sábado, maio 19, 2018

DEADPOOL 2

Não há como negar o quanto DEADPOOL (2016), o primeiro filme do mercenário tagarela, foi importante para trazer um pouco mais de ousadia para os filmes de super-heróis recentes. Claro que, no fim das contas, mesmo com conteúdo sexual e violento, tudo passa por um filtro dentro de uma época mais politicamente correta e respeitadora. Aliás, a respeito disso, há até uma piada no novo DEADPOOL 2 (2018) sobre a fixação um tanto estranha do taxista amigo do protagonista pela personagem de Kirsten Dunst em ENTREVISTA COM O VAMPIRO, uma vampira de dez anos de idade.

Dirigido por David Leitch, de ATÔMICA (2017), a sequência de DEADPOOL agora não tem mais a obrigação de contar a origem de seu anti-herói. No novo contexto, até quem nunca teve contato com o personagem nos quadrinhos se sente à vontade com seu senso de humor, sua intenção de ficar à margem, até por não ter nenhum problema em matar bandidos, e pelas piadas internas envolvendo filmes de super-heróis, quadrinhos, a consciência da música diegética e até mesmo a própria carreira de Ryan Reynolds.

Podemos dizer que o humor é um dos elementos mais problemáticos e que é o que mais costuma causar diferenças do público entre o gostar e o não gostar não apenas desta franquia, mas com os filmes dos estúdios Marvel também. Nem se trata aqui de entender ou não a piada; trata-se mais de não achá-la suficientemente boa para rir dela. Mas aí é que está o trunfo deste novo filme: há, dentro da trama, um pouco de tragédia que invade a vida do herói e que muda um bocado a dinâmica e o clima do que se esperava. E isso é muito bom. Ainda mais para um personagem que é praticamente imortal.

As brincadeiras com o fato de DEADPOOL ser uma franquia que utiliza heróis do segundo escalão, mesmo tendo o direito de trazer os personagens dos filmes dos X-Men, continuam valendo neste aqui, embora conte agora, além de Colossus, também com Cable, herói muito querido de quem começou a ler os heróis mutantes na década de 1990. Josh Brolin interpreta o homem que veio do futuro para matar um mutante adolescente que matará sua família. A semelhança com o enredo de O EXTERMINADOR DO FUTURO é claro que será motivo de piada por parte de Deadpool.

Ainda que inicialmente inimigos, Cable e Deadpool têm algo muito doloroso em comum e já se prevê que no final ambos serão aliados. O divertido é acompanhar o processo desta aventura despretensiosa até a sua conclusão. A própria criação do grupo X-Force é divertidíssima. Não só a criação como o destino de seus membros logo na primeira missão. A boa surpresa do grupo é Domino, a mulher cujo super-poder é ter sorte, vivida por Zazie Beetz, conhecida de quem acompanha a série ATLANTA.

No final, não deixem de ver as duas cenas extras pós-créditos. Elas são boas e importantes para a verdadeira conclusão da história. Assim como são muito bons os poucos momentos de cena com a bela Morena Baccarin e a nova versão de "Take on me", do A-Ha.

+ TRÊS FILMES

COLOSSAL

Curioso como este filme passou quase batido nos cinemas, com uma distribuição bem ruim. Aqui em Fortaleza, pelo menos, não chegou. Mas não é de todo ruim vê-lo na telinha. Parece filme menor mesmo. Mas é criativo, como todo trabalho do Nacho Vigalondo parece ser. E a Anne Hathaway está ótima, como sempre, como a moça que descobre que tem uma íntima ligação com um monstro que aparece do outro lado do mundo. Ano: 2016.

GRINGO - VIVO OU MORTO (Gringo)

Um barato este filme dirigido pelo irmão do Joel Edgerton. David Oyelowo (de SELMA - UMA LUTA PELA IGUALDADE, 2014) está ótimo como o empregado de uma corporação que só se fode. A fluidez da narrativa, as reviravoltas, as várias cenas que nos pegam de surpresa, os personagens carismáticos, tudo contribui para o sucesso do filme. Pena que pouca gente vai ver. Direção: Nash Edgerton. Ano: 2018.

