sábado, setembro 23, 2017

MÃE! (Mother!)

Darren Aronofsky chega ao seu sétimo longa-metragem aumentando ainda mais a polaridade sobre as discussões sobre gostar ou não gostar de sua obra - ou encará-la como algo precioso ou ruim e pretensioso. Isso vem desde seu longa de estreia, PI (1998), e continuou em suas obras seguintes. Mas uma coisa que não podemos negar é que se trata de um diretor corajoso e também bastante coerente em suas obsessões e interesses. MÃE! (2017) pode ser tanto parte da trilogia dos filmes religiosos do diretor, ao lado de FONTE DA VIDA (2006) e NOÉ (2014), quanto da trilogia dos filmes de horror, ao lado de RÉQUIEM PARA UM SONHO (2000) e CISNE NEGRO (2010).

É interessante analisar MÃE! tanto de um aspecto quanto de outro. Do ponto de vista do cinema de horror, é um dos mais curiosos no modo como ele inclui uma história que aparentemente pode seguir uma linha de O BEBÊ DE ROSEMARY, de Roman Polanski, mas que acaba se alinhando mais com um IMPÉRIO DOS SONHOS, de David Lynch. Ou seja, trata-se de um filme que nos coloca no lugar de uma personagem perturbada e que acaba por também nos contagiar com esse sentimento de deslocamento temporal e psicológico. O que está acontecendo? Essa é uma das perguntas que mais podem surgir durante as sessões de MÃE!

No aspecto religioso, é uma obra que pode ser vista como uma alegoria da Bíblia, tendo destacadas citações de personagens e livros bíblicos ao longo de sua trama, às vezes até de maneira pouco sutil, como em determinada fala de Jennifer Lawrence, ou em um acontecimento entre dois irmãos. Ao final, as metáforas parecem mais claras, o que acaba sendo uma espécie de convite para rever o filme e tentar esclarecer um pouco mais o que se acabou de ver. Afinal, trata-se de uma obra singular em muitos aspectos. Há, inclusive, quem vá sair da sessão com raiva ou algo parecido.

Na trama, Javier Bardem é um poeta que há tempos não escreve nenhuma obra nova e portanto está em crise de criatividade. Jennifer Lawrence é a esposa dedicada e bastante carente que faz o possível para agradar o marido e reconstruir lentamente a casa que outrora foi destruída. Os dois moram em uma residência longe da civilização. Por isso o espanto quando aparece um homem na porta (Ed Harris) certa noite. No dia seguinte, surge também uma mulher (Michelle Pfeiffer, ótima). Aos poucos, as pessoas que vão surgindo vão tornando a vida da protagonista um inferno.

O que talvez conte pontos contra o filme seja a dificuldade de comprar os sentimentos de dor, desorientação e perturbação da personagem de Lawrence, especialmente no terceiro ato, que requer mais força - pensar na Mia Farrow em O BEBÊ DE ROSEMARY é até covardia. De todo modo, não deixa de ser um tanto impactante o final, como se Aronofsky quisesse ir mais fundo no horror psicológico do que quando realizou CISNE NEGRO. Olha aí: CISNE NEGRO contava com o talento monstruoso de Natalie Portman, goste-se ou não do filme.

Quanto a Javier Bardem, trata-se talvez do ator mais versátil de sua geração, e aqui ele aparece um tanto quanto assustador em alguns momentos. O fato de ele representar quem representa no filme pode trazer muitas discussões sobre uma visão talvez crítica de Aronofsky sobre Deus, embora ele tenha abraçado com fé a história fantástica do dilúvio em NOÉ, tornando-a ainda mais fantástica do que a contada na Bíblia. E isso foi um acerto e tanto.

