quinta-feira, julho 27, 2017

DUNKIRK

Não deixa de ser um baita banho de água fria ver que o tão insensado DUNKIRK (2017), de Christopher Nolan, é mais uma de suas picaretagens. E a comparação absurda que foi feita recentemente no The Guardian de Nolan com Stanley Kubrick? Em GLÓRIA FEITA DE SANGUE, Kubrick leva o espectador para o meio de um fogo cruzado dentro de uma grande guerra, e sem precisar do recurso IMAX pra isso. Infelizmente é difícil imaginar DUNKIRK brilhando fora de uma sala com as dimensões de uma tela gigante.

Claro que as imagens são belíssimas, de encher os olhos, e que também é digno de louvor a intenção de fazer o seu filme quase que inteiramente em película 70 mm, como também o fez Quentin Tarantino quando rodou OS OITO ODIADOS. Mas se as qualidades de um filme se evidenciam e crescem quando vistos em IMAX, seus problemas também ficam ainda mais visíveis. No caso, o que vemos é um trabalho raso, sem emoção genuína, sem impacto, que privilegia as imagens e possui alguns diálogos e falas de gosto duvidoso, como na cena em que um garoto está prestes a morrer e diz que nunca foi bom na escola e morrer na guerra seria uma boa, seria uma honra para a família. Talvez ele não tenha dito exatamente isso, mas é essa a mensagem.

O que há de interessante para quem acompanha a obra de Nolan, não necessariamente gostando de tudo que ele faz, é perceber novamente a obsessão por um jogo temporal. Há três ações temporais que acontecem durante a narrativa: uma com um intervalo de uma semana, no Molhe, com um grupo de soldados britânicos esperando serem resgatados dos ataques; outra ação com um intervalo de um dia em um barco capitaneado pelo civil vivido por Mark Rylance, que tem a intenção de salvar o máximo possível de soldados britânicos naquele barco de passeio; e a terceira ação acontecendo em um intervalo de uma hora, quando vemos três pilotos britânicos tentando se defender e também atacando aviões alemães próximo ao local onde acontece a história.

Esse jogo temporal já foi explorado por Nolan em filmes tão distintos quanto AMNÉSIA (2000), A ORIGEM (2010) e INTERESTELAR (2014). Este terceiro talvez seja o exemplo mais bem acabado de todos os seus trabalhos como um todo. Esses e os demais são exemplos de filmes que trazem uma forte ambição artística, sendo que em boa parte das vezes nem sempre suas intenções são bem-sucedidas, embora possa sempre se encontrar também um conteúdo político curioso, inclusive nos filmes da trilogia Batman.

No caso de DUNKIRK, há quem veja no filme uma visão pró-Brexit, no sentido de que o que mais interessa para aqueles homens é salvar a pele dos britânicos. Que se danem os franceses. Há sim uma generosidade e um interesse em ajudar o próximo e nada mais explícito do que o barco comandado pelo personagem de Rylance, mas o próximo que interessa são os soldados ingleses que estão acuados e sendo chacinados pelos nazistas naquele lugar bonito, na fronteira da Bélgica com a França.

E falando em lugar bonito, as imagens do céu azul de um belo dia de sol também ajudam a tornar tudo muito agradável de ver. Pelo menos até o momento em que o azul e o branco do céu cansam, bem como as repetições das ações e das situações, seja no céu, no ar ou na terra. Pode-se sentir também mais um fascínio pela guerra do que um sentimento de horror, coisa que poderia se perceber em filmes como O RESGATE DO SOLDADO RYAN e o já citado GLÓRIA FEITA DE SANGUE, para citar esses que talvez sejam os filmes que mais levam o espectador para dentro da ação.

DUNKIRK não consegue isso. Talvez porque os personagens são pouco interessantes, rasos, ou o tom de heroísmo com aquela música do Hans Zimmer meio genérica seja um convite ao sono. Nada contra esse tipo de cinema que exalta o heroísmo e até mesmo o nacionalismo, ainda mais em se tratando de uma guerra contra os nazistas, mas importar-se com aqueles rapazes sem nome não faria mal algum.

terça-feira, julho 25, 2017

EU MATEI LÚCIO FLÁVIO

Quem achou LÚCIO FLÁVIO - O PASSAGEIRO DA AGONIA, de Hector Babenco, um filme sangrento, precisa pensar duas vezes ao ver esta espécie de espelho quebrado chamado EU MATEI LÚCIO FLÁVIO (1979), dirigido por Antônio Calmon e estrelado e produzido por um dos sujeitos mais importantes do cinema brasileiro, Jece Valadão, aqui brincando com sua persona de homem viril, conquistador, malandro e pronto pra briga.

