segunda-feira, janeiro 15, 2018

STROMBOLI

Ter visto EU SOU INGRID BERGMAN, documentário de Stig Björkman, ajuda bastante a nos levar aos sentimentos da personagem Karin, de STROMBOLI (1950), primeira parceria de Ingrid Bergman com o diretor italiano Roberto Rossellini. Foi nas produções deste filme que Ingrid teve um caso extraconjungal com Rossellini e ficou grávida. Isso significou para ela uma espécie de suicídio comercial de sua carreira em Hollywood, tendo ela se tornado persona non grata nos Estados Unidos.

Sua vida, certamente, passou por uma reviravolta tremenda. Imagina só: abandonar a família que tinha até então e passar a viver em um outro país e formar uma nova família com esse cara de filmes baratos mas cultuados. De certa forma, Karin, a mulher que cai na cilada de casar com um sujeito que mora em uma ilha que não tem nada, a não ser um vulcão ativo, lembra um bocado a própria atriz sueca. Embora a atriz estivesse ali porque queria e não numa situação de prisão. No entanto, tanto a atriz quanto a personagem têm que enfrentar o preconceito de uma sociedade.

Visto hoje, é possível que STROMBOLI seja visto com certa estranheza pelo público, pela mistura de um tipo de dramaturgia que lembra o que se fazia em Hollywood na época, misturado com o que havia de mais melodramático no cinema italiano e incluindo a utilização de não-atores também, característica do neorrealismo italiano. Mas tudo isso pode ser abraçado com muito carinho.

Até porque o filme é narrado de uma maneira tão intensa que é muito fácil nos colocarmos no lugar de Karin. Há, porém, uma cena que é vista com horror pela personagem, mas que pode ser encarada com maravilhamento pelo espectador: uma cena filmada em tom documental, até por ser de fato o registro de pescadores em um ritual de pesca de peixes enormes. Eles cantam enquanto levantam as redes, que trazem o que mais parecem tubarões para seus barcos. É tão admirável quanto a cena do estouro da boiada em RIO VERMELHO, de Howard Hawks.

E há, no final, aquilo que se tornaria muito comum de se ver na filmografia de Rossellini: sua busca pelo religioso, por Deus. Seu filme seguinte já seria FRANCISCO, ARAUTO DE DEUS (1950). Quanto ao personagem do marido, Antonio, vivido por Mario Vitale, trata-se de um homem simples, comum, que fica um bocado eclipsado pela complexidade e brilho de Karin, uma mulher que, já no próprio filme talvez tenha sido vista pelas alas mais tradicionais da sociedade como um exemplo de mulher imprudente. Hoje é muito mais fácil vê-la como alguém que precisava usar o que dispunha, ou seja, sua beleza e sua sedução, para tentar conseguir o que desejava. Mas o filme, o diretor ou o destino parecem querer pregar-lhe uma lição.

segunda-feira, janeiro 08, 2018

GLOBO DE OURO 2018


E toda a polêmica em torno do abuso sexual que chamou a atenção em 2017 deu o tom nesta edição do Globo de Ouro, que contou com a participação da imensa maioria das mulheres vestidas de preto, em protesto. Ficou até complicado para o host Seth Meyers fazer piada no monólogo de abertura, diante de tal situação, mas até que ele conseguiu fazer graça e foi bastante elegante, embora as farpas tenham ido mais para Kevin Spacey do que para Harvey Weinstein, já que o próprio nome do produtor resultou em vaia.

De todo modo, esta edição dos Golden Globes ficará lembrada durante um bom tempo. Principalmente pelo discurso poderoso de Oprah Winfrey (a grande homenageada da noite, com o prêmio Cecil B. De Mille). Ela deixou muita gente de queixo caído pela sensibilidade e por lembrar também da questão racial, que continua sendo um problema nos Estados Unidos. O fato de a atriz e apresentadora ser uma das pessoas mais queridas do país não diminui o preconceito racial.

Outro detalhe curioso também nesta edição é que as atrizes puxaram os prêmios principais. O prêmio de melhor filme dramático para TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME veio logo depois do prêmio de melhor atriz para Frances McDormand. O mesmo aconteceu com a jovem Saoirse Ronan e o filme LADY BIRD - É HORA DE VOAR, injustamente não recebendo uma indicação de melhor direção para Greta Gerwig.

