quinta-feira, janeiro 25, 2007

O TEMPO QUE RESTA (Le Temps qui Reste)























Desde o dia em que tive uma convulsão, em dezembro de 2005, que tenho me sentido muito frágil diante da vida. Como se só então percebesse o quanto estar vivo é algo temporário. Sei que posso estar sendo muito dramático diante do que aconteceu, mas é que eu sempre tive essa obsessão por estar sempre consciente. Até quando eu bebia, fazia questão de nunca ficar realmente bêbado, a ponto de perder a consciência. Passar mal e acordar numa cama de hospital durante um dia aparentemente normal foi algo que mexeu comigo. Pra piorar, em abril do ano passado, um amigo meu morreu de um ataque cardíaco, só aumentando ainda mais essa sensação de que a vida é como uma vela que se apaga.

Em O TEMPO QUE RESTA (2005), o fotógrafo Romain (Melvil Poupaud, de CONTO DE VERÃO, de Eric Rohmer) desmaia no trabalho e acorda na cama de um hospital. Ao receber alta, o médico lhe dá as más notícias: Romain tem um câncer já em estado avançado e inoperável. Só lhe restam alguns meses de vida. Há a opção de seguir o tratamento de quimioterapia, mas além de muito desagradável, esse tratamento ainda poderia estragar os poucos momentos de vida que lhe restavam. O rapaz opta por negar qualquer tipo de tratamento e procura fazer uma retrospectiva das mais importantes passagens de sua vida. Nessas horas, O TEMPO QUE RESTA se assemelha muito a MORANGOS SILVESTRES, de Ingmar Bergman. Já o final, na praia, nos remete ao desfecho de MORTE EM VENEZA, de Luchino Visconti. O fato de os personagens de ambos os filmes serem homossexuais também contribui para a comparação, mas a orientação sexual de Romain perde um pouco da importância diante de tão dramática situação.

Do mesmo modo que Romain nega qualquer tratamento ou presença de amigos, Ozon parece negar ao filme o seu caráter de melodrama. Pela premissa, poderia-se esperar algo parecido com UMA LIÇÃO DE VIDA, de Mike Nichols. Mas Ozon prefere se segurar e não provocar as lágrimas da platéia usando de artifícios comuns. O TEMPO QUE RESTA não tem momentos carregados de emoção a ponto de fazer as platéias molharem seus lenços. Nesse sentido, o filme de Ozon se aproxima um pouco de IRMÃOS, Patrice Chéreau, filme que optava mais pelo registro semidocumental, mas que também procurava ser seco. Já Ozon faz um cinema mais poético, mais bonito, e que novamente faz uma reflexão sobre a passagem do tempo, tema que já havia sido tratado de maneira bem diferente no anterior O AMOR EM 5 TEMPOS (2004). A passagem do tempo também se revela impiedosa para Jeanne Moreau, que interpreta a avô do protagonista. Como eu não venho acompanhando o seu trabalho e só me lembro dela nos filmes da década de 60, pra mim, foi um susto vê-la tão velha.

De O AMOR EM 5 TEMPOS Ozon trouxe a excelente Valeria Bruni Tedeschi, que no novo filme interpreta uma mulher carente de um filho. Como seu marido era estéril, ela vê a possibilidade de tentar o auxílio de um estranho (Romain), um rapaz que ela julgou belo o suficiente para gerar um filho bonito para ela e seu marido. A cena de sexo com Romain e o casal na cama é um dos grandes momentos do filme, talvez o grande momento de todo o cinema de Ozon.

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