Mariel Mariscott de Matos, o lendário personagem protagonizado por Valadão é um homem que acredita estar do lado da lei. Desde o início, ele aparece como salva-vidas em uma praia. O filme faz questão de mostrar não só seus feitos heroicos, como também de pintá-lo como alguém merecedor de todas as glórias, alguém que se olha no espelho e se acha o tal. Se não o filme em si, mas a narrativa.

Há uma cena em que vemos Mariel fazendo sexo com a mãe de um menino que ele salva (Maria Lúcia Dahl), ao som de "Divina comédia humana", de Belchior. A cena, por mais que pareça deslocada ou em tom de sonho, não é nada perto das tantas situações inacreditáveis que vemos ao longo da narrativa por vezes truncada de EU MATEI LÚCIO FLÁVIO.

Não demora para que Mariel fique famoso e seja convidado para integrar a polícia. E naquele momento de ditadura militar, o lema "bandido bom é bandido morto" era mesmo levado a sério. Tanto que não há problema nenhum quando o protagonista elimina qualquer criminoso, como na antológica cena da farmácia, que conta com uma cena em que uma mulher, uma jovem Maria Zilda, é estuprada com um revólver.

Esse cinema de direita estava na moda nos anos 1970. Clint Eastwood fazia sucesso como o detetive Dirty Harry em PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL e suas continuações e Charles Bronson personificava a figura do vigilante como ninguém em DESEJO DE MATAR e suas demais continuações, consideradas por alguns como espetáculo trash.

O que vemos em EU MATEI LÚCIO FLÁVIO não é muito diferente do que fizeram esses astros e/ou diretores americanos. Apenas há uma consciência mais explícita do tipo de dramaturgia menos realista, do senso de humor todo especial, da violência que explode por todos os lados e das condições bem menos privilegiadas de fazer cinema no Brasil, e de viver no Brasil também. Percebe-se a influência dos filmes e das séries americanas, mas àquela altura o cinema brasileiro podia fazer muito bem o seu próprio exploitation de crime.

Incomoda um bocado as cenas de Valadão com várias mulheres, de vez em quando. Elas parecem não ter outra função a não ser enfatizar a masculinidade de Mariel. Na trama, fica confuso saber quem é quem. A personagem feminina que interessa é a prostituta e viciada em drogas vivida por Monique Lafond. Aliás, algumas das melhores cenas do filme envolvem o encontro dos dois. Talvez por isso Calmon tenha optado por deixar as demais personagens femininas sempre à margem, quase insignificantes.

E até agora nem falamos de Lúcio Flávio, embora sua participação seja importante para dar uma conclusão à história. Diferente de MATEI JESSE JAMES, de Samuel Fuller, se é que é possível comparar os dois, o filme de Calmon não apresenta uma morte covarde. O que temos aqui é um jogo aberto, uma guerra entre dois adversários que estão, inclusive, na mesma prisão. E o impressionante é o quanto, a essa altura, o filme já tenha incomodado bastante no quesito violência. O que EU MATEI LÚCIO FLÁVIO faz com "Lady Laura", de Roberto Carlos, no modo como ele a contextualiza na história, é quase um pecado. Se bem que Júlio Bressane já havia feito algo até mais perturbador ao som de uma canção do Rei em MATOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA dez anos antes. Viva a liberdade!

segunda-feira, julho 24, 2017

O FILME DA MINHA VIDA

O terceiro trabalho na direção de Selton Mello talvez tenha como principal calcanhar de Aquiles a sua intenção de ser grandioso em lirismo, mesmo abordando a vida de uma pessoa comum. Assim como MULHER DO PAI, de Cristiane Oliveira, O FILME DA MINHA VIDA (2017) é sobre a dificuldade de crescer e lidar com a ausência de algo ou alguém e ambos os filmes se passam em pequenas cidades do interior do Rio Grande do Sul. Mas, diferente de Oliveira, que fez um filme deliberadamente pequeno, Selton quis algo mais ambicioso. E a produção é realmente admirável, com uma fotografia linda de Walter Carvalho, uma atenção especial com o desenho de som e algumas canções matadoras.