O mesmo aconteceu com os prêmios para a televisão. As maravilhosas Rachel Brosnahan e Elisabeth Moss venceram os prêmios em suas categorias e alavancaram premiações para THE MARVELOUS MRS. MAISEL e THE HANDMAID'S TALE. O mesmo aconteceu com Nicole Kidman e BIG LITTLE LIES. Ou seja, as premiações giraram em torno delas.

E os filmes e séries em si trataram de temas muito apropriados para a situação. O filme dramático premiado fala de morte e estupro de uma jovem, seguido de uma tentativa de vingança de uma mãe. Outros títulos também lidam com a opressão sofrida pelas mulheres em um mundo ainda dominado pelo patriarcado. Mesmo em uma série tão leve quanto THE MARVELOUS MRS. MAISEL.

Assim, os prêmios masculinos acabaram sendo eclipsados nesta premiação, mesmo tendo um time de gigantes na categoria de atores para filme (drama) e a premiação de James Franco ter sido engraçada. O próprio Guillermo Del Toro, que recebeu prêmio de direção, teve a complicada tarefa de subir ao palco depois do discurso fantástico de Oprah. Mas foi muito bom. Mesmo sem mulheres na categoria de direção e sem uma apresentadora mulher no comando, a impressão que fica é que algo mudou ou está mudando em Hollywood. E que pode se expandir para os Estados Unidos e o mundo. Tomara.



Prêmios da noite

Cinema

Melhor Filme (Drama): TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME
Melhor Filme (Comédia/Musical): LADY BIRD - É HORA DE VOAR
Melhor Direção: Guillermo Del Toro (A FORMA DA ÁGUA)
Melhor Ator (Drama): Gary Oldman (O DESTINO DE UMA NAÇÃO)
Melhor Ator (Comédia/Musical): James Franco (O ARTISTA DO DESASTRE)
Melhor Atriz (Drama): Frances McDormand (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Melhor Atriz (Comédia/Musical): Saoirse Ronan (LADY BIRD - É HORA DE VOAR)
Melhor Ator Coadjuvante: Sam Rockwell (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Melhor Atriz Coadjuvante: Allison Janney (EU, TONYA)
Melhor Roteiro: Martin McDonaugh (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Melhor Trilha Sonora: A FORMA DA ÁGUA
Melhor Canção Original: "This is me" (O REI DO SHOW)
Melhor Animação: VIVA - A VIDA É UMA FESTA
Melhor Filme Estrangeiro: EM PEDAÇOS (Alemanha)

Televisão

Melhor Série (Drama): THE HANDMAID'S TALE
Melhor Série (Comédia/Musical): THE MARVELOUS MRS. MAISEL
Melhor Minissérie ou Telefilme: BIG LITTLE LIES
Melhor Ator de Série (Drama): Sterling K. Brown (THIS IS US)
Melhor Ator de Série (Comédia): Aziz Anzari (MASTER OF NONE)
Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme: Ewan McGregor (FARGO)
Melhor Atriz de Série (Drama): Elisabeth Moss (THE HANDMAID'S TALE)
Melhor Atriz de Série (Comédia): Rachel Brosnahan (THE MARVELOUS MRS. MAISEL)
Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme: Nicole Kidman (BIG LITTLE LIES)
Melhor Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Alexander Skarsgard (BIG LITTLE LIES)
Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Laura Dern (BIG LITTLE LIES)


quarta-feira, janeiro 03, 2018

MULHER MOLHADA AO VENTO (Kaze ni Nureta Onna)

Que bom seria se alguma produtora brasileira bancasse algo semelhante ao que a produtora japonesa Nikkatsu fez com este projeto, de trazer de volta o espírito das comédias eróticas japonesas que faziam muito sucesso nos anos 1970 e 80, a exemplo do que acontecia também no Brasil e na Itália.

Foram produzidos cinco filmes, sendo que os diretores, alguns deles famosos mundialmente, teriam que cumprir três regras. São elas: o filme deve ter menos de 80 minutos de duração; deve conter uma cena de nudez ou de sexo a cada dez minutos pelo menos; e deve ser filmado em menos de uma semana. MULHER MOLHADA AO VENTO (2016), de Akihiko Shiota, foi o primeiro dessa linha a sair do forno.

