quinta-feira, maio 21, 2009

ANJOS E DEMÔNIOS (Angels & Demons)



Como é possível o mesmo diretor de um dos melhores filmes do ano (FROST/NIXON, 2008) ter dirigido um dos piores de 2009? Talvez Ron Howard não tenha tido o mesmo carinho para dar à sua produção cáça-níqueis o mínimo valor artístico. Tudo bem que a obra na qual ANJOS E DEMÔNIOS (2009) é baseada não é lá mesmo um grande romance e o cinema não tem o mesmo poder que a literatura tem de trabalhar com mais profundidade os temas apresentados. Mas isso não é desculpa. Já dizia o mestre Hitchcock que é bem mais possível pegar uma obra literária medíocre e fazer um grande filme do que o oposto. ANJOS E DEMÔNIOS é tão desleixado que nada no filme consegue ser minimamente interessante. Seu suspense e sua ação non-stop ficam a dever ao mais fraco dos episódios de 24 HORAS, para comparar com uma obra que também lida com a passagem impiedosa do tempo.

Como não sou exatamente um admirador da Igreja Católica, com seu passado negro e seus segredos bem guardados por covardia e interesses econômicos, o filme até poderia me agradar, pelas alfinetadas constantes que o personagem de Tom Hanks dá na Santa Madre Igreja. Sem falar no interesse que eu também tenho por simbolismos. Mas nada disso é bem utilizado no filme, que adota uma fotografia escura, que pode ser uma boa desculpa para trazer um tom mais sombrio à trama de assassinatos no Vaticano, mas pra mim nada mais é do que mais um indício de que o filme foi realizado "nas coxas", apressadamente, e com interesse exclusivo em capitalizar.

A seu favor talvez esteja a nova parceira de Tom Hanks, que pelo menos não é tão irritante quanto a Audrey Tatou em O CÓDIGO DA VINCI (2006). Mesmo assim, a israelense Ayelet Zurer se mostra bem apagada no filme. O que é até natural, para um filme que não tem tempo de privilegiar os personagens, em detrimento da ação. Ewan McGregor, sabendo que estava numa megaprodução picareta, se esforça para ser mais canastrão do que o costume. Talvez se todos no filme fossem como McGregor - que interpreta o filho do papa recém-falecido -, ANJOS E DEMÔNIOS funcionaria como uma boa comédia involuntária. Ou não, já que a ação contínua do filme, feita sem entusiasmo, deixa tudo muito monótono.

E por mais que o filme toque, muito superficialmente, em assuntos importantes e polêmicos - como a censura de Galileu Galilei -, do jeito que o diretor (e acho que o autor do livro também) amarra sua trama, tudo fica raso e sem importância. Mas o que mais me incomodou acontece na sequência em que Tom Hanks e Ayelet Zurer entram nos arquivos secretos do Vaticano e vêem o original de Galilei, antes da Igreja o obrigar a "mudar de ideia" e escrever outro tratado, desmentindo o que havia escrito. Nessa sequência, o casal de heróis encontra no documento palavras escondidas escritas em inglês, que segundo eles era considerada uma língua profana pela Igreja na época. Por mais que isso seja verdade - o fato de a língua inglesa ser profana naquela época -, isso me parece mais um meio de dar uma importância à lingua de Shakespeare mais do que o necessário.

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