YOU WERE NEVER REALLY HERE

Esses estudos da Lynne Ramsay sobre psicopatas humanizados só me deixam com sono e bastante impaciente. No caso deste novo filme foi pior do que com PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (2011). Acho que se a cena do resgate da garota fosse feito de maneira mais convencional, quem sabe eu gostasse mais. Mas ao menos dá para considerar as escolhas menos óbvias da diretora como algo corajoso. Ano: 2017.

segunda-feira, maio 07, 2018

EX-PAJÉ

Luiz Bolognesi é um de nossos melhores roteiristas de ficção. Só no ano passado ele assinou o roteiro de dois dos filmes mais importantes, BINGO - O REI DAS MANHÃS, de Daniel Rezende, e COMO NOSSOS PAIS, de Laís Bodanzky. Isso para citar apenas dois mais recentes. Mas já havia dentro de sua filmografia um interesse muito especial pela Amazônia e pelos índios.Podemos citar seus documentários sobre a Amazônia, mas seu título anterior como diretor foi a animação UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA (2013), que também contava em parte a história do índio brasileiro.

EX-PAJÉ (2018) é um documentário que mais parece com ficção. E ainda bem que Bolognesi conseguiu fazer isso tão bem. A história de Perpera, o personagem-título, é fascinante em sua dimensão trágica: um homem que se sente proibido de exercer a sua função tão importante na tribo (dos Paiter Suruí) porque agora é evangélico e os líderes religiosos dizem que o que ele fazia antes era coisa do diabo. E agora o pobre ex-Pajé tem medo de dormir de luz apagada por causa dos espíritos da floresta, que estariam furiosos com sua atitude de renúncia.

Esse mal estar é sentido em cada cena, em cada enquadramento, no modo como a tecnologia e o hábito dos brancos parece invadir aquele espaço. Por outro lado, não há também uma vilanização dessa tecnologia. Como julgar um povo que, como nós, está aberto a certos confortos, como um ventilador, uma máquina de lavar roupas ou o acesso à internet? Inclusive, a internet é usada para fins muito nobres por parte dos índios mais jovens, dispostos a denunciar qualquer invasão de madeireiros ilegais no Facebook, com apoio internacional.

Mas aí voltamos novamente ao aspecto trágico de Perpera, que veste um terno enorme para ficar de porteiro na igreja, sem entender sequer a língua portuguesa. Passa boa parte do tempo olhando para a natureza que parece lhe chamar a todo instante. O modo como o filme parece se transformar cada vez mais em uma obra de ficção se multiplica no momento em que o ex-Pajé é chamado a voltar à forma.

Por manter a atenção do espectador com uma narrativa sem voice-over ou algo que o caracterize mais facilmente como um documentário, EX-PAJÉ é dessas obras que tanto funciona como uma arma em defesa dos direitos dos habitantes do Brasil pré-Cabral, quanto como um exemplo de como saber utilizar cenas do dia a dia tão bem, de modo a construir um roteiro tão perfeito que parece ter sido tudo combinado. Muita coisa deve ter sido, mas a mágica do filme e a sua verdade estão lá o tempo inteiro, juntinhas.

+ TRÊS FILMES

VAZANTE

Acho a fotografia (em preto e branco) linda e certas tomadas são bem bonitas, mas como narrativa não conseguiu me envolver. O que eu mais gostei foi da menina, a estreante Luana Nastas, que casa com o sinhozinho. Mas mesmo o drama dela é prejudicado. Direção: Daniela Thomas. Ano: 2017.

COMEBACK - UM MATADOR NUNCA SE APOSENTA

Uma bela despedida do Nelson Xavier, em um papel um tanto depressivo, mas ao mesmo tempo em busca de resistir, de não se dar por vencido pelo efeito do tempo. A gente está falando de um assassino e tal, mas o filme pode servir como alegoria pra vida. Direção: Erico Rassi. Ano: 2017.