E que delícia que é este filme, hein. Não só porque as cenas de sexo são boas, a atriz é linda e carismática e o filme é muito divertido, sendo possível rir muitas vezes, mas por causa também de seus aspectos formais. A fotografia em cores é linda, a direção de arte é caprichada, mesmo com uma agenda de produção tão apertada, e, principalmente, é possível se sentir no lugar do protagonista.

Na trama, Kosuke (Tasuku Nagaoka), um dramaturgo que vive isolado no meio da selva, é constantemente perseguido por uma bela e sensual jovem chamada Shiori (Yuki Mamiya). A primeira aparição da moça é impagável. Ela entra com bicicleta e tudo dentro de uma lagoa e sai de lá tirando a camiseta e mostrando os seios ao assustado dramaturgo. Enquanto ela espreme a camiseta molhada para vestir novamente, ela diz que vai ficar com o rapaz.

Kosuke não diz nada e vai embora, Shiori tenta agarrá-lo, literalmente, pelo pescoço, mas ele a joga no chão, violentamente. Aos poucos, porém, ele vai se tornando cada vez mais excitado e interessado por aquela mulher meio louca, que ele acaba vendo que está trabalhando de garçonete em um café que ele costuma frequentar. Chega um ponto em que o jogo muda, e ele, sem aguentar mais de desejo, tenta agarrar a moça. Ela, porém, joga com ele e aparece fazendo sexo com outros homens, fazendo com que ele fique ainda mais louco de vontade.

Até certo momento, parece uma variação de ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO, de Luis Buñuel, mas as coisas mudam bastante de rumo a cada virada inesperada do roteiro e do modo como os personagens solucionam seus problemas, necessidades e desejos. Assim, é possível também rir do quanto a cada momento esses personagens vão tomando atitudes bem loucas. A cena de sexo dos dois personagens, enquanto uma mulher está ao telefone é genial, assim como a tentativa de um ménage à trois dentro do barraco de Kosuke. Começar o ano com este filme foi uma escolha bem acertada.

terça-feira, janeiro 02, 2018

BLACK MIRROR - QUARTA TEMPORADA (Black Mirror - Series 4)

É até meio covardia fazer uma única postagem para o que podemos encarar como sendo seis longas-metragens de curta duração. Ainda assim, tentemos falar alguma coisa sobre cada um dos assim chamados episódios da quarta temporada de BLACK MIRROR (2017), sem que pareça uma mera descrição da trama. Antes de mais nada, vale destacar que estamos diante da mais bem-sucedida das temporadas da série/antologia criada por Charlie Brooker, que também participou como roteirista de todos os episódios.

"USS Callister", dirigido por Toby Haynes, a princípio parece apenas uma sátira de Star Trek, exagerando no que pode ter ficado datado na série que nasceu nos anos 1960. Mas depois vemos que a história é outra: conhecemos um diretor de uma empresa de informática (Jesse Plemons) que não é muito popular em seu ambiente de trabalho. Em compensação, ele é o líder da nave no universo virtual que criou. É uma história sobre carência afetiva e maldade.

"Arkangel", dirigido por Jodie Foster, foca na vida preocupada de uma mãe, que uma vez perde sua filha em um passeio e resolve aceitar uma experiência de uma empresa que implanta um chip na filha e a mãe pode não apenas monitorá-la, mas também ver o que ela está vendo, entre outras coisas. É um conto moral sobre invasão de privacidade, mais um tema muito contemporâneo. Gosto muito de como o filme lida com o crescimento da garota e do momento de ruptura/discussão com a mãe.

"Crocodile", dirigido por John Hillcoat, junta duas histórias que se cruzam lá no final. A da mulher que comete um crime ao aceitar esconder o corpo de uma vítima de acidente na estrada; e a de uma moça que trabalha em seguros de vida e que tem à sua disposição aparelhos que conseguem capturar as memórias das pessoas. A história é fascinante e o modo como Hillcoat lida com o medo da mulher de ser descoberta e de cada vez mais aumentar os seus problemas e pecados é angustiante. É mais um thriller que conta com uma tecnologia fascinante a favor da trama.