MÃE! também estaria aberto a outras interpretações que não a de simplesmente apresentar um Deus cheio de vaidade e sendo uma espécie de vampiro do amor alheio. Poderíamos dizer que se trata também de um filme sobre a natureza do homem, ou de artistas em especial, que costumam se aproveitar do amor de seus seguidores e adoradores para produzir sua arte. Até que ponto Aronofsky estaria se autocriticando e ao mesmo tempo exaltando o próprio ego? São só algumas das perguntas que podem ou não surgir. O que é muito positivo para um cinema que tem a intenção de ficar mais tempo na memória de seus espectadores.

quarta-feira, setembro 20, 2017

PARIS, TEXAS

Engraçado como o tempo nos prega peças. A minha memória de PARIS, TEXAS (1984), possivelmente a obra-prima máxima de Wim Wenders, já estava um bocado nebulosa. Não sei por que, por exemplo, havia limado o personagem do garotinho de minhas memórias. Talvez por que na época me interessasse pouco a questão de filhos ou questões paternas. O que mais pegou na cabeça daquele adolescente de cerca de 16 anos que já se julgava um cinéfilo (na verdade não lembro se já usava esse termo para me descrever) foi a dor do personagem de Harry Dean Stanton e o impacto do reencontro com a ex-mulher, depois de anos vagando pelo deserto, tido como morto ou desaparecido. Além da força das imagens do deserto e da trilha de Ry Cooder.

Não estava nos meus planos rever PARIS, TEXAS tão cedo. Na verdade, estava ensaiando uma peregrinação pelo cinema de Wim Wenders a partir de seus primeiros filmes. Até já tinha preparado uma cópia de VERÃO NA CIDADE (1970), seu primeiro longa, para ver. Mas eis que morre o querido Harry Dean Stanton e cresce uma vontade imensa de (re)ver o que talvez seja o filme mais importante que Wenders realizou nos Estados Unidos, país que sempre o fascinou e que o inspirou a fazer alguns ótimos trabalhos nos anos 1980.

A morte de Harry Dean Stanton, só não chegou a ser tão lamentada porque, afinal, ele já tinha 91 anos. Viveu plenamente, imagina-se. Mas não deixa de ficar um ar de melancolia no ar, justamente por sua participação em TWIN PEAKS - O RETORNO. São breves, mas importantes aparições, especialmente no episódio 6, em que ele chega a ver o espírito de uma criança subir ao céu depois de morrer em um acidente. Lynch o colocou como capaz de ver além do que o olho terreno é capaz.

Embora trate de questões aparentemente mundanas, PARIS, TEXAS é dessas obras que sublimam isso. Além do mais, quem disse que relações humanas são exclusividade de nosso plano de existência? As dores e as angústias seguem presentes enquanto não se cuida delas. Às vezes as pessoas preferem esquecê-las. É o caso de Travis Henderson (Dean Stanton), um homem que perambula sozinho pelo deserto americano, completamente sem rumo, tendo esquecido de si mesmo. Até o dia que é socorrido em uma cidadezinha muito pequena e seu paradeiro é informado ao irmão (Dean Stockwell).

Já ficamos sabendo que Travis tem um filho, uma criança que guarda pouca lembrança do pai, devido aos quatro anos de desaparecimento. E ficamos sabendo que a mãe também está desaparecida. A primeira imagem dela que vemos é através de uma filmagem em super-8 que o irmão de Travis sugere que seja ele veja. Cada imagem de Jane (Nastassja Kinski) é como uma facada no peito. Pelo menos é o que imaginamos. O cinema, diferente da literatura, nos convida a imaginar o que se passa na cabeça dos personagens a partir de suas atuações e também da montagem. E, nesse sentido, Wenders foi muito feliz. Como, aliás, consegue ser em tudo neste filme.

As primeiras imagens de Travis no deserto já denunciam que estamos vendo uma obra incomum. Inspirada por musas talvez. Mas também realizada com muita racionalidade na escolha dos planos, das cores, da significância das cores e do modo como isso nos afeta inconscientemente. Sabemos da força da cor vermelha, em muitas sequências, e também do verde, mas só um estudo mais detalhado para entender alguns dos segredos da linda paleta que o cineasta alemão escolheu para contar a sua história.

Uma história sobre perdas e reconquistas, PARIS, TEXAS é um dos mais belos, mas também mais amargos filmes realizados nas últimas décadas. E Travis é um dos grandes heróis solitários do cinema, talvez tão grande quanto o Ethan Edwards, de John Wayne, em RASTROS DE ÓDIO. Com a diferença aqui é que temos um homem que experimentou momentos felizes em sua relação com Jane, no passado. O fato de o filme nos esconder o passado de Travis é outro acerto gigantesco, pois a história contada pelo próprio personagem conversando com Jane na cabine do peep show é tão cheia de força que não necessita de música de fundo ou muitos adornos. Ao contrário: os silêncios entre cada fala têm um impacto devastador.