FALA COMIGO

Filme simples, eficiente, com ideias boas e um trabalho de atuação muito bom. E usando poucos recursos, poucas locações. Pra fazer cinema bom não precisa de muito dinheiro. Começou bem na direção de longas o Felipe Sholl. O filme conta a história do relacionamento de um rapaz de 17 anos com uma mulher de mais de 40. Ano: 2017.

terça-feira, maio 01, 2018

HOMELAND - A SÉTIMA TEMPORADA COMPLETA (Homeland - The Complete Seventh Season)

HOMELAND está para os anos 2010 como 24 HORAS esteve para os anos 2000. São duas séries que lidam com um herói (agora uma heroína) que enfrentam algo relacionado a terrorismo. No caso desta terceira temporada de HOMELAND (2018), Carrie Mathison (Claire Danes) se aproximou mais ainda de Jack Bauer, pelo seu sacrifício em prol daquilo em que acredita. Se bem que não é tão simples assim. A personagem é um tanto viciada em adrenalina e não tem muita paciência de ficar em casa cuidando da filha. Por mais que queira pensar o contrário.

O grande trunfo desta sétima temporada é que ela é uma continuação direta da sexta, mas consegue ser muito mais eficiente nas subtramas, na criação de momentos memoráveis e também na maior valorização da protagonista. Há um segundo episódio fantástico, "Rebel Rebel", em que Carrie enfrenta um hacker que invade seu computador e faz chantagem. A temporada não consegue superar o grau de impacto, de suspense e de empolgação que este episódio traz.

No geral, a trama principal gira em torno das dificuldades da presidenta Keane (Elizabeth Marvel) de se mostrar forte diante de tantos inimigos. Ela chega ao ponto de prender centenas de pessoas que ela acredita serem inimigos potenciais. Entre eles Saul Berenson (Mandy Patinkin), o segundo personagem mais importante da série, amigo pessoal de Carrie e com uma experiência invejável no campo da espionagem dentro da CIA. Sua mudança para o time da Presidente Keane é um tanto rápida demais, mas serve também para trazer dúvida com relação à sanidade mental de Carrie, que está enfrentando uma dificuldade grande em lidar com sua família - a filha pequena, a irmã e o cunhado.

Sim, a questão da doença de Carrie é mais uma vez explorada com força nesta temporada. Trata-se de algo importante demais para a constituição da personagem para que seja ignorado. Desta vez, ela começa a acreditar que o lítio, que ela toma há vários anos, pode não mais estar surtindo o efeito desejado, que ela poderia estar perdendo a noção da realidade. E isso a incomoda bastante. Mas não faz com que ela pare com as aventuras, principalmente quando é encorajada pelo agente do FBI Dante Allen (Morgan Spector). A função de Dante será de vital importância para uma outra subtrama envolvendo traição envolvendo espiões russos.

A entrada dos russos na história até parece um pouco manjada, levando em consideração tantas tramas feitas durante o longo período da Guerra Fria, mas o fato é que os russos voltaram a ter atrito com os Estados Unidos recentemente, devido à situação na Síria, e HOMELAND sempre está em sintonia com o que está acontecendo no plano político mundial. Bom para a série, que dará adeus aos fãs na oitava e última temporada no próximo ano. Espero muito que eles encerrem tão bem quanto começaram.

+ DUAS SÉRIES

THE SINNER

Bela minissérie que conta com ganchos bem bons, que convidam a gente a querer ver com avidez cada próximo episódio. E a entrar cada vez mais nos mistérios do passado da protagonista (Jessica Biel), que comete um crime bárbaro e não se sabe o motivo. Muito bom o aspecto amoroso e obstinado do policial vivido por Bill Pullman. Pena que as questões dele na minissérie não ganhem muita força. Até porque o interesse maior mesmo é pela Biel. No final, que eu achei que ia me decepcionar, acabei me emocionando e achando bem catártico, apesar de ter algo de anti-clímax mesmo. Mas não vejo isso como um problema. Até porque a própria minissérie tem um ritmo meio irregular. Criador: Derek Simon.