"Hang the DJ" (foto), dirigido por Timothy Van Patten, é o episódio que mais agradará os espíritos românticos. É o episódio de BLACK MIRROR que conta uma história de amor, assim como na temporada passada foi "San Junipero". Podemos dizer que são histórias irmãs, sendo que "Hang the DJ" expressa de maneira mais enfática a ideia de se ter uma alma gêmea. Quem determina é um programa de relacionamentos que obriga as pessoas a ficarem com as pessoas na duração que o sistema achar mais conveniente, seja apenas 12 horas, seja um ano ou mais. E é assim que vamos nos apaixonando pelo casal vivido por Georgina Campbell e Joe Cole. Os dois se gostam desde o primeiro encontro, mas logo têm que se afastar e ficar com outras pessoas por períodos longos. Histórias de amor que encontram obstáculos não são novidade nenhuma. Ao contrário. Mas a inclusão de um evoluído sistema de matches dentro de uma espécie de universo distópico torna tudo bem atual.

"Metalhead", dirigido por David Slade, é o episódio que mais junta terror com ação e suspense da temporada. É o equivalente ao "Shut up and Dance", da temporada passada. Só que com muito mais estilo. A fotografia em preto, branco e prata é de uma beleza impressionante. Na trama, um pequeno grupo de pessoas em um carro futurista passeiam por um deserto a fim de obter uma caixa. Mas eles são atacados pelo que chamam de cachorro - na verdade, uma espécie de robô de quatro patas quase invencível que sai à cata de seres humanos. Esse monstrinho é fascinante em sua criação. Muito bom ver que o dinheiro que colocaram a mais na série está rendendo bons frutos. Slade consegue, aqui, superar todos os seus trabalhos no cinema.

"Black Museum", dirigido por Colm McCarthy, é o que pode pegar um público pouco acostumado com um horror com violência desprevenido. É talvez o mais pesado dos episódios de BLACK MIRROR. Charlie Brooker junta várias ideias muito inteligentes e não tem pena de gastá-las em um único episódio, que conta a história de uma jovem que visita um museu especializado em crimes. E, como não há ninguém no tal museu, ela é recepcionada pelo dono do lugar, que conta três histórias tão envolventes quanto horripilantes. A ideia dos cookies, que foi usada também nos episódios "USS Callister", em "Hang the DJ", e em "White Christmas" (2014), em maior ou menor grau de terror e angústia, é usada aqui novamente. Talvez o problema do episódio seja a duração e a sensação de que ele não é tão unitário e orgânico quanto os demais. Mas é difícil passar indiferente por ele.

No mais, podemos dizer que esta quarta temporada foi um grande sucesso criativo, por mais que não esteja agradando a todos.

domingo, dezembro 31, 2017

TOP 20 2017 E O BALANÇO DO ANO

1. APESAR DA NOITE, de Philippe Grandrieux
2. PERSONAL SHOPPER, de Olivier Assayas
3. A CRIADA, de Chan-wook Park
4. JOHN WICK - UM NOVO DIA PARA MATAR, de Chad Stahelski

5. SIERANEVADA, de Cristi Puiu
6. PATERSON, de Jim Jarmusch
7. EM RITMO DE FUGA, de Edgar Wright
8. COLO, de Teresa Villaverde

9. CORRA!, de Jordan Peele
10. LA LA LAND - CANTANDO ESTAÇÕES, de Damien Chazelle
11. MANCHESTER À BEIRA-MAR, de Kenneth Lonergan
12. A MORTE DE LUÍS XIV, de Albert Serra

13. FRANTZ, de François Ozon
14. JOVEM MULHER, de Léonor Serraille
15. TONI ERDMANN, de Maren Ade
16. COLUMBUS, de Kogonada

17. LADY MACBETH, de William Oldroyd
18. JACKIE, de Pablo Larraín
19. DETROIT EM REBELIÃO, de Kathryn Bigelow
20. SILÊNCIO, de Martin Scorsese

Menções honrosas

NA VERTICAL, de Alain Guiraudie
120 BATIMENTOS POR MINUTO, de Robin Campillo
BLADE RUNNER 2049, de Denis Villeneuve
BOM COMPORTAMENTO, de Bennie e Josh Safdie
FRAGMENTADO, de M. Night Shyamalan
LUCKY, de John Carroll Lynch
AS DUAS IRENES, de Fabio Meira
BEDUÍNO, de Júlio Bressane
BINGO, O REI DAS MANHÃS, de Daniel Rezende
EU NÃO SOU SEU NEGRO, de Raoul Peck

Fora de competição


TWIN PEAKS - O RETORNO, de David Lynch e Mark Frost



Mantendo ainda a minha tradição, os melhores do ano acima correspondem a filmes contemporâneos vistos exclusivamente nos cinemas no ano corrente. Por isso, não estranhem a presença do romeno SIERANEVADA, de Cristi Puiu, que é um desses filmes que parece que nada acontece, em uma reunião de família. Só houve duas exibições em Fortaleza. Uma no final de 2016 e outra na mostra Retrospectiva/Expectativa. 

