmãos, tanto de Beverly como de Elliot, no terço final do filme, que se encaminha para uma tragédia. E é interessante quando Cronenberg fala na entrevista do quanto Howard Shore, o compositor da trilha sonora, estava em sintonia com o filme, que deve muito da música para ter atingido o seu grau de excelência.

Nesta terceira vez, já estando mais íntimo com o cinema de David Cronenberg, vendo a sua obra em ordem cronológica, procurando entender as suas obsessões e também me deliciando com suas ótimas entrevistas, foi possível perceber mais detalhes que haviam ficado num canto escuro da memória. Como, por exemplo, a cena de sexo de Beverly com Claire (Geneviève Bujold), no qual ela fica amarrada com gaze e bisturis; ou as vestes estranhamente vermelhas usadas pelos cirurgiões. Mas é impressionante como, ainda assim, os filmes de Cronenberg se ajustam mais no inconsciente, na parte do cérebro que lida com os sonhos. Eu percebi isso de maneira mais forte com VIDEODROME (1983), mas também acontece em GÊMEOS...

Outro detalhe interessante do filme é que os efeitos especiais usados nos momentos que Jeremy Irons interpreta ambos os papéis são tão bons que a gente até se esquece de procurar saber como foram feitos. Mais um ponto para o filme, que é envolvente e estranho a ponto de nos deixar totalmente absorvidos. E lembro que na época Irons foi bastante elogiado por sua dupla interpretação, seja como Beverly, o mais tímido e frágil e que até carrega um nome de mulher; seja como Elliot, o mais sem-vergonha e o cara que deixa as mulheres "prontas" para o irmão, depois de dar o primeiro passo. E a relação dos dois é vista por muitos como incestuosa, ainda que seja de uma maneira, digamos, mais platônica. Mas isso é outra discussão que poderia render muito.

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