O MECANISMO

A primeira impressão, do piloto, é de que é uma série muito ruim, no sentido de texto, de dramaturgia etc. mesmo. Depois do segundo episódio, a impressão melhora, até porque a Caroline Abras assume o protagonismo e essa menina é fantástica. É muito mais fácil comprar o papel dela de delegada do que o papel do Selton Mello, que além de tudo parece que fala com um ovo na boca. O personagem dele lembra o de Carrie Mathison, de HOMELAND, tanto pela doença quanto pela obsessão e inteligência. Mas está longe de ser tão bom e quando ele sai de cena a série só melhora. A brincadeira em torno dos nomes muitas vezes óbvios das pessoas públicas envolvidas na Lava Jato até que é divertida, mesmo a série às vezes agindo meio que de forma irresponsável, mas é bem melhor que o filme POLÍCIA FEDERAL. Criadores: José Padilha e Elena Soárez.

sexta-feira, abril 27, 2018

VINGADORES - GUERRA INFINITA (Avengers - Infinity War)

Dez anos depois da estreia dos Estúdios Marvel com HOMEM DE FERRO (2008) e passados quase duas dezenas de produções, muitas delas arriscadas, como filmes sobre heróis pouco conhecidos do grande público, como Doutor Estranho, Pantera Negra, Guardiões da Galáxia e Homem-Formiga, eis que a Marvel chega a um dos pontos mais aguardados desde sua criação: um grande épico envolvendo quase todos os personagens apresentados ao longo desses anos.

VINGADORES - GUERRA INFINITA (2018), de Joe e Anthony Russo, representa muito mais do que o primeiro filme dos Vingadores. Aqui está em jogo não apenas dar conta de uma aventura de ação com alguns super-heróis de Stan Lee e Jack Kirby, como foi o caso do trabalho de Joss Whedon, mas costurar um universo cinematográfico já gigantesco e com o pano de fundo dos quadrinhos de Jim Starlin. Foi ele quem criou Thanos, o mais fascinante vilão do estúdio até então. Thanos aparece aqui interpretado por um Josh Brolin quase irreconhecível, mas sem perder as nuances da interpretação.

E o filme não demora para apresentá-lo. A primeira cena de VINGADORES - GUERRA INFINITA já traz uma angustiante disputa do vilão em Asgard, contra Thor, Loki e outros deuses nórdicos. Sua intenção lá é capturar uma das joias do infinito. Uma vez que ele consiga todas as joias, espalhadas por vários pontos do universo, ele conseguirá o seu intento, de proporções apocalípticas. Um dos grandes méritos do filme, aliás, é saber dar uma motivação inteligente para o vilão.

É curioso perceber que alguns dos trabalhos mais recentes da Marvel/Disney, como GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2 , HOMEM-ARANHA - DE VOLTA AO LAR e THOR - RAGNAROK, tinham um pé bem fixo na comédia. E nem todo mundo se envolve com o humor típico da Marvel, muitas vezes afetado, outras vezes excessivamente inofensivo, o que também pode ser um problema.

Mas o grande barato desta reunião é que ela sabe aliar o humor, principalmente quando Thor tem o encontro com os Guardiões da Galáxia, mas principalmente quando a narrativa assume seu aspecto mais sombrio. Afinal, estamos falando de um vilão que é para ser levado muito a sério, e que logo na primeira cena já mostra a que veio, embora cenas posteriores possam aprofundar ainda mais sua dimensão complexa, inclusive em um flashback de Gamora (Zoe Saldana).

VINGADORES - GUERRA INFINITA é bem articulado em blocos, com sequências que se passam em diferentes lugares do universo, sendo que um ou outro bloco tem uma ligação direta entre si, caso do bloco que traz Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) de Asgard para a Mansão do Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) na Terra. O bom domínio narrativo dos irmãos Russo é essencial para que o público não se incomode com a duração um tanto longa do filme.

Já o elenco é um luxo que só uma superprodução dessas é capaz de bancar (ter um ator como William Hurt em praticamente uma ponta é um exemplo disso). Embora nem todos os personagens sejam bem aproveitados (o Homem-Aranha é um deles), é fácil pensar que seria impossível dar conta de todos eles de maneira mais aprofundada. Apenas certos heróis que guardam maior relação com a trama principal têm seu potencial dramático melhor explorado, como é o caso de Thor (Chris Hemsworth), Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Visão (Paul Bettany), Senhor das Estrelas (Chris Pratt), Gamorra e, claro, o grande vilão. Mesmo o Pantera Negra (Chadwick Boseman) funciona mais para ter Wakanda como um excelente campo de batalha. É lá que algumas das mais envolventes e emocionantes cenas acontecem.