Mas depois Wenders sabe usar muito bem a música para fechar com chave de ouro esta obra-prima. A cena de Jane reencontrando o filho tem um misto de alegria e tristeza que não sabemos muito bem mensurar ou descrever. E o diretor faz isso muito bem com o uso das cores, do posicionamento dos personagens em cena, e do quanto aquelas pouco mais de duas horas de projeção já nos trouxeram de lágrimas ou de nós na garganta. O sentimento de agradecimento que sentimos por Wenders é talvez semelhante ao que Jane e o filho Hunter sentem por Travis no final.

segunda-feira, setembro 18, 2017

FEITO NA AMÉRICA (American Made)

Por mais que esteja em um momento de crise, a carreira de Tom Cruise, seu conjunto da obra, continua sendo um tópico de discussão entre os fãs de cinema e principalmente entre os admiradores do astro. O que chama a atenção neste FEITO NA AMÉRICA (2017), segunda e bem-sucedida parceria com o diretor Doug Liman, de NO LIMITE DO AMANHÃ (2014), é que há um pouco de espaço, mais uma vez, para que Cruise deixe um pouco de lado sua vaidade - que é perfeitamente visível em cada obra sua - e se mostre em situações de perda ou vexame (como esquecer a cena em que ele está sem um dos dentes?).

Aliás, FEITO NA AMÉRICA também mostra o quanto Cruise é um ótimo ator de comédias - se bem que em ENCONTRO EXPLOSIVO, com a Cameron Diaz, ele já havia feito isso muito bem, embora seja um trabalho mais esquecível. Vê-se o novo trabalho de Liman com um sorriso de orelha a orelha. A opção por um registro cômico e de comédia maluca para contar a história baseada em fatos da vida de um piloto de aviões que se torna uma espécie de agente duplo da CIA e do Cartel de Medellín se justifica pelo absurdo da situação, que é tão inacreditável que só podia acontecer na vida real mesmo.

Na trama de FEITO NA AMÉRICA, Cruise é Barry Seal, um piloto da TWA que aceita a proposta de um agente da CIA para fazer voos rasantes em países da América Latina e documentar ações de países considerados inimigos dos Estados Unidos. O que Seal não contava era que os chefões do Cartel de Medellín descobririam suas ações tão facilmente, a ponto de convidá-lo para juntar-se a eles nos negócios. A partir daquele momento, Seal passaria também a contrabandear cocaína para os Estados Unidos.

Essa brincadeira perigosa, que acabaria inevitavelmente por envolver sua família, só não chega a ser tão intensa do ponto de vista dramático por causa do tom leve que Liman e Cruise, o verdadeiro dono do filme, preferem impor à trama, mesmo em situações trágicas, envolvendo carros explodindo e o perigo de perder a vida a qualquer momento pelas mãos dos inimigos.

Quanto à escolha do elenco de apoio, é curiosa a opção de Cruise por nomes pouco famosos. Sua preferência por diminuir o orçamento de seus filmes nos últimos anos e talvez o brilho extra que outro ator ou atriz possa roubar de si se destaca pela presença em cena de apenas um ator de primeiro time, o irlandês Domhnall Gleeson. A atriz que faz sua esposa, Sarah Wright, é pouco conhecida de quem não acompanha suas séries de televisão. Outros dois ótimos nomes conhecidos da televisão aparecem em papéis bem pequenos: a adorável Lola Kirke, de MOZART IN THE JUNGLE, e o ótimo Jesse Plemons, da segunda temporada de FARGO. Seus papéis são minúsculos, um verdadeiro desperdício de talentos.

De todo modo, o que importa mesmo no filme é a ousadia de colocar Cruise fugindo com cocaína por todo o corpo em uma bicicleta para crianças, ou quase morrendo com um trote de Pablo Escobar e cia., ou tentando fazer quase o mesmo que Escobar fazia na época em que não tinha mais onde guardar tanto dinheiro: enterrando, escondendo etc. Há quem vá achar a narração em voice-over do Seal do futuro um pouco didática demais, mas acaba sendo mais um atrativo e mais um elemento de diversão deste belo filme, que se mostra muito bom de ver em salas IMAX, com sua alternância do granulado de algumas cenas mais próximas (especialmente close-ups) e de intensa nitidez em planos gerais.

quinta-feira, setembro 14, 2017

OITO FILMES DE HORROR

Uma pena a falta de tempo para escrever sobre os filmes. Por isso, aqui estou eu tentando dar um gás em momentos de pouca inspiração. Resolvi pegar todos os filmes de horror (ou afins) vistos no ano e que ainda não tinham sido comentados aqui no blog. Então, é jogo rápido. Matando oito coelhos com uma só caixa d'água.

