terça-feira, fevereiro 14, 2006

O FIM E O PRINCÍPIO



Já faz algumas semanas que eu vi essa maravilha de Eduardo Coutinho e se demorar a escrever a respeito, corro o risco de me esquecer do filme e das impressões que tive quando o vi.

O início de O FIM E O PRINCÍPIO (2005) tem sabor de road movie. Refiro-me àquela sensação de ansiedade, de quase euforia de se estar chegando a um lugar desconhecido e sem ter a menor idéia do que se irá fazer ou encontrar. Eduardo Coutinho viajou para o sertão da Paraíba à procura de histórias para o seu novo documentário. Ele agiu instintivamente, usando mais a intuição do que a inteligência. Assim, ele foi parar no município de São João do Rio do Peixe, mais especificamente no Sítio Araçás, uma comunidade onde viviam 86 famílias. Desse modo, seu cinema, que já é marcado pela força do acaso levou essa característica às últimas conseqüências.

Esse é talvez o filme de Coutinho em que ele aparece mais na frente das câmeras. Chegando no tal sítio, ele foi auxiliado por Rosa, uma jovem professora que traçou um mapa do lugar com as principais famílias. Assim, eles partiram para conversar com o povo. Aos poucos, Coutinho foi vendo que o seu maior interesse estava nas histórias e na visão de mundo dos idosos da região. Assim, O FIM E O PRINCÍPIO foi adquirindo esse tom amargo da expectativa da morte, da finitude da vida. Interessante que um dos entrevistados falou dos anos de vida do homem - aproximadamente 80 anos, hoje em dia - em comparação com os anos de vida de um cão ou de um cavalo. Ele contou uma história engraçada a respeito que eu não saberia relatar aqui.

Uma das maiores virtudes dos filmes de Coutinho está em valorizar o que cada um tem a dizer, por mais humilde ou analfabeto que essa pessoa seja. Cada pessoa tem um visão de mundo, uma filosofia de vida para nos ensinar. É até possível que o diretor - assim como o espectador - tenha algum julgamento sobre as crenças de alguns dos entrevistados, mas ele guarda para si. Ele diz não saber de nada, quando alguém lhe pergunta se ele acredita em Deus ou quando se fala sobre o Juízo Final. Não sabe para onde vamos quando morremos, nem em que devemos acreditar.

Dos entrevistados, o que mais me emocionou foi aquele velhinho surdo que só conseguiu se comunicar porque Rosa escreveu as perguntas num pedaço de papel. Ele falou que se sentiu tão feliz ao poder conversar com alguém naquela hora, mesmo estando com a vista ruim. A passagem de Coutinho por aquele lugar, só por esse momento, pra mim já se justificou. O velho passava o dia olhando para o horizonte, sentado numa cadeira debaixo de uma árvore, sentindo-se muito sozinho. O que será que passa(va) pela mente dele?

Quando se despediu daqueles moradores, Coutinho prometeu voltar um ano depois para apresentar o filme. O fato de o próprio diretor também ter mais de setenta anos e de ter passado por um problema de saúde no meio das filmagens talvez o tenha tornado mais sábio no que se refere a nortear melhor o seu filme e dar-lhe essa dimensão mais filosófica. Como era de se esperar, quando Coutinho retornou para exibir o seu filme na cidade, algumas dessas pessoas já haviam morrido.

P.S.: Recebi a nova Paisà. A revista está excelente, hein!

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