O FILME DA MINHA VIDA também tem o mérito de transbordar vontade de viver por todos os poros. Mesmo que viver seja algo muito doloroso, diante das ausências sentidas. Há a principal delas, que é a ausência do pai de Tony (Johnny Massaro, ótima revelação). O pai do rapaz, , vivido por Vincent Cassel, aparece principalmente nas memórias da infância do garoto, antes de desaparecer sem maiores explicações.

Mas há mais ausências também. A ausência dele para a sofrida mãe de Tony (Ondina Clais Castillo), a ausência de alguém na vida do melhor amigo de Tony, um sujeito que cria porcos chamado Paco (Selton Mello), a ausência de um amor na vida de Tony, que é sentida mais no desejo que ele nutre por duas lindas irmãs, Luna (Bruna Linzmeyer) e Petra (Bia Arantes). Há uma sequência em particular que mostra a confusão no desejo do rapaz, quando ele as imagina fazendo uma espécie de número musical.

Tony não sabe lidar ainda com esse desejo e talvez por isso, por ele não ser exatamente obcecado (e nem apaixonado) por Luna, essa questão mais romântica acaba um pouco diluída, ainda que o diretor saiba colocar canções e imagens plenas de lirismo para emoldurar esse sentimento de excitação (no sentido mais amplo da palavra) por parte do jovem protagonista.

O personagem de Selton Mello, Paco, é o que oferece mais riso para o espectador. Como não rir quando o garçom oferece vinho branco e ele diz que vinho branco só serve para lavar os pés? Ao mesmo tempo, há algo de amargo no jeito como Paco vê a si mesmo, como quando ele pergunta a uma prostituta se ele se parece com um porco. No fim, a gente entende um pouco mais o porquê disso, mas mesmo naquele momento, é compreensível esse tipo de pergunta, levando em consideração que ele está sozinho e sente desejos pela mãe de Tony.

Há, perto do final, um momento em que o filme ganha uma barriga, perde um pouco da magia de recordação juvenil que até então prevalecia, mas é possível que isso tenha sido proposital, já que é o momento em que a realidade entra com força na porta de Tony, quando ele descobre alguns segredos importantes sobre ele e as pessoas que lhe são caras.

Adaptado do romance Um Padre de Película, do escritor chileno Antonio Skármeta (o mesmo de O Carteiro e o Poeta), O FILME DA MINHA VIDA tem um quê de CINEMA PARADISO, até pela fotografia em tom onírico, e a história, embora se passe em 1963, parece se passar nos anos 1950, uma década que ainda tem algo de inocência em torno de sua aura. Essa confusão temporal ajuda a nos transportar para esse universo todo próprio do filme.

Há inúmeros detalhes que fazem com que este terceiro longa-metragem de Selton Mello seja tão ou mais importante que seus trabalhos anteriores - FELIZ NATAL (2008) e O PALHAÇO (2011). Além do que já foi citado, como não ficar impressionado com as marcas de expressão de Rolando Boldrin, vivendo aqui um maquinista? Ou as várias canções que emolduram as cenas, como "Coração de papel", por Sérgio Reis, "I put a spell on you", por Nina Simone, e principalmente "Hier encore", de Charles Aznavour? Essas canções mexem com as emoções do espectador de forma exponencial dentro da sala escura. Nem sempre Selton Mello consegue domar tantas emoções juntas, mas é melhor assim.

domingo, julho 23, 2017

EM RITMO DE FUGA (Baby Driver)

Talvez nem os fãs mais entusiastas de Edgar Wright prevessem a delícia que é EM RITMO DE FUGA (2017), este thriller de ação com muita música e muito amor, que aquece o coração e deixa o espectador com a adrenalina a mil, com suas sequências de perseguição e outras situações de perigo. A força de Wright na direção já se mostra no prólogo, que nos apresenta a um dos trabalhos do grupo de que faz parte o motorista de fuga Baby, vivido por Ansel Elgort.

Na sequência inicial, ao som de "Belbottoms", da Jon Spencer Blues Explosion, sem nenhum diálogo, o coração já bate mais forte, ao ritmo da canção devidamente escolhida por aquele sujeito com cara de bom rapaz. É cinema com C maiúsculo, com a habilidade que principalmente o gênero "ação" da melhor categoria é capaz de criar. Claro que há o débito com a música, que está sempre ali atuando como adjuvante na criação das cenas empolgantes, mas que mal há nisso, não é verdade?

