segunda-feira, novembro 21, 2005

PELE DE ASNO (Peau D'âne)



Nesse fim de semana chegou a Fortaleza o 4º Festival Varilux de Cinema Francês, mostra intinerante que deveria ser exemplo para outras mostras que acontecem apenas em cidades como Rio ou São Paulo. Esse festival tem trazido todo ano 7 produções. Um fator a se reclamar seria talvez a repetição de filmes já presentes em outra edição, como é o caso de AMORES PARISIENSES, de Alain Resnais, e LESTE-OESTE - UM AMOR NO EXÍLIO, de Régis Wargnier. São filmes que, inclusive, até já foram lançados em DVD no Brasil. O Festival deixa, assim, de trazer mais filmes inéditos, o que é uma pena, já que a cinematografia francesa é uma das mais ricas do mundo. Nesse ano, os maiores destaques do festival foram exibidos na noite de sábado: A DAMA DE HONRA, o novo filme de Claude Chabrol, e a cópia restaurada de PELE DE ASNO (1970), de Jacques Demy.

Demy é mais conhecido como o diretor do premiado musical OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR (1964, Palma de Ouro em Cannes). PELE DE ASNO foi o terceiro filme de Demy protagonizado por Catherine Deneuve - os dois primeiros foram o já citado OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR e DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS (1967). Diferente dos dois primeiros, PELE DE ASNO é menos um musical e mais um conto de fadas bem humorado. Não que a música não esteja também muito presente; ela está. Inclusive, há uma canção que não sai da cabeça da gente de tanto que ela é repetida ao longo do filme - até o papagaio canta.

A estória, baseada num conto de Charles Perrault, é das mais divertidas: um rei (Jean Marais) precisa satisfazer o último desejo de sua esposa (Catherine Deneuve), que no leito da morte faz com que ele prometa que se ele tiver de casar de novo, terá que ser com a mulher mais bela da região. Acontece que mulher bonita é artigo raro por aquelas bandas e a mulher mais bela é justamente sua filha (também interpretada por Catherine Deneuve). O rei, angustiado, vai então consultar o seu conselheiro, que diz não haver problemas no fato de um rei se casar com a própria filha. Segundo ele, se perguntado a qualquer garotinha com quem ela quer se casar quando crescer, ela dirá: "com papai". O problema é que a filha do rei não gosta muito dessa história e vai pedir conselho à sua fada madrinha (Delphine Seyrig), que tem os seus planos para barrar o casamento.

Além de trazer uma estória que diverte em seus momentos de cafonice extrema, PELE DE ASNO é uma festa para os olhos, graças ao colorido exagerado. Por exemplo, nas terras do rei, todos os seus servos se vestem de azul. Até a cor da pele de alguns deles é azul e os cavalos também são pintados dessa cor. Já nas terras do outro rei, todo mundo se veste (ou se pinta) de vermelho. Algumas das cenas mais divertidas do filme são as cenas envolvendo os vestidos de casamento da princesa. Bem espalhafatosos e bregas. O filme é cheio de situações fantasiosas, como um burro que defeca dinheiro, fadas madrinhas que voam e usam varinhas mágicas, uma bruxa que cospe sapos, além de uma brincadeira em cima do clássico "Cinderella".

É bastante curioso o fato de Demy ter feito esse tipo de filme justamente numa época em que os cineastas franceses faziam obras mais políticas, de contestação, como era o caso de Jean-Luc Godard e da própria esposa de Demy, a cineasta Agnès Varda. Demy começou a ser subestimado a partir de maio de 68, quando os franceses colocaram mais política nos filmes. No entanto, os defensores de Demy afirmam que há nas entrelinhas de suas estórias um frescor e um otimismo que resistiu bem mais ao tempo do que muitas das obras mais valorizadas de seus contemporâneos. Além do mais, os filmes são menos ingênuos do que parecem.

Uma outra qualidade do diretor é que ele é capaz de criar novos mundos, brincando com o tempo e com o espaço. Numa seqüência do filme, a fada madrinha mostra que já sabe o que é uma pilha (bateria), em outra, o rei seleciona um poema de um livro só com poetas do futuro, e no final há a aparição surreal de um helicóptero. O filme tem o sabor de contos de fada infantis. Ele começa e termina com um livro se abrindo e se fechando e é narrado por uma voz suave. Assim como vários desses contos clássicos, o filme também deixa no ar uma sensação de desconforto, seja pelo uso extremo das cores predominantes, seja pela ironia da situação, seja pelas canções com toques melancólicos. A alegria no filme se aproxima de um estado de euforia próximo de um usuário de drogas. Num dos últimos números musicais, o casal de apaixonados canta, fora dos próprios corpos, uma canção que diz "o que fazer com toda essa felicidade e contentamento"? É o que se pode chamar de alegria insana.

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