O CONVITE (The Invitation)

Diretora de GAROTA INFERNAL (2009), Karyn Kusama tem no currículo um monte de coisas para a televisão. Este O CONVITE (2015) talvez seja o seu trabalho mais intenso e quem sabe mais autoral. É mais um caso de ótimo filme que foi parar direto no Netflix, sem chance de ter uma carreira na telona. Mas é bom a gente se acostumar com isso e relaxar. Tentar apreciar a experiência que é o filme, mesmo que pensando nele na tela grande, por causa das várias tomadas com poucos close-ups. O ideal é ver sem saber nada a respeito, mas para quem quer saber algo, trata-se de uma história sobre um homem que visita a casa de sua ex-esposa e dá de cara com situações sinistras. Gosto muito da tensão crescente.

TODAS AS CORES DA NOITE

Não vou mentir e dizer que embarquei na viagem toda desse filme. Há algo em TODAS AS CORES DA NOITE (2015) que não parece funcionar. Mas a cena final é tão maravilhosa (com a Sabrina Greve em estado de graça) que eu comecei a achar que era eu que não estava com a cabeça boa para o filme no dia em que o vi. Estava pensando em outras coisas boa parte do tempo. Portanto, seria o caso de uma segunda chance. A propósito, seria a Sabrina Greve a maior estrela dos filmes de horror brasileiros ever?

O RASTRO

É mais curioso do que exatamente bom esta tentativa de fazer um filme de horror no Brasil bem parecido com o que se faz lá fora. O diretor de O RASTRO (2017), J.C. Foyer, deu conta de criar alguns momentos de dar arrepios, mas falha demais na criação de uma atmosfera de suspense e em nos deixar interessados em seus personagens. Chega uma hora que a gente torce para o filme acabar logo mesmo. Uma pena. A trama se passa em um hospital que está passando por um processo de tombamento.

KRISHA

Um filme que passa um mal estar tremendo, já que sentimos um pouco do ponto de vista de alguém rejeitado e também da tensão existente em um ambiente familiar, algo que sempre me deixa muito perturbado. Este é KRISHA (2015), filme de estreia de Trey Edward Shults, do marco do pós-horror AO CAIR DA NOITE (2017). Também se nota algo que é característico dos primeiros filmes em KRISHA que é o diretor quer mostrar serviço e assim há muitos jogos de câmeras curiosos, diferentes, ângulos desconfortáveis etc. Vale muito ver, principalmente pela excelente caracterização da protagonista, vivida por Krisha Fairchild. Sim, quase todos os personagens interpretam a si mesmos, ou pelo menos dão o mesmo nome aos personagens.

7 DESEJOS (Wish Upon)

Eu até tinha achado o ANABELLE (2014) um filme bem decente, mas é impressionante como esse 7 DESEJOS (2017), do mesmo diretor John R. Leonetti, é idiota. Dá pra se divertir e tal, mas a protagonista é uma tapada e a trama, além de imitar um bocado a franquia PREMONIÇÃO, é cheia de furos horríveis. Mas se isso fosse o único problema até que estava bom. No mais, acabei vendo a Sherilyn Fenn no cinema antes de ver em TWIN PEAKS - O RETORNO. E que papel horrível que deram a ela, meu Deus. Povo não respeita quem merece o respeito, não.

THE DEVIL'S CANDY

Para o que parece ser só mais um filme sobre casa assombrada com demônio envolvido, e ainda por cima envolvendo rock pesado, THE DEVIL'S CANDY (2015, foto) vai num crescendo de perturbação que o torna um belo exemplar contemporâneo. Comecei a ver a primeira metade do filme em um dia e não estava curtindo muito, mas depois, no dia seguinte, vi que é uma obra respeitável. A violência, a tensão, a problematização do que parecia simplista e bobo (o diabo no heavy metal), tudo melhora.. E arrepiei no final quando toca uma canção foda, que eu não vou dizer aqui qual é.

