quinta-feira, março 06, 2008

LIMITE























Numa das edições virtuais da Revista Paisà, foi feita uma votação entre os colaboradores da revista para eleger os melhores filmes brasileiros de todos os tempos. E LIMITE (1931) ficou com a primeira colocação. Pra mim, LIMITE sempre foi uma espécie de bicho-papão do cinema. Sua fama de ser chato, arrastado e hermético e o fato de ser mudo me afastavam do filme. Até o dia em que ele veio parar em minhas mãos, graças ao amigo Marcos Felipe, que me presenteou com uma cópia. Mas ainda assim, fiquei esperando o momento certo para ver o filme, fiquei adiando. Assim como aconteceu com 2001: UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO, foi apenas na terceira tentativa que consegui ver o filme até o final. Nas primeiras tentativas, quando não me me perdia na estória, pegava no sono. E tenho um problema com filmes mudos e ainda por cima com um andamento muito lento, pois costumo me dispersar facilmente.

O que me ajudou a entender melhor a estória e as intenções do filme foi o livro "Limite", de Saulo Pereira de Mello, publicado pela editora Rocco, que a amiga Socorro Araújo me emprestou. Foi quando eu fui começando a pegar gosto pelo filme, embora confesse que lá pelo final tenha ficado um pouco cansado daquela cena de cerca de dez minutos só de ondas. Mas o que mais impressiona no filme são os seus recursos de vanguarda até então inéditos no cinema brasileiro da época, num país onde o cinema ainda não tinha uma tradição. Tanto que o filme foi realizado com os recursos do próprio Mário Peixoto, conhecedor tanto do cinema alemão, encabeçado por Murnau, quanto do cinema americano (Chaplin, King Vidor, Griffith). Peixoto era um jovem burguês que teve o privilégio de estudar na Inglaterra e de nunca ter precisado trabalhar. Quando voltou da Inglaterra para o Brasil, em 1928, entrou em contato com o cineasta Adhemar Gonzaga, estando presente a filmagens e aprendendo muito da técnica cinematográfica. Nas conversas que teve com a turma de Gonzaga, AURORA, de Murnau, era um dos filmes mais discutidos. Em 1931, quando o filme foi exibido, o mundo já conhecia o cinema falado, mas aqui no Brasil poucas salas estavam equipadas com essa nova tecnologia.

O filme seria um precursor de LOST e de UM BARCO E NOVE DESTINOS, de Alfred Hitchcock. A comparação com LOST se deve aos flashbacks dos náufragos e com relação ao filme do Hitchcock, há o fato de boa parte da trama se passar dentro de um pequeno barco. O filme apresenta os três personagens principais: um homem e duas mulheres. Uma das mulheres está sentada na proa do barco, em posição ereta e firme, olhando para o horizonte; o homem mostra-se cansado e desanimado, segurando os remos; a terceira mulher encontra-se deitada no piso do barco, como se estivesse com todas as suas energias desgastadas. De acordo com o autor do livro, Saulo Peireira de Mello, a posição de cada personagem representaria, respectivamente, a resistência, o desânimo e a derrota. Depois que vemos a mulher mais forte tentando ajudar os colegas a abrir uma lata de comida, vamos para o primeiro flashback, que surge a partir do momento em que os três personagens passam a contar suas histórias uns aos outros. No primeiro flashback, antecipando Robert Bresson, Peixoto perturba/intriga o espectador com closes de pés, de mãos, nos deixando meio que perdidos e ao mesmo tempo curiosos com o que está acontecendo. Quem seria esta mulher, a mulher resistente da proa? A lentidão das imagens e dessas estórias que parecem pouco dizer passa uma sensação de angústia poucas vezes vista no cinema brasileiro.

Há uma total ausência de legendas. A única legenda que existe é para esclarecer para o espectador que determinado trecho do filme foi totalmente desgastado e não pôde ser restaurado. A falta de legendas e de diálogos remeteria mais ao cinema de Murnau do que aos filmes americanos, que pareciam necessitar mais das palavras para se darem por entendidos. Acho que eu, por ter crescido e aprendido a entender o mundo através das palavras, sinto falta delas; pra mim, nem sempre as imagens são suficientes. Para sabermos que a "primeira mulher" era uma fugitiva, vemos essa informação através do close de uma manchete de jornal. A segunda estória, da segunda mulher, parece até mais enigmática. A prisão, no caso dela, seria o casamento desgastado. A estória do homem apresenta um dos meus momentos favoritos do filme, que é quando a vegetação, e a natureza como um todo, parece, auxiliada pela ameaçadora música de fundo, trazer uma desagradável sensação de agouro. As idas e vindas no tempo e o freqüente retorno ao barco causam uma espécie de enjôo, ainda mais depois daquela cena da câmera rodopiando. O que mais me deixou confuso foi a cena do cemitério, que só pude entender um pouco mais depois de ler a respeito no livro. Também acho que perdi o ponto em que os três personagens se juntam no mesmo barco - ou será que isso não acontece e o barco seria apenas uma metáfora da prisão, da inutilidade de suas vidas? Afinal, tudo no filme é simbólico mesmo.

LIMITE foi o único filme dirigido por Mário Peixoto. Seu segundo trabalho se chamaria ONDE A TERRA ACABA, que se tornou título do documentário de Sérgio Machado sobre a vida e obra de Peixoto, realizado em 2002.

Agradecimentos especiais aos amigos Marcos Felipe e Socorro Araújo.

P.S.: Saiu a edição de nº 18 da Revista Zingu! E dessa vez, tem texto meu, como colaborador especial. Fiz uma pequena homenagem à deusa Jennifer Connelly. O dossiê do mês é dedicado a Galileu Garcia, realizador dos tempos da Vera Cruz, com críticas e uma ótima entrevista feita pelo Matheus Trunk. Há também um especial sobre os 50 anos de UM CORPO QUE CAI, do mestre Hitchcock, além das já tradicionais seções "Cinema Extremo", "Subgêneros Obscuros" e "Clássicos de Prestígio", que sempre trazem críticas bacanas.

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