Também não estranhem a ausência de TWIN PEAKS - O RETORNO, o grande evento audiovisual do ano, que muitos veículos de respeito estão colocando como melhor filme de 2017. Eu até já votei nele no prêmio do Cinema na Varanda como melhor filme do ano, mas isso porque as regras permitiam. E porque não houve nada mais impactante que o retorno do nosso querido Lynch depois de um longo hiato. Para nossa sorte, Lynch nunca esteve em melhor forma e tão inspirado.

Lynch está presente também no trabalho de alguns de seus seguidores. Muito provavelmente, o maior deles seja o ainda pouco conhecido Philippe Grandrieux, cujo APESAR DA NOITE possui inúmeros elementos claramente lynchianos. Até mesmo a dúvida se se trata de um filme de horror ou não está presente, embora seja ao mesmo tempo um filme que transborda amor e cheira a medo, muito medo.

Falando em medo, outro filme francês se destacou em nosso circuito. PERSONAL SHOPPER, de Olivier Assayas, é a segunda parceria do diretor com Kristen Stewart, e desta vez ele preferiu investir em menos texto e mais atmosfera. Muito amor para este filme. O horror também esteve presente em outras obras fantásticas, sendo o grande destaque, inclusive nas premiações, CORRA!, de Jordan Peele, que lida com a questão do racismo de maneira genial.

Dois dos melhores filmes de ação da década despontaram este ano também: JOHN WICK - UM NOVO DIA PARA MATAR, de Chad Stahelski, e EM RITMO DE FUGA, de Edgar Wright. São dois trabalhos bem distintos: um mais herdeiro do cinema de ação de Hong Kong; outro que brinca com o gênero musical, inserindo canções dentro das sequências de ação de forma linda.

Mas já que falei de musical, não há como esquecer de LA LA LAND - CANTANDO ESTAÇÕES, de Damien Chazelle, uma tocante homenagem ao gênero, tanto o produzido nos Estados Unidos até os anos 1950, quanto às belíssimas realizações francesas dos anos 1960. Detalhe: precisei ver uma segunda vez para perceber a real beleza do filme e das canções.

Neste ano de 2017, a tensão esteve no ar. E pudemos lamber os dedos com ela em obras tão distintas quanto A CRIADA, de Chan-wook Park, e DETROIT EM REBELIÃO, de Kathryn Bigelow. O primeiro contém uma trama cheia de intrigas e que ainda traz a melhor cena de sexo do ano do cinema mainstream; o segundo é um estudo sobre o mal e o racismo nos Estados Unidos dos anos 1960. Toda a enorme sequência de tensão dentro do hotel é de deixar os nervos de qualquer um em frangalhos.

Bigelow, aliás, não foi a única diretora mulher a se destacar neste ano. Podemos até dizer, sem fazer muita pesquisa, que 2017 foi o ano em que mais tivemos filmes dirigidos por mulheres abrilhantando nosso circuito. Alguns dos melhores exemplos são COLO, de Teresa Villaverde, TONI ERDMANN, de Mare Aden, e JOVEM MULHER, de Léonor Serraille. São três filmes com uma sensibilidade muito apurada no trato com questões familiares e de busca de independência.

Falando em mulheres, dois filmes apresentaram retratos femininos admiráveis e que fogem à regra do que geralmente é visto: LADY MACBETH, de William Oldroyd; e JACKIE, de Pablo Larraín. Um suspense e um retrato de uma mulher real em registro de tensão.

Quanto aos personagens masculinos, podemos destacar Adam Driver (o grande ator de sua geração) em PATERSON, de Jim Jarmursch, no papel de um poeta motorista de ônibus com uma rotina de vida bem regrada; e um envelhecido Jean-Pierre Léaud como um monarca em seus últimos dias em A MORTE DE LUÍS XIV, de Albert Serra.

As histórias de amor tortas e que doem um bocado no coração também estiveram presentes. Podemos citar como exemplos FRANTZ, de François Ozon, e COLUMBUS, de Kogonada. E houve espaço também para histórias de dilaçeramento da alma, como é o caso de MANCHESTER À BEIRA-MAR, de Kenneth Lonergan. Já a devoção à fé pôde ser vista no admirável SILÊNCIO, de Martin Scorsese.

