sexta-feira, fevereiro 24, 2017

MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR (Moonlight)























Chegando o Carnaval e chegando também a cerimônia de premiação do Oscar. Não estou dando conta de escrever para o blog por conta de compromissos profissionais, limitações físicas, problemas de saúde e outras tantas coisas não muito agradáveis que apareceram todas ao mesmo tempo, mas que não convém estar citando aqui como registro. Falo mais como maneira de iniciar a postagem como fazia antigamente, quando este espaço tinha mais cara de diário mesmo. Falemos, então, de mais um candidato a melhor filme da edição do Oscar deste ano.

MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR (2016), de Barry Jenkins, é um dos filmes mais aplaudidos pela crítica da atual temporada de premiações. É o que faz um contraste com LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES, filme branco, é verdade, embora preste tributo e respeito ao jazz, gênero criado pelos negros. Mas até que há elementos em comum entre os dois filmes, como a divisão por capítulos, por assim dizer.

MOONLIGHT se divide em três capítulos que mostram três diferentes fases da vida de Chiron, um garoto que cresceu na Miami negra dos anos 1970, convivendo com a mãe dependente de drogas e um traficante gentil. Já criança, por algum motivo, ele sofria bullying dos demais colegas da escola, que o chamavam de bicha, embora no filme não se verifique nenhum aspecto efeminado no personagem. Ele chega a perguntar ao casal de amigos adultos o que é ser gay.

O filme de Jenkins tem um interesse em contar a história apenas com a força das imagens e dos poucos diálogos, bem espaçados e sem muita pressa, semelhante ao personagem, menino/adolescente/homem de poucas palavras. Esse jeitão meio calado de Chiron talvez comprometa um pouco sua aproximação com boa parte do público, que precisa ter a sensibilidade para desvendar a tristeza em seu olhar e no que a câmera opta por mostrar.

Apesar da temática forte, que mistura bullying, ser negro e pobre nos Estados Unidos e homossexualidade, até que as cenas homoafetivas são bem poucas, tímidas, até, mas o suficiente para demonstrar a força do filme. MOONLIGHT consegue transmitir a magia do encontro de Chiron na praia com o amigo Kevin, com simplicidade e beleza. O reencontro, no terceiro ato, também é carregado de sutileza e poesia, tanto que pode até despertar algum sentimento de insatisfação por parte do espectador que espera algo parecido com uma catarse. A opção por um registro mais seco, sem uma trilha sonora "manipuladora" tem os seus prós e contras, mas depõe mais a favor do filme, até por lhe dar um caráter diferencial dentro do que se costuma ver nos cinemas. Se não fosse a indicação ao Oscar, por exemplo, jamais um filme como MOONLIGHT seria visto nos cinemas de shopping.

Trata-se também da chance de conhecer a obra de um jovem cineasta que possivelmente ainda tem muito a nos oferecer. MOONLIGHT é seu segundo longa-metragem. O primeiro, MEDICINE FOR MELANCHOLY (2008), está sendo descoberto por muitos graças à visibilidade que o diretor alcançou no mainstream. Por isso é importante que o Oscar, uma festa do cinema comercial e americano, principalmente, também seja uma ponte saudável para o reconhecimento de talentos pouco conhecidos e que merecem a nossa atenção.

MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR foi indicado a oito Oscar: filme, diretor, ator coadjuvante (Mahershala Ali), atriz coadjuvante (Naomi Harris), roteiro, direção de fotografia, montagem e trilha sonora original.

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

LION – UMA JORNADA PARA CASA (Lion)























O caso de LION – UMA JORNADA PARA CASA (2016), nesta edição do Oscar, é semelhante um pouco ao caso de TÃO FORTE E TÃO PERTO, de Stephen Daldry, cerca de cinco anos atrás. Ou seja, temos um filme muito querido por boa parte do público, mas que é visto com certo desdém por boa parte da crítica. Ambos os filmes são convites para lágrimas, o que não deixa de ser um bom sinal, quando a intenção da obra é mesmo emocionar a plateia.

