domingo, março 20, 2005

PARA SEMPRE LILYA (Lilja 4-ever)



Essa última viagem que fiz para Salvador teve umas preliminares bastante conturbadas e que mexeram comigo psicologicamente. O principal problema foi o choque de horários com a nova escola onde eu ia começar a trabalhar nessa semana. Por causa dessa viagem, houve uma pequena confusão com a organização educacional do município. O sentimento de culpa que me invade nessas ocasiões é sempre perturbador.

Cheguei em Salvador na quinta-feira e fiquei feliz ao saber que o aguardado filme (pelo menos pra mim) PARA SEMPRE LILYA (2002), de Lukas Moodysson, estava em cartaz numa única sessão na Sala de Arte - Cine XIV, que fica no Pelourinho. Era o último dia de exibição do filme na cidade e fiquei admirado com o taxista, que não sabia onde era o lugar. Até poderia tirar sarro do jeito bahiano de ser, já que ao chegar lá, faltando apenas dez minutos para começar o filme, a moça da bilheteria falou pra mim: "aguarda um minutinho que eu ainda estou abrindo o caixa". Isso, com aquele sotaque bem calmo. Mas o filme começou sem atraso - tinha pouca gente mesmo na sessão. O cinéfilo de Salvador que costuma vez "filmes de arte" tem bem mais opções do que o de Fortaleza. Lá em Salvador tem quatro salas dedicadas a filmes fora do circuitão.

Quanto ao filme, de tanto o amigo Daniel "the Walrus" ter recomendado entusiasticamente, fiquei um pouco ansioso para ver o filme. Tinha visto os dois filmes anteriores do diretor - MENINAS DE COLÉGIO (1998) e BEM VINDOS (2000), os dois muito bons. O primeiro deles, inlusive, é um dos favoritos de outro amigo meu: o Pablo, de Brasília.

Ao contrário de BEM VINDOS, que é um filme bem "pra cima", PARA SEMPRE LILYA é um dos filmes mais pessimistas que eu já vi. O que mais passava pela minha cabeça eram frases como "ninguém presta" ou "a vida é uma bosta mesmo". Mesmo com um final que tenta reverter essa idéia, o mal já estava feito. O clima geral do filme acaba sendo niilista, "mundo cão".

Na história, Lilya é uma garota russa de 16 anos que mora num lugar triste e desolado. Sua esperança de ir para os EUA com a mãe cai por terra quando a mãe diz que não vai levá-la, que vai deixá-la lá sozinha. Com o tempo, a solução que ela encontra para conseguir dinheiro é ser prostituta. O destino faz com que a esperança cruze novamente o caminho de Lilya, quando ela encontra um rapaz gentil e carinhoso que lhe promete um emprego na Suécia e uma vida que ela pediu a Deus. Mas as coisas no novo país não vão ser como ela gostaria que fosse.

Impossível não lembrar de outro filme sueco, o exploitation THRILLER - A CRUEL PICTURE, de Bo Arne Vibenius, que ficou famoso recentemente graças às referências em KILL BILL, de Tarantino. Vendo esses dois filmes e pensando no clima depressivo das obras de Bergman, a impressão que fica da Suécia é de que se trata de um dos piores lugares do mundo pra se viver. Não é esse o país que é campeão em número de suicídios? Ouvi falar que era. É difícil viver num mundo tão frio. Claro que isso é só uma impressão e que o país deve ser melhor do que eu imagino. A comparação com o filme de Vibenius não é gratuita. O longa de Moodysson mesmo não sendo tão violento, é talvez ainda mais cruel com sua protagonista, que não tem a menor chance de se defender.

A atriz que faz a Lilya, Oksana Akinshina, é bastante convincente nos diversos momentos em que interpreta a personagem. Seja em momentos de desespero ou de alegria, difícil não torcer pelo sucesso de Lilya. Talvez seja por isso mesmo que o filme é tão triste. Tocante também o personagem do garotinho amigo de Lilya. Ele é constantemente espancado em casa e as suas válvulas de escape são: conversar com Lylia, jogar basquete sozinho e cheirar cola.

Até se poderia comparar esse filme, por causa de todos esses sofrimentos que Lilya passa, com aqueles dois repugnantes filmes do também escandinavo Lars Von Trier - DANÇANDO NO ESCURO e DOGVILLE. O filme de Moodysson até poderia ser acusado também de manipulativo, mas PARA SEMPRE LILYA flui melhor, parece mais real, não passa aquela sensação de que o diretor está procurando mais e mais desgraças para a coitada da personagem. A falta de esperança dói mais no filme de Moodysson e o filme é desaconselhável para pessoas com depressão.

P.S.: No Projeto 365, tem texto meu desde quinta-feira sobre 44 MINUTES. Quem quiser conferir, está dado o recado.

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