Está havendo uma preocupação muito válida nas redes sociais para que as pessoas não contem o final da história. A essa altura ainda é possível escapar dos tais spoilers. Por isso é interessante que o filme seja visto o quanto antes, pois as surpresas são realmente inesperadas. Acontecimentos guardados para o final são fundamentais para que VINGADORES - GUERRA INFINITA faça a diferença dentre as demais produções da Marvel.

+ TRÊS FILMES

RAMPAGE - DESTRUIÇÃO TOTAL (Rampage)

É possível se divertir com este filme de monstros gigantes destruindo geral. Até por não se levar a sério. Mas acredito que RAMPAGE se beneficiaria muito de uns 10 a 15 minutos a menos. Chega uma hora que o show de efeitos especiais (às vezes ruins) cansa. Podia ter se assumido como um filme menor ainda. Melhor cena: uma que envolve Malin Akerman. Quanto ao Dwayne Johnson, não dá pra esperar muita coisa dele, mas acho pior ver o Jeffrey Dean Morgan com os mesmos cacoetes do personagem que ele faz em THE WALKING DEAD. Direção: Brad Peyton. Ano: 2018.

A MALDIÇÃO DA CASA WINCHESTER (Winchester)

Todo mundo tem boletos a pagar. Inclusive Helen Mirren. E até que o argumento e a ideia deste filme não são ruins. Mas tanto o roteiro quanto a realização são ruins demais. Um dos filmes de terror mais chatos que eu já vi na vida. Lembram de A NOIVA, aquele filme russo que todo mundo desceu a lenha? Pois é. Aquele filme é muito mais interessante, sabe explorar muito mais a geografia de uma casa assombrada e tem momentos mais interessantes do ponto de vista do horror do que esse aqui, todo chique e com figurino e direção de arte bonitos. Direção: Peter e Michael Spiering. Ano: 2018.

PEQUENA GRANDE VIDA (Downsizing)

Tenho meus problemas com o filme na maneira como ele tinha infinitas possibilidades de trabalhar com o assunto e acaba não fazendo muita coisa em uma narrativa um tanto aborrecida de mais de duas horas de duração. Mas ficam boas lembranças, a boa ideia e o clima agridoce da narrativa. Direção: Alexander Payne. Ano: 2017.

quarta-feira, abril 25, 2018

CASA-GRANDE & SENZALA DE GILBERTO FREYRE

A obra de Nelson Pereira dos Santos, morto em 21 de abril último, é admirável não apenas por sua construção e descontrução dos códigos e convenções do que se fazia no cinema brasileiro - como quando ele mostrou pela primeira vez o favelado do jeito que era de verdade em RIO, 40 GRAUS (1955), com sua tradução exemplar de um clássico da literatura, VIDAS SECAS (1963), ou outros tipos de experimentações, como QUEM É BETA? (1972).

Mas a questão que me traz aqui em relação a CASA-GRANDE & SENZALA DE GILBERTO FREYRE (2001) é lembrar o quanto somos devedores de um cineasta que também foi bastante preocupado em contar a História do Brasil através dos filmes. Nesta minissérie feita para a televisão, por exemplo, somos transportados para uma espécie de aula até que bastante didática sobre a nossa História, o nosso povo, uma obra literária e antropológica essencial.

Demora um pouco para nos acostumarmos com o tom de aula de "Telecurso 2º Grau", mas uma vez acostumados com essa opção de dramaturgia, a viagem é de um prazer difícil até de explicar. Temos a chance de assistir a uma aula de um excelente professor, no caso, o Prof. Edson Nery da Fonseca, que nos quatro capítulos em que é dividido o documentário, faz uma mediação entre o espectador e a obra fundamental de Freyre.

Os quatro capítulos recebem os seguintes nomes: Gilberto Freyre - O Cabral Moderno; A Cunhã, Mãe da Família Brasileira; Português, o Colonizador dos Trópicos; e O Escravo na Vida Sexual da Família Brasileira. São, como dá para perceber pelos títulos, dedicados ao próprio Freyre, ao papel mais especificamente da índia, ao português e ao negro. Mais ou menos similar à estrutura que Freyre utiliza para o seu livro.