ENTES QUERIDOS (The Loved Ones)

Embora seja inferior ao THE DEVIL'S CANDY, do mesmo Sean Byrne, e partir mais para o torturne porn, é bom voltar ao universo de jovens fãs de rock pesado, que parece ser o mundo do diretor. Há alguns cartas na manga, mas na verdade são poucas. Ainda assim ENTES QUERIDOS (2009) é filme pra assistir com os olhos grudados e o coração na mão. Na trama, uma garota que costuma ser rejeitada na escola captura um rapaz por quem tem interesse para fazer com ele um baile de formatura todo especial. Tenso e sangrento.

DEATH NOTE

A gente até quer dar uma chance a esta adaptação do excelente mangá Death Note, mas não tem jeito. A coisa piora muito quando entra em cena o L, que consegue ser mais patético que o Light. Ambos não deveriam ser. De todo modo, o que não funciona no filme DEATH NOTE (2017) nem é a falta de "fidelidade" à obra. É que é tudo feito às pressas, toscamente mesmo. Não dá pra sentir o mínimo suspense. Quem acaba se destacando é a namorada de Light, Margaret Qualley, que tem o seu encanto e ganha o filme em determinado momento. Mas é muito pouco. E pensar que o diretor Adam Wingard vinha de um filme bacana (VOCÊ É O PRÓXIMO, 2011)...

quarta-feira, setembro 13, 2017

POLÍCIA FEDERAL - A LEI É PARA TODOS

Vivemos em um momento particularmente delicado em nosso país. Desde 2013 que a sociedade brasileira está dividida, embora as manifestações daquele ano tenham sido bem distintas das que culminaram com o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, no ano passado. São de grupos distintos, aliás. Hoje, nem se trata mais de dificuldade de comunicação entre as partes (direita e esquerda, coxinhas e petralhas), mas de uma separação tão irracional quanto torcer por um time de futebol. E esse momento o próprio filme POLÍCIA FEDERAL - A LEI É PARA TODOS (2017) ajuda a captar: na cena em Lula está no Aeroporto de Congonhas, depois de ter sido levado coercitivamente para depor .

Pelo que é mostrado no filme, havia dois times muito bem delineados: os que achavam que aquilo era um absurdo e estavam ali para dar uma força para o ex-Presidente, vestidos de vermelho e com o apoio da CUT, e aqueles que tinham escrito "Somos todos Moro" em suas bandeiras, e se vestiam de verde e amarelo, todos exultantes por aquele momento que, embora não representasse a prisão de Lula, representou algo próximo disso para eles, que conseguiram com paneladas expulsar uma presidente eleita. Logo, foi um dia de festa para muitos brasileiros.

POLÍCIA FEDERAL - A LEI É PARA TODOS é desses filmes que merecem ser vistos nem que seja por curiosidade mórbida, seja por quem acompanha o cinema brasileiro e quer pensar o filme dentro do cenário do gênero policial brasileiro contemporâneo, seja por quem está interessado em ver como foi o recorte e de que maneira o diretor Marcelo Antunez e seus roteiristas resolveram contar a história da ação da Lava-Jato desde o primeiro momento até o ano passado.

E por mais que a primeira metade do filme funcione até bem como thriller policial, apesar de alguns diálogos bem ruins, o aspecto político é muito frágil e também muito covarde, no sentido de querer vilanizar pessoas que ainda estão sob investigação. Como é o caso do Presidente Lula, que é pintado como uma figura enjoada e afetada por Ary Fontoura. Sabemos que os próprios representantes da direita brasileira dão o braço a torcer quanto ao carisma do ex-presidente e o que é mostrado está bem longe de sua figura. Na sessão em que assisti, porém, que terminou com uma salva de palmas pelo público presente, muitos se divertiram com o modo como Lula foi representado, alguns até dizendo coisas como "olha a cara de pau dele" etc., como se estivessem vendo o próprio Presidente ou uma cena de novela.

Porém, a imagem do verdadeiro Lula nos créditos finais, dizendo que "a jararaca está viva", em entrevista coletiva após o tal depoimento, ajuda a esquecer um pouco a interpretação infeliz de Fontoura. Há outras situações forçadas do roteiro, como as de Bruce Gomlevsky, que vive um dos quatro principais agentes da Lava-Jato. Seu quadro branco contendo as palestras do Lula por diversos países e o dinheiro supostamente desviado mais parece o famoso powerpoint de Dallagnol.

