segunda-feira, maio 23, 2005

MELINDA E MELINDA (Melinda and Melinda)



Como é bom ver Woody Allen novamente de bem com a crítica e com o público. Eu nunca fui de reclamar desses últimos filmes do diretor - dos mais recentes, só não gostei muito de DIRIGINDO NO ESCURO (2002) -, e às vezes ficava irritado quando ouvia as pessoas dizerem que ele tinha caído de qualidade, perdido a graça ou que não fazia mais filmes bons desde TIROS NA BROADWAY (1994), título que nem é dos meus favoritos dele. Talvez porque geralmente sinto falta da presença do Woody Allen ator nos filmes em que ele apenas dirige; talvez por não ter ficado satisfeito com John Cusack como alter-ego de Allen. Em MELINDA E MELINDA (2004), pode-se dizer que o alter-ego do diretor é Will Ferrel, que faz parte do núcleo cômico do filme.

Allen já tinha feito um filme misto de comédia e tragédia com o ótimo CRIMES E PECADOS (1989) e eu diria que esse é um território bem arriscado. Afinal, a balança pode pesar mais para um dos lados. A parte da tragédia pode interferir na comédia ou vice-versa, fazendo com que o filme não seja bem sucedido nem em fazer rir, nem em fazer chorar ou emocionar. É verdade que em MELINDA E MELINDA, a balança pesa mais para o lado da comédia - das duas, foi a história que mais me conquistou -, mas a parte trágica do filme também está um primor.

Há que se parabenizar a belíssima performance de Radha Mitchell, que se alterna maravilhosamente entre o drama e a comédia. Ela é a protagonista de duas histórias que correm paralelamente. Em ambas, ela é uma jovem mulher que foge de um passado traumático e se relaciona com um grupo de pessoas que lhe ajuda a recomeçar a vida, inclusive lhe apresentando novos pretendentes.

O filme já começa com esse jeitão esquizofrênico a partir dos créditos de abertura. Está lá a familiar tela preta com os nomes dos atores e a ficha técnica do filme, mas só se ouve o agradável jazz característico depois de se ouvir uma música solene, mas adequada a dramas pesados. Depois disso, vemos um grupo de intelectuais conversando num café sobre que tipo de história ser mais adequada para uma comédia ou uma tragédia. Conclui-se que a vida pode ser uma tragédia ou uma comédia: depende do modo como você a vê, como diz o tagline no cartaz. É a partir dessa discussão que nascem as duas Melindas.

Na primeira história, a dramática, Melinda (Radha Mitchell) chega em frangalhos na casa de Chloë Sevigny, uma amiga do passado que hoje é casada com um sujeito galinha. Na segunda história, ela se relaciona com o casal formado por Will Ferrell e Amanda Peet. Só pela descrição do elenco, já dá pra notar o quão feliz Allen foi na escolha do cast desse filme. Imagina, pôr Radha Mitchell, Chloë Sevigny e Amanda Peet no mesmo filme não é pra qualquer um não.

Na trama formada por Will Ferrell, encontramos uma maior semelhança com outros filmes de Allen, a começar pelos trejeitos de Ferrell, puro Allen. Ferrell é talvez o melhor dos alter-egos de Allen, superando Kenneth Branagh em CELEBRIDADES (1998). Além do mais, eu me identifiquei com o personagem de Ferrell, o que geralmente acontece nos filmes do diretor. Uma das cenas mais tocantes do filme acontece quando Radha Mitchell, linda, alegre e radiante, diz a Will Ferrell num jantar à luz de velas, que está apaixonada (por outro). Por mais que aquilo ali aconteça na parte cômica do filme, não tive como não me colocar no lugar do rapaz, principalmente ao ver a sua expressão de tristeza.

Há uma seqüência no filme que remete ao clássico SONHOS DE UM SEDUTOR (1972). Nesse que é um dos mais engraçados filmes do diretor (ainda que a direção não seja creditada a ele), ele está à procura de uma nova parceira. E fica realmente entusiasmado com uma das pretendentes, que não quer nada sério, só quer mesmo saber de sexo. Pena que na hora do "vamos ver", isso não passa de propaganda enganosa e a mulher é mais neurótica e complicada do que as que fazem o tipo intelectual. Em MELINDA E MELINDA, Allen meio que aperfeiçoa essa cena, quando Ferrell sai com uma gostosona e a leva para sua casa.

Nos filmes de Allen, a neurose é uma das principais inimigas do homem. A ameaça, o problema, vem de dentro e não de fora. O que geralmente acontece na vida de pessoas complicadas ou de pessoas que se relacionam com essas pessoas complicadas. Como eu acho que me enquadro nesse primeiro tipo de pessoas, sempre senti muito prazer ao ver Woody Allen rindo de si mesmo e das situações embaraçosas da vida.

Numa outra seqüência memorável de MELINDA E MELINDA, Radha Mitchell flagra Chloë Sevigny no apartamento de seu namorado. Ele fala simplesmente que isso acontece, que a vida é complicada. Não dá pra culpar alguém por deixar de amar a pessoa, ou mesmo de se apaixonar por outra e acabar traindo o parceiro. Uma das coisas mais assustadoras da vida é imaginar que nossos sentimentos em relação a uma pessoa podem mudar de uma hora pra outra e que quase nada na vida está sob nosso controle. O negócio é relaxar e tentar encarar a vida como uma comédia. Mas sem deixar de lado a seriedade.

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