Até porque o uso da música no filme é muito inteligente e nada óbvio. Mesmo quando ouvimos uma canção mais famosa, como "Easy", dos Commodores, ela é tão bem encaixada, dentro do estado de espírito do personagem, além de a canção por si só ser de uma beleza que enche os nossos corações, que a tal dívida que o filme tem com a música se torna peça essencial e não uma muleta. Aliás, mais perto do fim de EM RITMO DE FUGA, vamos ver o quanto esse prazer pela canção é também compartilhado por nós, espectadores.

E que beleza que é o diálogo (minimalista) de Baby com a garçonete encantadora vivida por Lily James, de nome Debora, hein? Eles conversam sobre ter uma canção com seus nomes. Há pelo menos duas com o nome dela, enquanto que, para ele, há infinitas possibilidades. E eis que estamos também entregues ao encanto da paixão que surge entre aquele belo e jovem casal nos momentos em que eles estão juntos. Nem em CINDERELA Lily James esteve tão encantadora.

E temos também o humor característico da obra de Edgar Wright. Ele comparece em diversos momentos, seja nos diálogos espertos dos diversos personagens, inclusive daqueles caras barra-pesada que ingressam na gangue dos assaltos (caso dos personagens de Jamie Foxx, de Jon Hamm e do chefão vivido por Kevin Spacey).

Porém, do mesmo modo com que Wright sabe nos deixar a maior parte do tempo com um sorriso de orelha a orelha e dar umas boas risadas de vez em quando, ele também sabe lidar com os momentos mais sombrios. Afinal, estamos diante de um filme de assalto com tensão, como FOGO CONTRA FOGO, de Michael Mann, ou MORTALMENTE PERIGOSA, de Joseph H. Lewis, e não um filme de assalto leve, tipo ONZE HOMENS E UM SEGREDO, de Steven Soderbergh. Por isso sabemos que o perigo está sempre por perto.

O fato de Baby ser um refém das chantagens do chefão Doc (Spacey) é um elemento que faz com que nos coloquemos em seu lugar. Ele está prestes a deixar aquele mundo do crime. E o seu sonho ganha forma na conversa com Debra, sobre querer sair daquele lugar e ganhar a estrada, ouvindo música. E para que melhor sonho do que encontrar a felicidade pegando a estrada com a pessoa amada? Mas sabemos que esse sonho não vai ser tão fácil de ser concretizado.

Tudo isso, incluindo as dificuldades dos nossos heróis e as várias cenas de perseguição, sendo uma delas a pé, fazem parte do prazer que sentimos em ver EM RITMO DE FUGA, um filme que traz uma injeção de ânimo tão grande em nosso espírito que, ao sair da sessão, dá vontade de dançar, ouvir música, correr (com o carro ou com as pernas mesmo), enfim, viver. E viver inclusive para poder ter o privilégio de rever EM RITMO DE FUGA. De preferência no cinema, novamente.

sexta-feira, julho 21, 2017

DE CANÇÃO EM CANÇÃO (Song to Song)

Talvez o problema de Terrence Malick foi ter acertado a mão em A ÁRVORE DA VIDA (2011), em que ele usou talvez pela primeira vez o uso da câmera-chicote, que trabalha a aproximação e a rejeição ao mesmo tempo. É um tipo de efeito muito interessante, mas imagina só ver uma obra inteira feita dessa maneira, e com cortes rápidos, que impedem que quase nunca possamos ver imagens estáticas, a não ser quando a câmera está dentro de um barco, por exemplo, como na cena com Cate Blanchett.

O que a gente pode perceber também em DE CANÇÃO EM CANÇÃO (2017) é o quanto Malick passou de cineasta existencialista e religioso para um homem interessado nas coisas, digamos, mais mundanas. Ele aborda o amor, algo transcendental em qualquer forma que ele seja apresentado, mas o diretor está muito interessado em filmar rostos bonitos. Se em A ÁRVORE DA VIDA e também em AMOR PLENO (2012) Jessica Chastain e Olga Kurylenko parecem figuras angelicais, esse sentimento é deixado de lado no novo filme.

Ou ao menos, é diminuído consideravelmente, já que a personagem de Rooney Mara parece estar vivendo uma crise de consciência tremenda, ao estar com dois homens ao mesmo tempo, traindo o namorado vivido por Ryan Gosling pela personificação do cafajeste conquistador vivido por Michael Fassbender. Os dois atores, é bom dizer, funcionam muito bem dentro desses papéis. Não é uma má escolha no casting. Mas o excesso de voice over e de tentativa de dar profundidade às suas angústias acaba por tirar-lhes a voz.