Top 5 Piores do Ano 

Como eu evitei muitas tranqueiras, segue apenas alguns que eu dei um voto de confiança e que não me retribuíram com nada além de desgosto, aqui, sem os nomes dos culpados:

1. A GRANDE MURALHA
2. ASSASSIN'S CREED
3. KINGSMAN - O CÍRCULO DOURADO
4. A TORRE NEGRA
5. O RASTRO

As séries e minisséries

Vi bem menos séries e minisséries do que no ano passado. Parece que isso é uma tendência e não me importo muito com isso, na verdade. 2017 foi o ano que eu mais desisti de séries que eu acompanhava. Chega uma hora que não dá mais. Os destaques:

1. TWIN PEAKS - O RETORNO (afinal, é série ou é filme? :))
2. THE MARVELOUS MRS. MAISIE - PRIMEIRA TEMPORADA
3. TOP OF THE LAKE - CHINA GIRL
4. MINDHUNTER - PRIMEIRA TEMPORADA
5. GIRLS - SEXTA TEMPORADA
6. BETTER CALL SAUL - TERCEIRA TEMPORADA
7. MOZART IN THE JUNGLE - TERCEIRA TEMPORADA
8. HOMELAND - SEXTA TEMPORADA
9. MR. ROBOT - TERCEIRA TEMPORADA
10. GAME OF THRONES - SÉTIMA TEMPORADA

Top 5 Musas do Ano

A seção mais polêmica do balanço anual segue meio tímida, mas ainda com muita vontade de exaltar o encantamento dos rostos (e corpos) femininos.

1. Gal Gadot - MULHER MARAVILHA + LIGA DA JUSTIÇA
2. Marion Cotillard - ALIADOS + ROCK'N ROLL - POR TRÁS DA FAMA + UM INSTANTE DE AMOR
3. Roxane Mesquida - APESAR DA NOITE

4. Kim Min-hee - A CRIADA + NA PRAIA À NOITE SOZINHA
5. Stacy Martin - O FORMIDÁVEL

Clássicos Revisitados (ou vistos pela primeira vez) na telona 

, de Federico Fellini
A BELA DA TARDE, de Luis Buñuel
CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch
DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS, de Jacques Demy
EL TOPO, de Alejandro Jodorowsky
FITZCARRALDO, de Werner Herzog
HIROSHIMA MEU AMOR, de Alain Resnais
LAÇOS DE SANGUE, de Ida Lupino
NOSFERATU, O VAMPIRO DA NOITE, de Werner Herzog
O MUNDO É O CULPADO, de Ida Lupino
O MUNDO ODEIA-ME, de Ida Lupino
S. BERNARDO, de Leon Hirszman

Top 20 vistos (pela primeira vez) na telinha (em ordem alfabética) 

32 DE AGOSTO NA TERRA, de Denis Villeneuve
A GHOST STORY, de David Lowery
A UM PASSO DA LIBERDADE, de Jacques Becker
AS IRMÃS DE GION, de Kenji Mizoguchi
ARIELLA, de John Herbert
BEIJO NA BOCA, de Paulo Sérgio de Almeida
CERTAS MULHERES, de Kelly Reichardt
EU MATEI LÚCIO FLÁVIO, de Antônio Calmon
GERMAN CONCENTRATION CAMPS FACTUAL SURVEY/ MEMORY OF THE CAMPS, de Alfred Hitchcock e Sidney Bernstein
GRAVE, de Julia Docournau
HOMEM COMUM, de Carlos Nader
METROPOLITAN, de Whit Stillman
MUITO PRAZER, de David Neves
NÃO MATARÁS, de Ernst Lubitsch
O DESEJO, de Walter Hugo Khouri
OS DEMÔNIOS, de Ken Russell
QUEM AMA NÃO TEME, de Ida Lupino
THE DEVIL'S CANDY, de Sean Byrne
TODAS AS MULHERES DO MUNDO, de Domingos de Oliveira
TWIN PEAKS - THE MISSING PIECES, de David Lynch

Revisões na telinha 

A NOITE DOS MORTOS-VIVOS, de George A. Romero
BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDRÓIDES, de Ridley Scott
FILHOS E AMANTES, de Francisco Ramalho Jr.
IMPÉRIO DOS SONHOS, de David Lynch
O FANTASMA DO FUTURO, de Mamoru Oshii
O TURISTA ACIDENTAL, de Lawrence Kasdan
PARIS, TEXAS, de Wim Wenders
RELÍQUIA MACABRA / O FALCÃO MALTÊS, de John Huston
TRAINSPOTTING - SEM LIMITES, de Danny Boyle
TWIN PEAKS - OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER, de David Lynch

Feliz 2018! 