O primeiro capítulo é bastante revelador de quem foi Gilberto Freyre, sua infância, sua educação em escolas e universidades americanas, seu interesse e paixão pela formação do povo brasileiro etc. O segundo é mais uma porrada em forma de capítulo, ao mostrar como foi a abordagem dos portugueses e sua diferenciação em relação aos norte-americanos, que não se misturaram aos nativos. Ao contrário deles, os portugueses se misturaram e adoraram fazer sexo com as índias. Povoar aquele espaço, inclusive, fazia parte do plano de dominação. As índias também gostavam muito dos portugueses. Mas o que é triste mesmo é ver os maus tratos, o abandono, a chacina e a cena final.

O terceiro capítulo nos leva até Portugal e vai buscar as origens dos portugueses de antes do descobrimento, quando já eram um povo mestiço, com fortes influências dos mouros. É o episódio menos impactante, mas nem por isso menos gostoso de assistir. O quarto episódio, por sua vez, é o mais revelador do título do livro, pois professor e aluna dialogam sobre a rotina de como funcionava a relação entre os senhores e seus escravos. Uma relação baseada em sadismo, masoquismo, transmissão de doenças (sífilis, principalmente), um pouco de dose de generosidade (em comparação com os senhores de escravos americanos, que não deixavam os negros professarem suas danças, costumes e crenças) e também se fala sobre o misticismo.

Enfim, falar sobre este documentário de Nelson Pereira dos Santos pra quem ainda não viu é só dar um gostinho do que o espectador pode experimentar. E lembrar mais uma vez o quanto somos devedores desse cineasta tão cheio de amor por nossa História, nossa cultura e nossa gente, e que, durante sua longa trajetória, contou essa nossa História das mais variadas maneiras. Sorte nossa. Nunca haverá um cineasta como Nelson Pereira dos Santos.

+ TRÊS FILMES

MEU CORPO É POLÍTICO

É um filme simples e que nos conquista aos poucos, cujos personagens vão ganhando força à medida que eles vão se incorporando a um todo coeso. No começo, não parece ser. E no começo me incomodou um pouco o discurso muito direto, quase didático, em especial de um personagem transexual. Direção: Alice Riff. Ano: 2017.

A LUTA DO SÉCULO

Incrível como não sabia nada nem do filme nem dos lutadores. E é até melhor assim, pois as surpresas são maiores. Dá pra rir e dá pra ficar comovido com a história desses homens que passaram a vida se odiando e tendo a chance de ir ao ringue diversas vezes. Direção: Sergio Machado. Ano: 2016.

PAULISTAS

Dentro da categorias desses documentários que tencionam borrar a linha com a ficção, este é um dos que menos me agradou e o que mais parece não ter dito a que veio. Se é para ser um retrato de um espaço de abandono dos jovens e de desolação, o que trouxe pra mim foi só tédio. Melhor rever RIFLE, que tem alguma semelhança e é muito mais bem-sucedido nesse quesito. Direção: Daniel Nolasco. Ano: 2018.

domingo, abril 22, 2018

SUBMERSÃO (Submergence)

Provavelmente o último bom filme de ficção de Wim Wenders tenha sido O CÉU DE LISBOA (1994). E ainda assim não é uma unanimidade. Já nessa época sua carreira estava sendo vista como em declínio. E de fato estava. O que tem salvado sua carreira atualmente são seus documentários. O último, O SAL DA TERRA (2014), sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, é uma beleza. É triste testemunhar a decadência de um dos mais importantes cineastas de sua geração, a geração dos novos nomes do cinema alemão surgida no final dos anos 1960.

Mesmo assim, aceitando que o que temos é apenas a sombra do que foi o diretor de PARIS, TEXAS (1984), é possível enxergar neste novo trabalho, SUBMERSÃO (2017), pontas de paixões e obsessões que são muito bem trabalhadas num todo irregular. Mas é muito melhor se apegar ao que há de positivo no filme do que no que há de negativo. Até porque o que há de positivo é muito bom de ver.

