quarta-feira, março 31, 2010

PAIXÃO E SOMBRAS



Os últimos dias não foram fáceis pra mim. Quando a saúde não está bem, as demais áreas de nossa vida são todas afetadas e não conseguimos produzir nada bem, nem nos socializarmos bem. Foi num desses dias meio que tenebrosos que resolvi matar a saudade de Walter Hugo Khouri. É o meu cineasta brasileiro favorito e fazia um tempão que não via um filme seu. Resolvi recomeçar a ver seus filmes com uma obra completamente inédita para mim: PAIXÃO E SOMBRAS (1977), um de seus trabalhos menos conhecidos, mas que talvez seja o que mais explicita as suas angústias e obsessões como cineasta.

O protagonista é novamente Marcelo, o alter-ego de Khouri, aqui interpretado por Fernando Amaral. No filme, Marcelo é também um cineasta - o que aproxima ainda mais o personagem de seu criador. Assim, algumas frases de Marcelo são fundamentais para entender como Khouri via a relação entre seus filmes e o público. "Não quero compreensão; quero recepção, se houver", ele diz para sua assistente de direção em tom meio melancólico. Ele também questiona a natureza do cinema, de como ele queria que a sua arte fosse tão importante quanto a literatura ou a pintura.

Marcelo, mesmo diante de sérias restrições orçamentárias, da falta de um roteiro, da falta da atriz que ele diz ser fundamental para a existência do filme (Lilian Lemmertz), o diretor dentro do filme não perde a pose, ainda que seu sorriso seja sempre triste. Não estamos aqui diante do Marcelo comedor de menininhas de filmes como EU (1987) ou EROS – O DEUS DO AMOR (1981), filmes que, aliás, lidam com problemas ligados a relacionamentos familiares, a questões que vão fundo no psicológico. Em PAIXÃO E SOMBRAS o foco está menos no sexo e nas questões paternas e maternas e mais no amor obsessivo por uma mulher e em questões estéticas.

Mas mesmo esse amor é também pintado de forma enigmática. Marcelo não explicita fisicamente esse amor, que se confunde com mais uma obsessão do cineasta. E talvez o seja. O que a gente percebe também é que Marcelo está em busca de algo que não sabe ainda direito o que é. Como se estivesse esperando o acaso resolver as coisas por ele. É assim que ele resolve, de uma hora para a outra, fazer de sua bela assistente de direção uma atriz; é assim que ele resolve se inspirar nos desenhos sadomasoquistas de Buda (Carlos Bucka) para fazer um filme totalmente diferente.

No elenco, o Marcelo de Fernando Amaral está longe de estar entre os meus preferidos, mas Monique Lafond está adorável. Já Lilian Lemmertz, como a estrela amada pelo diretor e que o rejeita, nem tanto. A jovem Aldine Muller aparece num papel pequeno.

O filme tem aquele andamento lento e agradável, aquela mistura de classe, sensualidade e mistério, que se potencializam com a música de Rogério Duprat, John Coltrane e Franz Schubert. A cópia que eu consegui da internet foi ripada de uma boa cópia em VHS. Infelizmente ainda temos que nos contentar com essas versões. Alguém precisa se mexer para fazer um trabalho de restauração das obras de Khouri. Antes que seja tarde.

P.S.: O blog coletivo Multiplot iniciou um trabalho deveras interessante: escrever sobre todos os filmes do genial Anthony Mann, dos dramas noir dos anos 40 aos épicos dos anos 60. Não deixem de conferir diariamente.

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