terça-feira, março 16, 2010

LES AMOURS D'ASTRÉE ET DE CÉLADON



O filme-testamento de Eric Rohmer é o mais iluminado de todos os seus trabalhos. Como se ele, ao final da vida, já estivesse vendo a luz que dizem ver as pessoas do bem em seus momentos finais. O filme tem a maioria das cenas se passando em exteriores iluminados pela luz do sol ou por interiores iluminados por grandes janelas. Também iluminado é o rosto branco e os cabelos loiros da bela Astrée. Não por acaso o filme se passa na Gália, antes da invasão romana e da chegada do Cristianismo. Há, portanto, uma pureza maior, especialmente porque Rohmer não pinta de forma negativa nenhum aspecto das crenças celtas da época. Mas, por outro lado, senti meio que uma tentativa de justificar o paganismo numa sequência que mostra um sacerdote druida dizendo o quanto todos aqueles deuses são várias facetas de um Deus único.

LES AMOURS D'ASTRÉE ET DE CÉLADON (2007) foi adaptado de um romance pastoral do século XVII e conta a história de amor entre um casal de pastores de famílias rivais. Com diálogos e direção que remetem a Robert Bresson e que podem causar estranhamento em quem não está muito familiarizado com o estilo, o filme começa com Astrée flagrando seu amado Céladon com outra moça. Porém, ela sai antes de ver o desfecho da situação, isto é, Céladon rejeitando o amor da outra, pois seu coração já pertence a Astrée. Com o coração ferido, Astrée, ao encontrar o namorado, diz que nunca mais quer vê-lo. E lhe diz para nunca mais se aproximar dela. Ele, não vendo mais motivos para viver, resolve agir de forma dramática e se atira no rio. Seu corpo não é encontrado pelo pastores, indo parar na costa de uma mansão habitada por um grupo de ninfas druidas. A líder delas se encanta com a beleza do rapaz e faz o possível para mantê-lo lá. Enquanto isso, Astrée descobre a fidelidade de Céladon e chora amargamente.

Uma das coisas que mais se destaca nessa aparentemente ingênua história de amor é a maneira devotada com que os jovens nutrem seus amores. Especialmente Céladon, que renega qualquer tentativa de trair a amada, por mais tentadora que seja a oferta. Mas foi Astrée quem mais me comoveu. Cada aparição dela, chorando e falando de maneira teatral e poética do amado, me transportava para séculos atrás. Como se eu estivesse dentro de um teatro muito antigo numa encarnação passada. Impressionante como Rohmer procura ser fiel ao momento histórico que decide mostrar, como já podemos ver em outras obras-primas suas, como A INGLESA E O DUQUE (2001) e A MARQUESA D'O (1976). Inclusive, LES AMOURS D'ASTRÉE ET DE CÉLADON já começa com uma observação da tentativa de ser fiel ao espírito da época, lamentando até mesmo a impossibilidade de não filmar nos locais onde a história se passa, por já ter sido o lugar totalmente dominado pela geografia urbana.

A trama tem um quê de inocente, mas não sem destacar o belo corpo das mulheres, seja de Astrée, seja das ninfas druidas que resgatam Céladon. No terceiro ato, quando Céladon se disfarça de mulher para se aproximar de Astrée, o filme acentua um leve erotismo, que não é nenhum objeto estranho na filmografia de Rohmer, que já fez tantas vezes as batidas de nossos corações pulsarem mais forte.

Agradecimentos ao Sergio Alpendre, que acabou dando um empurrãozinho na minha vontade de ver o filme. Sergio o incluiu em segundo lugar em seu top 100 de filmes dos anos 2000.

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