Mas não só isso, LION é uma viagem por um lugar que é ao mesmo tempo tão diferente e tão parecido com o Brasil: o das regiões pobres da Índia, de onde vem o personagem Saroo, na vida adulta interpretado pelo sempre simpático Dev Patel e na infância vivido pelo menino Sunny Pawar. A criança é impressionantemente carismática. E capaz de passar em seus olhos o desespero que é estar sozinho aos cinco anos de idade em um lugar que desconhece, inclusive, com uma língua diferente da sua.

Saroo se perde do irmão mais velho em uma estação de trem em Calcutá. O irmão o leva junto, mas o menino, ainda muito pequeno, quer dormir e fica deitado no banco da estação. Sozinho e com medo, acaba entrando em um vagão de trem e indo parar em Bengala, um território dividido entre a Índia e Bangladesh. Depois de passar por muitas dificuldades, o pequeno vai parar em um orfanato, já que não encontra sua família. É adotado por uma família de australianos, vividos por Nicole Kidman e David Wenham. E é tratado com muito amor.

Toda essa parte da recepção do pequeno Saroo pela família rica, sua maneira esperta e inteligente de ser e depois o salto para a idade adulta mostra uma boa desenvoltura da narrativa. O responsável, o cineasta australiano Garth Davis, tinha como melhor coisa em seu currículo a direção de uma série de prestígio (TOP OF THE LAKE, 2013), mas devido ao sucesso de LION já tem outra produção cinematográfica em andamento, um filme sobre a vida de Maria Madalena.

O filme cai um pouco, mas só um pouco, quando Saroo atinge a idade adulta. Faz falta uma abordagem um pouco mais aprofundada do caso do irmão adotado de Saroo. E talvez a sucessão de tentativas de encontrar a família original, depois de tantos anos distante, tenha sido mostrada de maneira muito rápida no filme. Ainda assim, há espaço para a emoção durante o processo e principalmente no final.

A história em si não tem nada de excepcional, já que o próprio filme diz que milhares de pessoas se perdem de suas famílias na Índia. O caso não é muito diferente do visto em algumas reportagens televisivas, por mais que saibamos que se trata de uma experiência ao mesmo tempo de muito sofrimento, mas também de muita sorte. A diferença é que aqui a história é transformada em um belo melodrama, que conta com astros queridos como Patel e Rooney Mara, que faz a namorada de Saroo na fase adulta.

LION – UMA JORNADA PARA CASA foi indicado a seis Oscar, nas categorias de filme, ator coadjuvante (Dev Patel), atriz coadjuvante (Nicole Kidman), roteiro adaptado, direção de fotografia e trilha sonora.

domingo, fevereiro 19, 2017

MANCHESTER À BEIRA-MAR (Manchester by the Sea)























Filmes sobre pessoas vazias e que vivem suas vidas como pedaços de madeira levados pela correnteza existem aos montes. E a grande maioria desses filmes apela para sentimentalismos. Embora isso não seja um problema pode tornar certos títulos um pouco ordinários e às vezes esquecíveis. MANCHESTER À BEIRA-MAR (2016), de Kenneth Lonergan, opta por um registro mais sutil e seco no desenvolvimento dos personagens, que nos são apresentados de forma lenta e gradual, muitas vezes através de flashbacks que revelam bastante de suas vidas e seus dramas.

O filme conta a história de Lee (Casey Affleck), um zelador e faz-tudo de condomínios que leva a vida de maneira como se quisesse ser um anônimo, ao mesmo tempo em que também não se esforça para que sua vida melhore, seja do ponto de vista afetivo ou financeiro. Lee se autossabota e se flagela, através de brigas em bares provocadas por ele mesmo.

Mas de onde vem a culpa do personagem? O que o leva a agir assim? São perguntas que podem ou não surgir a princípio, mas que vão ecoando mais forte quando ele se sente forçado a voltar para sua cidade natal, Manchester, pois seu irmão está prestes a morrer de um ataque cardíaco. Chegando lá, o irmão já está morto, e ele terá que cuidar dos ajustes do funeral, bem como dos espólios e do testamento, assim como do filho adolescente do irmão (Lucas Hedges). No testamento, ele é escolhido para ser seu tutor, coisa que ele não recebe muito bem.