Quanto ao juiz Sérgio Moro, vivido por Marcelo Serrado, o filme o deixa um pouco mais distanciado do caso, como que para torná-lo o mais isento e apartidário possível. Até mesmo cenas do juiz preparando pizza e conversando com o filho em sua casa o filme mostra. Mas os verdadeiros heróis são mesmo os quatro cavaleiros da operação, vividos ficcionalmente por Antonio Calloni, Flávia Alessandra, João Baldasserini e o já citado Gomlevsky, que é o sujeito que canta "Inútil", do Ultraje a Rigor, em um karaokê, mostrando mais uma vez que o filme adotou sim uma posição partidária.

Mesmo quando em determinado momento um deles se questiona sobre quem estaria sendo beneficiando por tantas prisões e acusações naquele momento de tensão política intensa, logo aparece alguém para deixá-lo tranquilo, dizendo que eles estão sim tornando o Brasil melhor. Por um momento, o filme quase conseguiu uma autorreflexão lúcida frente a tudo aquilo que foi mostrado.

Claro não se pode demonizar o filme por assumir uma posição no jogo, muito embora se possa responsabilizá-lo por alguns julgamentos que, mais à frente, poderão ser considerados injustos. Falar de um cenário político sem o distanciamento temporal adequado é sempre arriscado. Mas, como vivemos um momento em que a urgência e o pré-julgamento parecem imperar, a busca pela verdade aparecerá sempre borrada.

No meio deste caldo fervendo, há ainda outros projetos por vir, como a série da Lava-Jato criada pelo José Padilha para a Netflix e os quatro documentários sobre o impeachment de Dilma Rousseff, sendo que dois optaram por retratar a situação mais próximo do ponto de vista da ex-presidenta. Até lá, ficamos na torcida pelo Brasil.

terça-feira, setembro 12, 2017

COMO NOSSOS PAIS

Embora Laís Bodanzky tenha vários trabalhos em seu currículo, longas-metragens de ficção mesmo são apenas quatro. E COMO NOSSOS PAIS (2017) talvez seja o seu trabalho mais bem acabado e também mais ousado em ter que dar conta de temas tão em voga como a questão da busca de libertação da mulher da herança patriarcal, que, junto ao acúmulo de funções nas últimas décadas com o mercado de trabalho, fez com que ela acumulasse cada vez mais afazeres, seja fora de casa, seja cuidando de sua casa e dos filhos. Assim, o sonho de fazer uma peça de teatro, por exemplo, acaba ficando em segundo plano por causa de tanta coisa para resolver. Eis um dos motivos de os homens terem alcançado mais espaço nas artes.

A personagem Rosa, vivida por Maria Ribeiro, é uma personificação dessa mulher brasileira de classe média alta. Mãe de duas crianças pequenas, sendo que uma delas já quer ter um pouco mais de independência, mesmo sendo tão nova, e suspeitando que o marido Dado (Paulo Vilhena) a está traindo com outra, Rosa vive uma crise ainda mais intensa quando uma revelação lhe chega como uma bomba: a mãe (Clarisse Abujamra), durante almoço em família, resolve lhe contar que ela é fruto de uma aventura amorosa, que não é filha de seu pai (vivido com muita simpatia por Jorge Mautner).

Embora bastante importante, a cena da revelação é uma das mais frágeis do filme. Parece dita de maneira tão sem emoção que chega a desafinar com o tipo de dramaturgia que é usado ao longo do filme na maior parte de sua metragem. Se bem que isso é algo que é relevado, uma vez que nos envolvemos com a narrativa e com os personagens, todos interessantes e cativantes, com praticamente todo o ponto de vista sendo de Rosa.

É por meio dela que conhecemos os demais personagens e nos afeiçoamos a eles, gratuitamente, como o pai Homero (Mautner). E é por meio dela que também suspeitamos de Dado e que encaramos com interesse uma aventura que ela se permite ter com um amigo com quem nutre atração física. Mas o mais importante do que tudo isso talvez seja, mais uma vez, a relação com a mãe, que está com uma doença terminal e passa a se despedir da vida com a paz e a confiança de ter feito tudo o que gostaria de ter feito.