Refiro-me ao modo como o filme trabalha a construção do relacionamento da bióloga marinha Danielle Flinders (Alicia Vikander) e o espião britânico James More (James McAvoy). Ele não informa a ela sua verdadeira ocupação. Diz que é um engenheiro. Eles se conhecem e se apaixonam em uma espécie de hotel de luxo à beira-mar. E o que há de mais sólido no filme é justamente esses momentos em que os dois estão juntos e se conhecendo.

Wim Wenders é feliz em tornar crível cada momento de aproximação dos dois, cada detalhe dos diálogos, do quanto cada momento é importante (em certa cena, ela fala de uma marca de expressão que ele tem, enquanto se tocam; ele diz que vai se lembrar disso). E, de fato, a separação dos dois, para ambos irem a missões perigosas, à sua maneira, é um tanto dolorosa, mas é também enternecedora.

Os obstáculos que funcionam como um elemento de motivação e torcida por parte do espectador só se estabelecem por causa desse ponto de partida. O primeiro beijo dos dois é muito gostoso de ver. Por isso os instantes de separação, quando ele é sequestrado por um grupo jihadista e fica sem comunicação com ela, são dolorosos. Há quem vá achar o filme tedioso ou até insuportável.

E isto não é nem novidade para uma obra contemporânea de Wenders. Mas é possível sim entrar no clima de SUBMERSÃO, naquele misto de tristeza pela separação e de alegria pelo apego à recordação. Se a parte mais existencialista, científica e metafísica do filme não conseguem atingir o que almejam, a gente pode dar sim um desconto.

Quanto às belas imagens, trata-se da terceira parceria de Wenders com o diretor de fotografia Benoît Debie. Os anteriores foram em TUDO VAI FICAR BEM (2015) e OS BELOS DIAS DE ARANJUEZ (2016).

+ TRÊS FILMES

COM AMOR, SIMON (Love, Simon)

A própria frase que vende o filme já diz tudo: todo mundo merece uma grande história de amor. Então, o que temos aqui é uma tradicional comédia romântica estudantil, com apenas uma diferença: é a história de um rapaz gay com dificuldade de sair do armário. A gente sofre um pouco com ele esse processo e nisso talvez esteja o grande mérito do filme. Além do mais, todos os personagens são simpáticos. Talvez só tenha me incomodado com uma visão muito otimista do mundo, não sei. Direção: Greg Berlanti. Ano: 2018.

OPERAÇÃO RED SPARROW (Red Sparrow)

Muito melhor do que andaram dizendo por aí. Gostei mais do que de ATÔMICA, mesmo sabendo que as propostas são diferentes. Mas ao menos este dá pra se envolver no drama da protagonista. E o filme deve muito à Jennifer Lawrence. A força dela é que impulsiona a produção, não a direção qualquer coisa do xará de sobrenome. Duas cenas eu acho massa: uma de sexo e uma de violência.. São cenas que se destacam dentro de uma obra mais para mediana. Direção: Francis Lawrence. Ano: 2018.

CINQUENTA TONS DE LIBERDADE (Fifty Shades Freed)

Incrível como uma franquia consegue descer uma ladeira mais abaixo do que já estava. Imaginem se fizessem mais filmes. O que sairia. Sabemos que o principal problema é a fonte e que diretor nenhum conseguiria dar jeito estando tão amarrado ao texto original tosco. Enfim, dureza. A única vantagem de eu ter visto o filme sozinho numa sala em uma sessão que terminou depois da meia noite é que não precisei encarar os olhares constrangidos de ninguém. O shopping, aliás, parecia cenário de O DESPERTAR DOS MORTOS. O que é até uma coisa legal, sei lá. Direção: James Foley. Ano: 2018.

quinta-feira, abril 19, 2018

CABO DO MEDO (Cape Fear)

Não sei onde eu estava com a cabeça na época em que deixei de ver nos cinemas CABO DO MEDO (1991). E olha que eu já tinha saído de uma experiência inenarrável após a sessão de OS BONS COMPANHEIROS (1990). Só podia estar passando por algum momento muito delicado, não sei dizer. O fato é que, na época, só vi este remake espetacular dirigido por Martin Scorsese em VHS. E mesmo assim foi um impacto gigante. Mas se eu não me engano o filme não era bem uma unanimidade na época. Havia gente que achava muito comercial, se não me engano.