Lee é um sujeito que ficou lendário em sua cidade por algo que aconteceu no passado. Quando descobrimos o motivo, vemos o quanto esse personagem carrega um peso terrível em seu espírito e passamos a nos solidarizar com ele, embora o fato de o filme possuir um registro mais próximo do de certos autores europeus do que de melodramas tradicionais possa mudar bastante o modo como cada espectador veja ou sinta a obra.

É importante lembrar que estamos diante do filme do mesmo diretor de CONTE COMIGO (2000) e de MARGARET (2011), uma obra-prima que teve uma trajetória de lançamento tão complicada que acabou ficando praticamente desconhecido da audiência. MANCHESTER À BEIRA-MAR tem um pouco das características dos seus dois filmes anteriores. Herda o interesse pelas questões familiares tratadas de maneira delicada como no primeiro filme, ao mesmo tempo em que tem um ar de tragédia e história sobre culpa, contada de maneira muito peculiar como no segundo. Há, por exemplo, o uso de uma trilha sonora que contrasta com o silêncio mais presente, muitas vezes de maneira desconcertante, como quando ouvimos o "Adágio em sol menor para órgão e cordas", de Tomaso Albinoni.

O filme também tem o mérito de não mostrar nenhum dos personagens como heróis ou vilões. São os próprios personagens que escolhem, cada um à sua maneira, o que devem fazer para remediar ou esquecer aquilo que fizeram no passado, como o próprio protagonista, ou a personagem da ex-esposa, vivida por Michelle Williams, ou a cunhada, vivida por Gretchen Mol, ou mesmo o garoto, que tem um comportamento que pouco se aplica a alguém que acabou de perder o pai, mas que também não deve ser julgado pela audiência por isso. Enfim, são personagens vistos como seres humanos complexos.

É o tipo de filme rico o suficiente para pedir uma revisão para breve, para que suas qualidades e seus detalhes sejam melhor admirados e ressaltados, dessa vez mais distantes da expectativa que se tem de ver uma obra-prima logo de cara, graças à excelente recepção que tem recebido entre os críticos mais exigentes. Isso às vezes prejudica um pouco o modo como vemos os filmes.

MANCHESTER À BEIRA-MAR recebeu seis indicações ao Oscar, nas categorias de filme, diretor, ator (Casey Affleck), ator coadjuvante (Lucas Hedges), atriz coadjuvante (Michelle Williams) e roteiro original.

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

JOHN WICK – UM NOVO DIA PARA MATAR (John Wick – Chapter 2)























Sente-se uma enorme diferença ao comparar JOHN WICK – UM NOVO DIA PARA MATAR (2017) com os filmes de ação genéricos produzidos nos Estados Unidos atualmente. A segunda parte da história do assassino de aluguel vivido por Keanu Reeves é vibrante, tanto na violência quanto nas brilhantes coreografias das cenas de ação, que unem cenas com carros, armas de fogo, facas e lutas corpo a corpo.

Acompanhamos mais uma vez a história de Wick, um homem amargo que quer se aposentar e enfrentar de maneira mais calma os próprios demônios interiores, mas que tem sua paz perturbada com a visita de um membro da Camorra, uma das maiores organizações criminosas da Itália e do mundo. Santino D’Antonio, vivido por Riccardo Scarmacio, deseja contratar os serviços de Wick para que ele execute sua irmã, de modo que possa, assim, assumir seu lugar na liderança da organização. A contratação de um homem extremamente competente e quase invencível como Wick seria um passo e tanto para a realização de seus planos. Mas inicialmente Wick diz "não" e isso custa caro para ambos.

Fazer com que acreditemos em John Wick como uma espécie de lenda é um trabalho que é feito já nos primeiros minutos do filme. Quem não viu o primeiro filme com o personagem, DE VOLTA AO JOGO (2014), não vai sentir muita falta, pois esta sequência trata de apresentar, através do excelente prólogo, do que ele é capaz. Assistimos, de boca aberta e com um entusiasmo raro, o impacto de carros batendo violentamente uns nos outros, bem como lutas físicas e com armas de fogo contra vários outros homens.