Nota-se, portanto, que COMO NOSSOS PAIS tenta abraçar muitas coisas ao mesmo tempo. Os problemas de Rosa deverão fazer parte de seu amadurecimento para torná-la mais forte. Se por um lado o encadeamento de problemas (e de aventuras e de situações amargas e divertidas) torna o filme muitíssimo agradável de ver, com sua montagem dinâmica, mostra-o como uma obra mais horizontal do que vertical, no sentido de que há pouca coisa a se buscar quando aprofundadas as cenas. Há espaço para muito debate extra-fílmico, a partir dos diversos temas expostos e muito bem-vindos, mas o fato de os personagens já problematizarem suas situações em seus próprios diálogos acaba por diminuir o aprofundamento.

Ainda assim, COMO NOSSOS PAIS é tão agradável e tão cheio de amor que é difícil não gostar, difícil não nutrir simpatia e até empatia pela personagem de Maria Ribeiro. Que, aliás, parece estar interpretando a si mesma, de tão natural que ficou seu papel. Como ela é o centro do filme, isso é um ponto bem positivo. E ponto positivo também para Luiz Bolognesi, esposo de Laís, que contribuiu, junto com a diretora da construção do roteiro. Lembrando que Bolognesi também foi responsável pelo roteiro do ótimo BINGO - O REI DAS MANHÃS, de Daniel Rezende.

segunda-feira, setembro 11, 2017

32 DE AGOSTO NA TERRA (Un 32 Août sur Terre)

Quem é Denis Villeneuve? Não pergunto esperando a resposta mais óbvia sobre o fato de ele ser um diretor canadense surgido nos anos 1990 e que foi ganhando cada vez mais o status de diretor singular. Refiro-me principalmente às suas principais marcas autorais. Acho que ao longo do texto poderemos encontrar essas marcas, mas no momento talvez o ideal seja fazer uma rápida comparação deste 32 DE AGOSTO NA TERRA (1998), de título tão estranho, com suas obras mais recentes e mais ligadas à ficção científica, como A CHEGADA (2016) e o ainda inédito BLADE RUNNER 2049 (2017).

No caso de 32 DE AGOSTO NA TERRA, embora não haja um cenário futurista, temos algo que se aproxima desse tipo de cinema que parece ser frio, mas que esconde camadas complexas de sentimentos profundos. Podemos ver isso no citado A CHEGADA também; assim como no filme-paulada POLYTECHNIQUE (2009), que tenta disfarçar, no modo como é narrado, a dor que aquele massacre gerou em grandes proporções. Já em 32 DE AGOSTO NA TERRA, quando possível, Villeneuve tenta nos apresentar a um quarto de motel que mais parece uma cápsula de uma espaçonave.

Esse tipo de invenção não deixa de ganhar força quando analisamos o filme tendo um conjunto da obra já grandiosa em perspectiva. Assim, por mais que se trate de um trabalho menor, sobre uma história de amor minimalista que teima em fugir dos sentimentalismos, como se o mundo tivesse que ser mesmo frio, o alcance de 32 DE AGOSTO NA TERRA é maior do que o esperado. Na trama, Simone, personagem de Pascale Bussières, resolve mudar de vida depois de um acidente quase fatal. Modelo internacional, larga tudo para fazer algo que considera mais importante naquele momento: ser mãe. Como ela não tem um namorado, quer que o pai biológico seja o seu melhor amigo, Philippe (Alexis Martin).

Até aí tudo bem. Já faz alguns anos que esse tipo de negociação é feita. A questão é que Philippe é apaixonado por Simone. Fazer sexo apenas para gerar um filho passa a ser uma tarefa extremamente complicada, levando em consideração que ele não conseguiria fingir não sentir nada por ela além de um amor de amigo. Assim, Philippe luta contra a frieza da situação. Ou daquele mundo. E, como quase sempre acontece com aqueles que seguem o caminho do coração, ele não se dá bem. É quase como uma Lei de Murphy aplicada aos sentimentais.

Em um de seus trabalhos seguintes, Villeneuve voltará ao pessimismo trágico e irônico da vida moderna, com o impactante INCÊNDIOS (2010), este, mais semelhante a uma tragédia grega. Mas antes de chegar lá, em seu primeiro longa-metragem, ele já trazia uma semente do que viria. A visão amarga da vida o perseguiria nas obras seguintes. Nós, como apreciadores de seu belo trabalho, agradecemos.