A releitura de CABO DO MEDO agora, desta vez respeitando a janela original e em uma ótima cópia ripada de um blu-ray, se deveu a uma brincadeira nova do pessoal do Cinema na Varanda, que está fazendo um novo quadro mensal dedicado à discussão de clássicos. O escolhido do mês de abril foi este filme estrelado por Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange e Juliette Lewis.

CABO DO MEDO foi a sétima colaboração entre Scorsese e o seu então ator-fetiche De Niro. Uma colaboração das mais belas da história do cinema. Já Nick Nolte, havia trabalhado com o cineasta no segmento "Lições de Vida", de CONTOS DE NOVA YORK (1989). A caracterização dos dois personagens chega à perfeição, levando em consideração que ninguém se importe com o nível de intensidade que o filme prefere adotar. Nas cores, nas interpretações, na trilha sonora, na violência etc.

O embate dos dois personagens lembra muito o de PACTO SINISTRO, de Alfred Hitchcock. Aliás, todo o filme parece uma grande ode ao mestre do suspense, com uma homenagem explícita a PSICOSE, na cena da cozinha. O que é aquele momento, meus amigos? A própria trilha sonora é de Bernard Herrmann (do filme original), o que dá um tom hitchcockiano especial. Scorsese lida com todas as ferramentas cinematográficas de maneira tão genial que, naquele momento, era difícil não dizer que estávamos diante do maior cineasta americano vivo.

Toda a sequência que antecipa a tal cena da cozinha, com a tentativa de fazer uma armadilha para o ex-presidiário e estuprador é de uma tensão tão grande que jamais imaginaríamos que essa tensão se potencializaria na sequência do barco, quando o filme se encaminha para o seu grandioso desfecho.

Há sequências em que o uso de recortes para simular a profundidade de campo lembra bastante os trabalhos do colega de geração Brian De Palma. E há uma cena em especial que a música fica um pouco de lado para que possamos quase parar de respirar: caso da cena do primeiro encontro de Max Cady (De Niro) com a jovem e inocente Danielle (Juliette Lewis). A cena tem um misto de tensão, perigo, sensualidade e proibição que jamais imaginaríamos nos dias de hoje. Aliás, no ano seguinte, a própria Juliette apareceria beijando Woody Allen no também memorável MARIDOS E ESPOSAS. Ou seja, não faltava exploração da sensualidade da estrela adolescente na época.

CABO DO MEDO é um produto de sua época, mas talvez justamente por isso tenha envelhecido tão bem, tenha adquirido essa aura de clássico, ainda mais com tanta homenagem à velha Hollywood. Um filme que também possui a arte de deixar o nosso sangue intoxicado. Digo isso como elogio. E olha que não exaltei as qualidades formais da obra, que são imensas.

+ TRÊS FILMES

ÓDIO

Um dos filmes mais singulares da história do cinema brasileiro. Tem uma elegância impressionante na direção, na mesma maneira como também não se importa em mostrar os excessos que a própria história precisa contar. Certamente vai ficar na minha cabeça por um bom tempo. Projeto pessoal e muito querido do Carlo Mossy. Ano: 1977.

FITZCARRALDO

Lembro de ter começado a ver este filme e não ter prosseguido numa exibição na televisão. Com a cópia restaurada, surgiu a chance de ver no cinema. Está longe de ser dos meus favoritos do Werner Herzog, mas não deixa de ser admirável em sua construção e sua ambição. Quem teria bancado um filme desses? Ano: 1982.

QUADRILHA MALDITA (Day of the Outlaw)

Que maravilha de filme, hein! Uma espécie de OS OITO ODIADOS que deu certo. Acho que Tarantino bebeu muito da fonte deste filme pra construir o seu ambicioso projeto. André De Toth é mestre e o seu filme é do mesmo ano de outro western muito especial, o RIO BRAVO, do Hawks. Ano: 1959.