O diretor, Chad Stahelski, foi buscar a inspiração em produções de ação orientais e em animes. Stahelski tem um extenso currículo como dublê e coreógrafo de cenas de luta em alguns grandes filmes. A sorte é que ele se revelou também um excelente cineasta. Seu filme tem uma elegância admirável, da primeira à última cena. Não se trata apenas de reproduzir pessoas bem vestidas e carros bonitos, mas de filmar de maneira elegante também, embora a elegância tenha tudo a ver com os ternos estilosos usados por Wick e seus inimigos, bem como com a própria Itália, berço de estilistas famosos. A beleza da fotografia e da direção de arte também é destaque.

A violência e a preferência por uma trilha sonora que foge das tradicionais orquestrações que dão sono em geral contribuem para que o filme seja sempre atraente, mesmo quando corre o risco de cansar na grande quantidade de cenas de ação, o que nos faz lembrar os melhores momentos de John Woo e seus filmes com muitas balas, sangue e lutas em quase toda a metragem. Aliás, tem um momento que até lembra MAD MAX - ESTRADA DA FÚRIA, que é a cena em que Wick luta em um show de rock, nas catacumbas. Loucura, aquilo!

Embora o foco seja a ação, o universo dessa vez ampliado dos assassinos contratados não deixa de ser fascinante, assim como o próprio sentimento de vazio da alma de John Wick. Além do mais, o respeito pelo que há de melhor no gênero aparece até mesmo no convite a alguém como Franco Nero, o eterno Django, que integra o elenco de apoio, e em uma homenagem à cena da sala de espelhos de OPERAÇÃO DRAGÃO, estrelado por Bruce Lee. Por esses e por outros motivos é que já temos o mais sério candidato a melhor filme de ação do ano e um dos melhores da década.

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

A QUALQUER CUSTO (Hell or High Water)























Um dos maiores méritos do bom cinema americano é saber ao mesmo tempo elevar e respeitar a sua cultura (e sua geografia), e também saber problematizá-la, mostrar os seus podres, seu lado mais questionável. A QUALQUER CUSTO (2016), de David Mackenzie, traz um pouco desses dois elementos, ao mostrar, dentro de uma bela paisagem de um lugar e de pessoas que remetem aos westerns, uma melancolia imensa.

Acompanhamos o drama de dois irmãos que tentam levantar um dinheiro, roubando determinada rede de bancos do estado. Filmes sobre roubos de bancos já tem uma longa história de sucesso no cinema americano, além de trazerem muita adrenalina para o espectador. Além do mais, muitas vezes nos colocamos no lugar dos bandidos, por mais desonroso que seja o ato.

Muitos bons cineastas, ao optarem por se aproximarem de figuras marginais, e de procurarem entender suas motivações, acabam nos arrastando junto. A QUALQUER CUSTO se divide um pouco, pois tenta nos fazer solidários tanto dos ladrões, vividos por Chris Pine e Ben Foster, quanto da dupla de velhos policiais, vividos por Jeff Bridges e Gil Birmingham, um ator que é, assim como seu personagem, ancestral dos índios comanches.

O fato de haver uma dupla formada por um caubói e um índio não deixa de ser curiosa, e o filme brinca muito com isso, ainda que de maneira amarga, ao final. Várias vezes somos lembrados ao longo da narrativa que aquele território ali foi de propriedade de um povo que perdeu tudo para os brancos. A presença do policial índio íntegro reforça o aspecto de que estamos vendo uma espécie de western, ainda que a quatro rodas.

Embora Jeff Bridges roube a cena como o velho policial texano, o foco da ação acaba recaindo para a dupla de irmãos assaltantes, que tomam o cuidado para roubarem pouco dos bancos, a fim de não pegarem cédulas que possam ser rastreadas. Mas, como em todo filme sério sobre roubo de banco, já sabemos que algo acaba em tragédia. Resta saber o quê, embora seja muito mais interessante ver o que o filme oferece nas entrelinhas de sua trama.