Antes de receber o ano que virá é sempre bom agradecer pelo ano que passou. Por mais que 2017 tenha sido difícil. Bem mais difícil do que foi o anterior e o anterior e o anterior etc.. Estar vivo para contar a história é sempre uma dádiva. Até porque dentro das dificuldades também temos histórias boas para contar. Há muito o que melhorar em minhas atitudes e na forma como eu me vejo e vejo o mundo, mas a gente está neste mundo para aprender, não é? Quero agradecer aos amigos presentes de alguma maneira, aos familiares que foram uma fortaleza em muitos momentos de fragilidade, a Deus que está sempre por perto. E ao motivo de eu escrever isso aqui, o cinema.

O cinema, em boa parte das vezes, foi o maior motivo de eu me sentir vivo e feliz. Com os filmes nos tornamos pessoas melhores, adentrando histórias múltiplas e personagens dos mais diversos, nos tornamos meio que filósofos da existência e da arte também. Peço desculpas aos amigos que precisaram de mim e eu não pude estar presente por egoísmo ou por cansaço ou por motivos de desenergização, que foi a tônica neste ano. Quem sabe no próximo ano tudo isso mude, de preferência para melhor, não é? O que não houve de viagens e de amores em 2017 pode ser compensado no ano que virá. E se não rolar nada disso, há sempre os filmes, os livros, os discos e os grandes amigos. Obrigado por tudo e até o próximo ano.

sábado, dezembro 30, 2017

MR. ROBOT - TEMPORADA 3 (Mr. Robot - Season 3)

A segunda temporada de MR. ROBOT foi tão confusa e cheia de perguntas que ficaram no ar (se é que dava pra fazer perguntas a certa altura) que o criador Sam Esmail e seus parceiros de crime só tinham mesmo que responder várias destas nesta terceira temporada (2017), que é bem mais acessível. Por mais que seja decepcionante se comparada à sensacional primeira temporada, esta terceira consegue diminuir um pouco da estranheza e dos planos muito distantes e focar na trama e em momentos de suspense.

Melhor exemplo não há do que no episódio 5 ("eps3.4_runtime-error.r00"), que tem um longo plano-sequência que nos deixa zonzos e maravilhados. No tal episódio, Elliot acorda desmemoriado, já que ele virou uma espécie de Dr. Jeckyl na comparação com O Médico e o Monstro. Agora, sua intenção é evitar que o estágio 2, que tudo indica que será a explosão do prédio da ECorp em Nova York, se concretize, segundo os supostos planos da Dark Army, que talvez tenham sido planejados pelo seu alter-ego do mal Mr. Robot. É um baita de um episódio, sem dúvida.

Depois desse, a temperatura esfria um pouco, mas novidades não faltam na temporada. Há um episódio dedicado exclusivamente a Tyrell. Finalmente ficamos sabendo todos os detalhes de seu desaparecimento. Assim, é um episódio que volta no tempo para os eventos que ficam num limbo entre a temporada 1 e a 2. Tyrell não é o mais simpático dos personagens, além de ser um assassino frio, mas neste episódio ele ganha um pouco mais de simpatia, até pelo sofrimento por que passa. Nisso vale destacar o excelente trabalho de Bobby Cannavale, no papel de um homem cruel que está pronto para limpar toda a sujeira que a Dark Army executa. Grande papel.

Já Grace Gummer, como a agente do FBI Dominique DiPierro, continua sendo uma ótima escolha e uma das melhores aquisições desde a temporada passada. Seus melhores momentos são nos episódios finais: o primeiro deles em uma cena íntima com Darlene (Carly Chaikin); e o segundo no episódio em que ela descobre o traidor no FBI, a pessoa que estava trabalhando com a Dark Army. O episódio é tenso e é um dos poucos momentos em que nos importamos com os personagens, coisa que estava sendo um problema até então, dado o distanciamento com a que a série parece tratar seus personagens e seu próprio enredo. Talvez por sua intenção em parecer ousado na forma.

