domingo, março 13, 2005

O HOMEM ERRADO (The Wrong Man)



Um dos momentos mais engraçados do livro Hitchcock / Truffaut é quando o cineasta francês, ao falar dos problemas de O HOMEM ERRADO (1957), comenta que uma das falhas do filme de Hitchcock é ter estilizado a realidade. Truffaut falou: "Quem sabe não seria possível filmá-lo de modo mais neutro, com a câmera na altura de um homem, como um documentário, como uma reportagem jornalística?" Hitchcock responde: "Mas, me diga, você quer me fazer trabalhar para os cinemas de arte?". Anos depois, sendo entrevistado dessa vez por Peter Bogdanovich (no livro Afinal, Quem Faz os Filmes), ele parecia aceitar o ponto de vista de Truffaut.

Por mais que não seja um dos filmes mais queridos pelo próprio Alfred Hitchcock, O HOMEM ERRADO é, sem dúvida, um de seus grandes filmes, e um dos mais cultuados hoje em dia. A história é uma das mais envolventes e a interpretação dos atores é a que mais se aproxima da realidade, com um nível de verossimilhança que nenhum outro de seus filmes tinha. Até por que, ser verossímil não era o forte do grande Hitch.

O HOMEM ERRADO é um dos filmes mais estranhos à sua filmografia, por ser baseado em fatos reais, e pelo tom muito sério, talvez até mais do que A TORTURA DO SILÊNCIO (1952), mas que tem muitos dos temas recorrentes de sua obra. A transferência da culpa, um homem inocente acusado de um crime que não cometeu, o catolicismo, o medo da polícia, está tudo lá.

A mulher se sentia culpada pela falta de sorte do marido. Seu sentimento de culpa, junto com o excesso de pessimismo, leva-a à loucura. Ela pensava: se ela tivesse administrado melhor as finanças da casa, o marido não teria precisado ir pedir um empréstimo e não seria confundido com um criminoso. O filme não deixa explícito, mas ficava no ar uma certa dúvida da mulher com relação à inocência do marido, lembrando um pouco SUSPEITA (1941), ainda que de maneira bem mais sutil.

Não sei se o filme cresceu nessa revisão que eu fiz no DVD da Warner. Acho que se manteve quase tão bom quanto da primeira vez que o assisti, gravado de um Corujão da Globo. Digo quase, porque o impacto de ver a primeira vez foi maior. O DVD vem com o costumeiro documentário de 20 minutos de Laurent Bouzereau, o que por si só já vale uma olhada.

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