Como um filme sobre a depressão americana, em uma época recente em que o Texas passa por uma séria recessão, A QUALQUER PREÇO entra no clima e adota um tom de tristeza do início ao fim, por mais que não se deva esquecer da garçonete velhinha mais grossa do que o Seu Lunga, ou de cenas divertidas, como a do encontro com um comanche em um cassino, ou a de uma briga em um estacionamento. Para acentuar o clima, a trilha de Nick Cave e Warren Ellis funciona com perfeição.

A QUALQUER PREÇO recebeu quatro indicações ao Oscar: filme, ator coadjuvante (Jeff Bridges), roteiro (Taylor Sheridan) e edição.

domingo, fevereiro 12, 2017

CINQUENTA TONS MAIS ESCUROS (Fifty Shades Darker)























Não dá mesmo para esperar algo de alto nível de uma obra advinda de uma produção literária pobre. Tudo bem que Hitchcock costumava dizer que era mais fácil fazer ótimos filmes de literatura menor do que de grandes obras literárias, mas o que acontece é que o público de adaptações de best-sellers pop quer ver na tela algo bem parecido com o que leu, e isso prejudica um pouco o trabalho de invenção do diretor contratado para o serviço.

No caso de CINQUENTA TONS MAIS ESCUROS (2017), o convidado da vez foi James Foley, um diretor irregular, mas que possui em seu currículo coisas muito boas, como JOVENS SEM RUMO (1984), CAMINHOS VIOLENTOS (1986) e O SUCESSO A QUALQUER PREÇO (1992). Sem falar nos videoclipes marcantes que ele fez para a Madonna, como "Papa don’t preach" e "Live to tell". Mas ao que parece sua fase boa ficou para trás, pois seus trabalhos seguintes enterram sua reputação. E não é com a sequência de CINQUENTA TONS DE CINZA (2015) que ele conseguiria se reerguer.

Uma das vantagens de uma franquia como essas adaptações dos romances de E.L. James é trazer de volta a moda dos filmes eróticos, que foram ficando de lado com o tempo. Mas CINQUENTA TONS MAIS ESCUROS nos deixa com saudades dos thrillers eróticos populares na década de 1990, surgidos depois do estouro de INSTINTO SELVAGEM, de Paul Verhoeven. A outra vantagem é a franquia atrair um público feminino entusiasmado, coisa que não se via com tanta força desde 9 ½ SEMANAS DE AMOR, de Adrian Lyne. Aliás, os dois filmes até têm um elemento forte em comum: Kim Basinger, que aqui meio que passa o bastão para Dakota Johnson.

Anastasia Steele, a personagem de Dakota, não tem muito tempo de se livrar de Christian Grey (Jamie Dornan), o bilionário sedutor e adepto de jogos de sadomasoquismo, como já havíamos visto no primeiro filme. Anastasia havia caído fora do barco por achar que ele se excedeu nos seus jogos e na violência proveniente deles. Porém, não demora muito para que ele a convide para um jantar e ela aceite fácil voltar para seus braços. Aliás, esse tipo de facilidade da relação dos dois é bem prejudicial para que se crie um mínimo de tensão sexual. Mas o roteiro, ao que parece, está pouco se lixando com a tensão dos corpos ou mesmo o suspense de alguns momentos, que acabam ficando bem ruins.

Não tanto como os diálogos, que são de deixar o espectador bem envergonhado, embora de vez em quando seja possível se esquecer disso e ficar interessado em algumas cenas de sexo ou algumas ideias, por mais que algumas delas já tenham sido vistas em outros filmes. A cena da calcinha no restaurante, por exemplo, é igualzinha à de INVASÃO DE PRIVACIDADE, mas perde e muito em voltagem sexual para o filme estrelado por Sharon Stone, que nem é tão bom assim. Será que é só porque o filme citado era com a Sharon Stone?

Talvez não, pois o que há de mais interessante em Dakota Johnson é conferir ao seu papel um certo ar de garota comum, diferente de Jamie Dornan, que já parece mesmo um modelo. Ele, aliás, foi mesmo modelo da Calvin Klein, da Dior e da Armani. Já a filha de Melanie Griffith e Don Johnson tem um rosto comum, ainda que um belo corpo, que é até pouco explorado. Sinal dos tempos, talvez, em que se comenta bastante sobre o quão negativo pode ser a exploração do corpo feminino. Assim, a nudez de Dakota é ainda mais discreta nesta sequência do que no primeiro filme.