Por causa disso é que uma cena que deveria ser impactante, envolvendo Natalie Portman, acaba não tendo força. Seria por culpa da edição, que tirou muito de sua personagem no enredo? Quem sabe. Mas o fato é que assistir a DE CANÇÃO EM CANÇÃO é até um desafio. Não é todo mundo que entra na sala e fica até o final. Muitos espectadores vão embora, coisa que aconteceu com A ÁRVORE DA VIDA também. Assim, é preciso entrar na sala esperando ver um filme de Terrence Malick. O Malick dos anos 2010, mais disposto a contar uma história de maneira fragmentada e com esse estilo que ficou mais parecendo um cacoete.

Há também frustração na questão da música, que é anunciada no título. Algumas das canções são muito boas, mas quando elas começam a tocar e o filme fica parecendo um belo trailer (como são belos os trailers dos filmes do Malick, hein?), essas mesmas canções são interrompidas, causando mais irritação. Tudo em prol de manter o mesmo flutuar em vai-vens da câmera do mexicano Emmanuel Lubeski. Aliás, uma das melhores coisas do filme e o que mais segura o espectador é a beleza das imagens que Lubeski capta. Mais do que o interesse pelos músicos (Patti Smith, Iggy Pop, Red Hot Chilli Peppers).

E aí temos a beleza do elenco. Cate Blanchett aparece pouco, mas poucas vezes ela apareceu de maneira tão deslumbrante como em DE CANÇÃO EM CANÇÃO. É até perdoável que Malick tenha se deixado inebriar pela beleza de seu elenco. Fazer cinema é muitas vezes registrar a beleza dos corpos jovens da melhor maneira possível, a fim de eternizá-los. Em alguns momentos, Malick quase se deixa levar pelo lado mais sensual, com personagens, principalmente as femininas, tocando ou tendo tocado o seu sexo com volúpia. E, nisso, vale destacar também uma cena de amor entre duas mulheres, o que só aumenta o sentimento de fascínio do diretor pela beleza sensual, ainda que seja uma beleza sempre branca, emoldura por filtros e por uma arquitetura sempre de riqueza material e envolta pelas coisas que o dinheiro pode comprar.

quarta-feira, julho 19, 2017

MEMÓRIAS SECRETAS (Remember)

Outra perda noticiada e lamentada nesse último domingo (a morte foi no sábado) foi a do prolífico ator Martin Landau, que teve como um de seus últimos papéis marcantes o de MEMÓRIAS SECRETAS (2015), de Atom Egoyan. Vi-o em maio do ano passado e é curioso eu justamente estar falando dele com a memória fraca, dada a distância de tempo, e sendo um filme sobre um personagem com Alzheimer.

Com 177 títulos no currículo como ator, Martin Landau começou sua carreira na televisão na década de 1950 e já na mesma década teve a honra de estar em um filme de Alfred Hitchcock, INTRIGA INTERNACIONAL. Mas ele acabou se notabilizando pelos trabalhos na televisão e brilhou na série MISSÃO: IMPOSSÍVEL nos anos 1960. No cinema dos anos 1970-80 se dedicou a alguns filmes B de terror e ficção científica.

As coisas melhoraram para Landau quando surgiram papéis importantes, como os de TUCKER - UM HOMEM E SEU SONHO, de Francis Ford Coppola, e seu desempenho excepcional em CRIMES E PECADOS, de Woody Allen. Mas sua coroação veio com ED WOOD, de Tim Burton, que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante, interpretando de maneira comovente e engraçada um Bela Lugosi decadente.

Em MEMÓRIAS SECRETAS, Landau é um nonagenário sobrevivente de Auschwitz que prepara uma vingança contra o nazista responsável por matar sua família nos campos de concentração. O problema é que ele não tem como fazer isso estando em uma cadeira de rodas. A não ser que ele peça ajuda a seu melhor amigo, vivido por Christopher Plummer, vítima dos mesmos carrascos.

Acontece que o personagem de Plummer, de nome Zed, tem um outro problema sério: o mal de Alzheimer. Assim, sua tarefa para fugir da casa de repouso e procurar a casa do tal nazista para, enfim, executá-lo, não é nada fácil. E isso acaba se tornando algo divertido e ao mesmo tempo angustiante para o espectador. O veterano Plummer, quase um nonagenário também, está ótimo em seu personagem desmemoriado, mas com disposição para executar o ato.

