quarta-feira, maio 10, 2006

A DÉCADA QUE MUDOU O CINEMA (A Decade under the Influence)


Suspeito que a melhor década para o cinema americano tenha sido a década de 50. Tinha Hitchcock no auge, tinha Ford, tinha Fuller, tinha Fritz Lang, tinha Anthony Mann fazendo aqueles westerns noir maravilhosos, tinha tanta coisa boa. Mas é fato que o cinema americano dos anos 70 foi dos melhores e mais importantes. Foi quando a indústria saiu da caretice que reinava nos anos 60 e os novos realizadores, inspirados no cinema de vanguarda europeu e "empunhando a bandeira do Godard", fizeram uma revolução social e estética no meio.

A DÉCADA QUE MUDOU O CINEMA (2003) é um documentário que dá uma geral no cinema dessa época e traz comentários de gente importante como Robert Altman, Francis Ford Coppola, Peter Bogdanovich, Roger Corman, William Friedkin, Julie Christie, Dennis Hopper, entre outros, além de trechos de alguns filmes selecionados. Claro que pouco mais de duas horas não é suficiente para cobrir um período tão rico quanto esse, mas, apesar disso, o documentário é uma delícia de se ver, mesmo quando já se sabe muita coisa do que aconteceu. Para melhor aprofundamento, gostaria de adquirir o livro "Easy Riders, Raging Bulls", do qual li apenas os primeiros capítulos mas já deu pra sentir um gostinho. Bem que poderiam lançar o livro no Brasil.

Pode-se dizer que, para o cinema americano, a década de 70 começou em 1967, com filmes marcantes como BONNIE & CLYDE - UMA RAJADA DE BALAS, de Arthur Penn, e A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM, de Mike Nichols. Antes disso havia os filmes B produzidos por Roger Corman, havia o cinema independente de John Cassavetes e os westerns vanguardistas de Monte Hellman. Mas aí era tudo underground, independente, fora da indústria. Esses dois filmes de 1967 foram fundamentais para a "tomada do poder". Os cineastas jovens falavam de temas sociais e comportamentais que antes era um tabu em Hollywood.

Os novos cineastas se espelhavam nos europeus, especialmente nos franceses da Nouvelle Vague, que, por sua vez, já cultuavam os diretores americanos clássicos. Como bem disse Martin Scorsese no documentário, todos adoravam o cinema clássico americano, mas era tempo de mudar, era tempo de fazer algo mais moderno. E a segunda metade dos anos 60 foi marcada pela psicodelia, pela experiência sensorial e pelo rock and roll. E nada mais representativo disso tudo do que o marcante SEM DESTINO (1969), do malucão Dennis Hopper. Aliás, boa parte dessa turma dos anos 60 era ligada às drogas. Dizem que o próprio Scorsese já cheirou muito. Por essa e outras razões, até hoje ele faz filmes sobre personagens marginais e anti-sociais. Outro filme marcante e que tratou da questão das drogas foi JOE - DAS DROGAS À MORTE (1969), de John G. Avildsen, cineasta que começou muito bem, mas depois chegou ao fundo do poço com coisas como KARATÊ KID.

Um dos momentos mais interessantes do documentário é quando alguém - não lembro quem - disse que esteve numa sessão de OPERAÇÃO FRANÇA (1971), de William Friedkin, em pleno bairro negro. Tem uma seqüência do filme em que um dos personagens diz: "never trust a nigger". Nesse momento, a audiência negra aplaudiu. Não que eles tenham concordado com a afirmativa, mas é que finalmente eles viram um filme que mostrava brancos falando francamente o que pensavam dos negros.

Apesar de toda a modernidade que se apresentava, o cinema não deixou de seguir o clássico-narrativo. Não daria pra ficar fazendo coisas malucas como HI, MOM! o tempo todo. A revolução foi mais comportamental e sexual. Suspeito que uma cena de nudez como aquela mostrada em A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA (1971) era algo inédito até então. Também era inédito tratar de um tema sério como a Guerra da Coréia de maneira sarcástica como fez Robert Altman em MASH (1970); ou mostrar um sujeito assaltando um banco para pagar uma operação de mudança de sexo do seu namorado - UM DIA DE CÃO (1975). Outros filmes representativos desse momento: BOB & CAROL & TED & ALICE (1969), ENSINA-ME A VIVER (1971), ÂNSIA DE AMAR (1971), UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA (1974).

Um exemplo maior da década foi O PODEROSO CHEFÃO (1972), que, apesar da estrutura clássica, causou certa polêmica, sendo acusado de romantizar a máfia, ou algo do tipo. Quando Scorsese fez o seu CAMINHOS PERIGOSOS (1973), muita gente pensou que o diretor havia contratado um psicopata de verdade para protagonizar o filme. E impressionante como Robert De Niro ficou marcado e até hoje vive de fazer tipos marginais e violentos.

Depois, os filmes americanos começaram a dar ênfase a temas político - um pouco parecido com os tempos atuais. Naquele tempo, os filmes políticos mais marcantes foram TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (1976), sobre o escândalo Watergate, e REDE DE INTRIGAS (1976), sobre a manipulação da informação na televisão.

Engraçado que o documentário, lá no final, mostra Steven Spielberg e George Lucas meio como vilões da história. Eles quase acabaram com os filmes de teor social e trouxeram diversão escapista com sucessos de bilheteria como TUBARÃO (1975) e GUERRA NAS ESTRELAS (1977). Claro que acusar os dois cineastas é querer simplificar demais as coisas. Principalmente quando vemos Spielberg fazendo um filme tão importante e relevante como o recente MUNIQUE. A impressão que se tem é que a década de 70 durou de 1967 a 1977. Do mesmo modo como começou mais cedo, terminou mais cedo.

Gravado do canal GNT, cortesia do amigão Renato Doho.

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