Quem já leu o livro garante que o filme consegue melhorar bastante muita coisa do romance, que por sua vez é considerado o melhor dos três. Não deixa de ser um mérito, principalmente por trazer uma história de contos de fadas, sem medo de ser brega, de enfiar o pé na jaca. Mas se ao menos a história de amor dos dois não fosse tão superficial e as cenas de sexo não fossem tão parecidas com videoclipes até seria possível ter um pouquinho mais de amor por CINQUENTA TONS MAIS ESCUROS, que pelo título promete ser mais sombrio que o anterior e na verdade é o oposto, por mais que tente trazer, sem sucesso, os tais elementos de suspense para a trama.

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

CLARISSE OU ALGUMA COISA SOBRE NÓS DOIS























Terceiro longa-metragem de Petrus Cariry, CLARISSE OU ALGUMA COISA SOBRE NÓS DOIS (2015) finaliza a chamada "Trilogia da morte", iniciada com O GRÃO (2007) e MÃE E FILHA (2011). O rigor formal apresentado nos trabalhos anteriores, bem como o cuidado com a beleza das imagens, que desde o primeiro filme tem sido comparadas a pinturas clássicas, se manifesta ainda mais forte neste novo trabalho, que conta a história de uma jovem mulher que vai até a casa do pai doente passar uns dias.

Não é um filme fácil. É propositalmente lento e com um tipo de dramaturgia que se distancia do naturalismo, por mais que a estranheza nas interpretações não nos impeça de admirar a excelente performance de Sabrina Greve, premiada na edição do Cine Ceará do ano passado. A atriz já havia aparecido em outro filme ainda mais ligado ao gênero horror, O DUPLO, marcante curta-metragem de Juliana Rojas. CLARISSE... pode até frustrar um pouco quem espera um filme explicitamente de horror, assim como pode desagradar quem não aprecia o gênero. Por isso mesmo deve ser apreciado como ele é e não como deveria ter sido, conforme o gosto pessoal de cada espectador.

Há, portanto, uma dificuldade de alcançar um público mais amplo, mas, uma vez que o espectador resolva se abrir a esse tipo de cinema mais hermético e cheio de signos a decifrar, a experiência é bastante recompensadora. Até porque a beleza das imagens (a direção de fotografia também a cargo de Petrus) e dos movimentos de câmera são de encher os olhos. Inclusive, é possível perceber isso a partir do pouco que é mostrado no trailer.

Sabendo da dificuldade de penetração de um filme como esse em um mercado cada vez menos tolerante a experimentações e invenções, devemos agarrar esta oportunidade de ver uma obra que pede para ser vista na tela grande. Não apenas pelos planos gerais (alguns mostram os personagens bem à distância mesmo), mas também pela força das imagens mais próximas.

O clima onírico dá o tom e mesmo aquilo que não é um sonho da protagonista acaba misturando-se com os nossos próprios sonhos e pesadelos. O que dizer da cena em que Clarisse carrega consigo o pai moribundo nas costas? Esse tipo de sensação que essa cena em especial traz chega a remeter a uma cena que acontece em uma noite clara de A MORTA-VIVA, de Jacques Tourneur.

O tempo narrativo no filme é um caso especial. Lembra os anteriores, mas as elipses parecem maiores nos blocos de cenas relativamente longas. A enigmática história, que se passa bem longe de um lugar típico de filmes cearenses, também é contada com o auxílio de sons e ruídos, que são incorporados à obra de maneira orgânica. Aliás, o cuidado com o som é outro aspecto admirável de CLARISSE...

Quanto ao sangramento da protagonista, trata-se de outro elemento não só muito curioso e intrigante, mas parte fundamental da trama. Vemos que o sangramento se manifesta muitas vezes quando a personagem está vivenciando algo intenso. Isso inclui também o desejo sexual, que aparece em duas sequências marcantes. O sangue, que simboliza a vida no seu aspecto mais violento, mas também a feminilidade da protagonista. E é nesse contraste, entre o delicado e o violento, que se forma o estranho e enigmático CLARISSE...