Talvez o filme fosse mais memorável se estivesse nas mãos de outro cineasta, já que Atom Egoyan anda fazendo uns filmes bem mais ou menos já faz algum tempo. Se bem que o último trabalho dele que vi foi O PREÇO DA TRAIÇÃO (2009), mas a maior parte dos críticos não tem gostado muitos de seus filmes, não. Principalmente levando em consideração que ele começou muito bem nos anos 1990, com EXÓTICA (1994) e depois ganhando a Palma de Ouro em Cannes com O DOCE AMANHÃ (1997). Seria o caso de diretor que perdeu a mão ou de um picareta que enganou a todos? De todo modo, MEMÓRIAS SECRETAS não é um filme que se deve deixar de lado.

segunda-feira, julho 17, 2017

A NOITE DOS MORTOS-VIVOS (Night of the Living Dead)

E foi aqui que tudo começou. Toda essa explosão de zumbis em filmes, livros, séries, quadrinhos, games, peças e até em passeatas. Tudo começou com este filme dirigido por um jovem de 28 anos chamado George A. Romero. Diferente de seus zumbis, ele preferiu não seguir vivo após a luta contra o câncer de pulmão. Mas o impacto de A NOITE DOS MORTOS-VIVOS (1968) na história do cinema (não apenas de horror) vai ficar pra sempre. Ou pelo menos até o dia em que aparecer uma epidemia de zumbis e todos esses filmes forem, de alguma maneira, perdidos.

Romero não foi apenas o criador dos zumbis modernos que continuam sendo copiados e explorados até a exaustão. Alguns outros filmes de impacto também tiveram seu nome à frente, como foi o caso de suas parcerias com Stephen King, CREEPSHOW - SHOW DE HORRORES (1982) e A METADE NEGRA (1993), e com Dario Argento, para adaptar Edgar Allan Poe em DOIS OLHOS SATÂNICOS (1990). Ou de suas originais histórias de vampiro (MARTIN, 1978) e de animal assassino (INSTINTO FATAL, 1988). Sem falar nos outros cinco filmes de zumbis que também foram um reflexo no contexto social e político em que foram realizados.

A NOITE DOS MORTOS-VIVOS talvez não tenha sido o primeiro filme de horror a usar sua história como alegoria para fazer uma crítica social, mas certamente é o mais lembrado. Em 1968, os negros lutavam pela igualdade social em uma América cheia de preconceitos. Muitos morreram lutando, inclusive alguns líderes como Martin Luther King e Malcolm X, covardemente assassinados. E Romero ainda teve a coragem de colocar um protagonista negro, Ben (Duane Jones), como o homem mais sensato e centrado entre os sobreviventes da casa, enquanto os brancos ou pareciam catatônicos, caso de Barbra (Judith O'Dea), ou totalmente egoístas, caso do senhor careca que quer medir forças com Ben, vivido por Karl Hardman, também um dos produtores do filme.

Umas das coisas que mais impressiona em A NOITE DOS MORTOS-VIVOS é seu ritmo ágil que até hoje nos deixa com a adrenalina lá em cima. E isso começa já nos primeiros 10 minutos de duração, quando surge o primeiro zumbi no cemitério e ataca Barbra e seu irmão. A partir daí a brincadeira de pega-pega só para quando o filme termina, e tudo passa com uma rapidez e fluidez narrativa impressionante e em um registro cru da luta pela sobrevivência daquelas pessoas dentro daquela casa.

E tudo o que se aprendeu sobre os zumbis está aí, nesta espécie de manual. Até então os zumbis que eram vistos nos filmes tinham raízes no Haiti ou imediações, a partir de feitiços. Zumbis que comem carne humana e só morrem com um tiro ou pancada forte na cabeça nasceram aqui. Curiosamente, Romero vai tornando seus zumbis mais inteligentes ao longo de seus demais filmes. Já neste primeiro filme vemos alguns deles pegando pedaços de pau para quebrar a casa, coisa que não se vê em THE WALKING DEAD, por exemplo.

E assim Romero fez história matando três coelhos com uma só cajadada. Ao mesmo tempo em que criou os zumbis modernos (mesmo sem utilizar o nome zumbis em momento nenhum do filme), ele também popularizou o cinema de horror como crítica social. Mas tudo seria apenas uma nota nos livros se A NOITE DOS MORTOS-VIVOS não fosse também um baita filme cheio de suspense e horror que nem o tempo nem o baixo orçamento tratou de diminuir. Ao contrário: o primeiro longa de Romero só cresceu ao longo dos anos. Este gigante (até na estatura) vai fazer uma falta imensa, mas seu legado está aí, crescendo-se e multiplicando-se.