sábado, março 12, 2005

RAY



Pela primeira vez, em quinze anos, eu não vejo todos os cinco indicados à categoria principal do Oscar antes da cerimônia. Isso porque RAY foi lançado com poucas cópias no Brasil e Fortaleza acabou ficando de fora do lançamento nacional do filme. Só agora estréia aqui.

RAY (2005), dirigido pelo bom operário Taylor Hackford, é um filme correto, bonito, com um ritmo fluido que faz com que a gente não sinta as quase três horas de duração passando. O maior trunfo do filme, sem dúvida, é a performance de Jamie Foxx, que parecia ter encarnado o próprio Ray Charles, fenômeno que me fez lembrar de Val Kilmer em THE DOORS.

Como não sou um conhecedor da obra e da vida do cantor, pra mim todos os eventos mostrados no filme foram uma surpresa atrás da outra. Não sabia de seu vício com a heroína, de seu lado mulherengo, de seus traumas de infância e nem de como ele havia ficado cego.

O diretor e o roteirista optaram por mostrar a infância de Ray Charles através de flashbacks que invadem a história de vez em quando. Não é um recurso original, mas acredito que foi bem empregado. Por exemplo, quando o filme mostrou primeiro ele brincando com o irmãozinho pequeno e enxergando, claro que fiquei curioso pra saber como ele tinha perdido a visão. E o filme mostra isso de uma maneira muito especial. A cena é bela e triste, com a mãe alertando o filho para que ele aprenda a conviver com a cegueira. Graças a ela, que tentou não ser superprotetora, que ele se tornou uma pessoa praticamente independente - todos se admiravam pelo fato de ele andar sozinho por todo lugar, sem ter precisar de uma bengala ou um cachorro.

Foi bom ver a sua evolução musical e seu sucesso ascendente. Ele começou num barzinho fuleiro e no final já tocava para platéias enormes, com direito a grandes orquestras sinfônicas e canções nos primeiros lugares das paradas (se bem que o filme mostrava também o lado do jabá, com o empresário pagando para o radialista tocar). Também acho muito curioso e ao mesmo tempo inacreditável de tão repugnante a questão da segregação racial no sul dos EUA. Já tinha visto em outros filmes esse negócio de lugar para branco e para preto em ônibus, mas sempre que vejo de novo, custo a acreditar que isso realmente tenha acontecido. Se bem que há quem diga que essa divisão entre brancos e negros tenha um aspecto positivo dentro da sociedade negra americana, já que eles puderam crescer economica e culturalmente dentro desses guetos, algo mais difícil de acontecer dentro da realidade social brasileira.

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