quinta-feira, junho 25, 2009

ENRAIVECIDA - NA FÚRIA DO SEXO (Rabid)



Ainda que não seja tão bom quanto CALAFRIOS (1975), o segundo filme da trilogia B de David Cronenberg, ENRAIVECIDA - NA FÚRIA DO SEXO (1977), segue a mesma linha do seu predecessor e é também um ponto alto da carreira do cineasta. A seu favor, uma Marilyn Chambers linda, vinda do cinema pornô e com uma doçura no olhar e uma performance surpreendentes. Muito do mérito do filme está em sua presença. O prólogo, com uma cena de acidente, faz lembrar CRASH - ESTRANHOS PRAZERES (1996) e, como Cronenberg é interessado especialmente no corpo e suas mutações, nada mais natural do que um acidente para modificar ou destruir carne e ossos. O acidente acontece quando a personagem de Chambers e o namorado, os dois numa moto, se chocam com uma caminhonete. Ela fica num estado pior que ele, tendo perdido boa parte do tecido do abdômen, ficando com suas entranhas expostas. Para a sorte deles - ou azar -, eles estão próximos a uma clínica onde um médico desenvolve novas pesquisas sobre regeneração de tecidos. E é para lá que eles são levados. O rapaz não sofre muitas lesões, mas ela fica em estado grave e é submetida às experiências do tal médico. O que não se esperava era que, com o resultado de tais experiências, ela adquirisse uma espécie de ferrão na axila. Um ferrão que a torna sedenta de sangue e que contamina suas vítimas, que ficam como zumbis raivosos, espumando pela boca.

ENRAIVECIDA - NA FÚRIA DO SEXO tem um registro mais sério e realista do que o anterior, que tem um andamento melhor resolvido e um clima de diversão mais aparente. Nos anos 80, com a proliferação da AIDS, o filme foi considerado profético, já que a mulher que contamina as pessoas é "apenas" a portadora do "vírus", não morre, enquanto que os demais ficam doentes e também contaminam outras pessoas. Ainda assim, há uma semelhança forte entre os dois filmes, que podem ser considerados "irmãos". Ambos são variações inteligentes de filmes de zumbis, que carregam em sua herança genética o DNA de seu autor, obcecado por mutações no corpo humano. E, ao contrário do que se imagina, ENRAIVECIDA - NA FÚRIA DO SEXO não é tão erótico quanto CALAFRIOS, mesmo sendo generoso com o espectador ao mostrar a nudez de Marilyn Chambers, ainda que de maneira sutil e que nunca rouba o real interesse do filme, que é a trama de horror e o drama dos personagens. E, diferente do anterior, as pessoas contaminadas não têm a sua libido aumentada. Logo, o subtítulo nacional é bem picareta.

Vale lembrar que é em ENRAIVECIDA que aparece primeiro a figura do orifício que lembra um ânus, situado na axila da protagonista. O orifício que se mexe como se tivesse um músculo seria explorado novamente e com mais ênfase em obras posteriores, como MISTÉRIOS E PAIXÕES (1991) e EXISTENZ (1999). Entre os momentos gore, destaque para a cena do médico enlouquecido durante um procedimento cirúrgico e cortando os dedos da enfermeira com um bisturi para sugar o seu sangue. Se Cronenberg, no trabalho anterior, mesmo com um orçamento apertado, já havia dado um show de elaboração de efeitos especiais e de maquiagem, em ENRAIVECIDA, seu talento mostra-se aprimorado. Estou ansioso para ver como será minha revisão de THE BROOD - OS FILHOS DO MEDO (1979), que lembro de não ter gostado muito quando vi pela primeira vez, em VHS. Sinto que vou gostar bem mais agora.

P.S.: E ontem a grande notícia do dia para os interessados em cinema foi a decisão da Academia de aumentar a quantidade de indicados à categoria principal do Oscar para dez. Qual será a repercussão disso para o mercado? Vamos aguardar para ver qual será o resultado dessa presepada.

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