Mas o que importa é que a série termina de maneira bem satisfatória e com um espaço para novos horizontes e possibilidades para os personagens principais, Elliot (Rami Malek), Angela (Portia Doubleday), Darlene e agora também uma amarga agente Dom. Christian Slater como o Mr. Robot continua apenas ok, mas como ele é um personagem necessário para a série, não dá para descartar de jeito nenhum. Coisa que pode muito bem ser feita com Tyrell. Os chineses da Dark Army também já encheram o saco e poderiam ser deixados de lado por novos antagonistas.

Aliás, ainda acho uma pena que a série tenha abdicado de seu lado transgressor e anticapitalista. Estava bom demais para ser verdade. Mas é o preço de uma revolução e da maturidade que ela traz quando muitas pessoas são prejudicadas com os atos.

sexta-feira, dezembro 29, 2017

RODA GIGANTE (Wonder Wheel)

A década de 2010 não começou muito promissora para Woody Allen. Seu filme daquele ano, VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS (2010), é uma de suas obras mais apagadas e esquecíveis. Mas eis que ao menos dois títulos costumam ser lembrados como dois dos melhores de sua fase recente, MEIA-NOITE EM PARIS (2011) e BLUE JASMINE (2013), embora seja digno de nota seu filme mais romântico em muitos anos, um dos poucos que seguem uma linha mais alto astral, fugindo do amargo da vida: MAGIA AO LUAR (2014).

Mas é com BLUE JASMINE que o novo filme, RODA GIGANTE (2017), dialoga melhor dentro do corpo de sua obra, tanto pelo teor amargo quanto pelo texto, que valoriza suas protagonistas. Trata-se de um filme que namora o teatro não apenas na dramaturgia, mas também nas próprias citações (Eugene O'Neill, Shakespeare, Tchekov, a tragédia grega etc.).

Porém, por mais que o texto esteja em um dos primeiros planos, há a fotografia deslumbrante de Vittorio Storaro, que explora lindamente a luz. A luz do parque de diversões que ilumina o quarto de Ginny (Kate Winslet), a luz do sol que traz um tom alaranjado para a Coney Island dos anos 1950, e até mesmo as luzes mais diáfanas, como as luzes da noite, como em uma cena em que Ginny está com o amante (Justin Timberlake) à luz das estrelas e da lua e em certo momento a luz diminui. São pequenos detalhes que valem ser percebidos em apreciações seguintes do filme.

Quanto à Kate Winslet, ela está fantástica. É uma de suas melhores atuações e só não deve ser lembrada nas premiações por ocasião da atual caça às bruxas, que não está sendo um bom negócio para Woody Allen e quem quer que esteja envolvido com ele. De todo modo, independente de premiações, o que conta mesmo é o impacto de seu desempenho como uma garçonete infeliz no casamento que encontra na figura de um rapaz mais jovem que ela, um salva-vidas, a razão para voltar a ter esperança no futuro.

Acontece que o rapaz, Mickey, não entra na relação com tanto ímpeto quanto ela. Para ele, trata-se mais de uma relação que é curtida sem necessariamente ter um comprometimento. As coisas ficam ainda mais turvas para Mickey quando ele passa a ficar interessado na enteada de Ginny, a jovem Carolina (Juno Temple), que vai para Coney Island fugida dos mafiosos. Ela havia casado, para desgosto do pai (Jim Belushi), com um mafioso perigoso. Mickey, por sua vez, considera a história de vida de Carolina muito interessante. Ela viveu a vida intensamente, mesmo sendo tão jovem, segundo ele. Sua visão é de alguém que vê a vida como uma peça, ou como algo próximo de uma encenação. Pena o filme não aprofundar mais essas questões, mas no começo, em diálogo com Ginny, ele fala sobre a questão do destino em oposição aos atos e escolhas de cada pessoa.

No sentido de que se trata também de um filme sobre amor e desamor, RODA GIGANTE também dialoga com o título anterior de Allen, CAFÉ SOCIETY (2016). Ambos são contos de época sobre pessoas que se apaixonam, mas que percebem que seus objetos de desejo não estão tão à disposição quanto elas gostariam. A cena do relógio em RODA GIGANTE é uma das mais dolorosas. Nada nos prepara, porém, para o desfecho: sutil e ao mesmo tempo carregado de força cinematográfica e teatral.