sábado, abril 22, 2017

PATERSON























Quantas vezes deixamos passar momentos preciosos de nossas vidas só porque eles não parecem dignos de serem lembrados por não serem, por assim dizer, extraordinários? E quantas vezes deixamos de perceber que estamos, sim, diante de momentos extraordinários, apesar de ordinários? É tudo uma questão de olhar a vida com olho de poeta, de perceber a beleza nos detalhes, como a posição dos sapatos de uma dupla de pessoas que conversam no ônibus ou uma simples caixa de fósforos. Isso pode ser alimento para a poesia.

PATERSON (2016), o novo trabalho de Jim Jarmusch, está aí para nos lembrar disso. E o filme faz isso com uma beleza e uma humanidade tão delicada que combina muito bem com seu personagem-título, vivido por Adam Driver. Trata-se, aliás, do melhor papel de sua carreira, até o momento, superando e contrastando com o intenso Adam, seu personagem em GIRLS, a série recém-encerrada de Lena Dunham.

Paterson, ao contrário de Adam, tem uma sobriedade e uma serenidade de lidar com a vida que dá até vontade de tomar como exemplo. Quando um colega de trabalho pergunta sobre sua vida, ele diz que está tudo bem, enquanto o tal colega está sempre reclamando de algumas coisas (várias, na verdade). Mas, de fato, Paterson é um homem de sorte: é casado com uma mulher amável e que ele ama (linda as cenas do amanhecer, com os dois na cama), tem uma rotina tranquila em um bairro tranquilo e consegue tempo para transformar os seus pensamentos em poemas, os quais guarda em um caderninho.

Sua esposa Laura (a iraniana Golshifteh Farahani, de PROCURANDO ELLY, de Asghar Farhadi) tenta fazer com que Paterson faça uma cópia de seus escritos e mostre ao mundo seus belos poemas. Ele, porém, hesita. O filme não diz, mas talvez a fama ou uma possível e indesejada mudança de rotina atrapalhasse o modo como ele vê a vida. Esse talvez seja um dos motivos também de ele não querer um telefone celular ou mesmo um computador. A vida de motorista de ônibus, para ele, lhe basta, provavelmente.

A esposa gosta de pintar coisas em sua casa e planeja ser cantora de música country, além de cozinheira de cup cakes e outras novidades, geralmente com uma obsessão pelo contraste entre o preto e o branco. Quanto a Paterson, sua poesia se nutre do cotidiano, que se faz necessário na rotina de uma pessoa normal, no caso, alguém que é motorista de ônibus, é casado, tem um cachorro que leva para passear e que também gosta de tomar uma cerveja no mesmo bar todos os dias. Além do mais, no ônibus, ele aprecia ouvir as conversas dos passageiros. Tudo é combustível para sua poesia.

E o modo como o filme narra os eventos, separando-os em dias da semana, faz com que nós, desacostumados, esperemos que algo de muito extraordinário ou mesmo perigoso aconteça. Afinal, isso é tão comum em se tratando de cenas com alguém dirigido algo. Não que não haja algo que não vá mexer com o equilíbrio de Paterson no desenrolar da trama, mas é impressionante como o ocorrido também nos afeta, nos deixa tristes, ainda que não seja nenhum fim do mundo.

Esse tipo de sentimento não é apenas um modo de nos solidarizarmos com o personagem, mas também de termos uma afinidade com ele no que se refere à valorização da arte como meio de expressar de forma transcendental a vida. A arte nos eleva. E de vez em quando é bom sair de um filme que consegue passar uma mensagem sobre a linguagem lírica utilizando a força da palavra sensível, falada e escrita, mas também extraindo poesia do próprio fazer cinematográfico.

quarta-feira, abril 19, 2017

QUASE 18 (The Edge of Seventeen)























Uma pena que a distribuidora de QUASE 18 (2016) tenha desistido de lançar o filme nos cinemas no Brasil. Embora ele já esteja disponível em outros meios, no cinema o trabalho de estreia da diretora Kelly Fremon Craig ganharia maior visibilidade. De todo modo, vale a tarefa de divulgar o filme para que seja visto pela maior quantidade de pessoas possível, já que se trata daquelas obras que mostram que para fazer um belo filme não é preciso inventar a roda ou usar recursos narrativos mirabolantes. Ao contrário, a simplicidade de QUASE 18 é muito bem-vinda.

Muito do sucesso do filme está na caracterização adorável de Hailee Steinfeld, como Nadine, a garota problemática e de poucos amigos que "perdeu" a melhor amiga de infância para o irmão. Durante uma pequena festa privada entre as duas na casa de Nadine, a amiga acaba se envolvendo e se apaixonando pelo irmão dela e os dois começam a namorar.

Se Nadine já tinha muitos motivos para viver chateada com a vida que levava e achar todo mundo da escola idiota, inclusive o irmão marombado e popular, a situação que acontece com a amiga faz ela até mesmo dizer que vai tirar a própria vida. Ela confidencia isso para o professor vivido por Woody Harrelson. O jeito cínico do personagem de Harrelson talvez seja o que atrai Nadine para sempre puxar conversa com ele. Quem é professor acaba se identificando e ficando enternecido com a conversa dos dois e a aproximação mais ou menos distanciada, mas baseada na confiança.

Como o filme é dirigido e escrito por uma mulher, parece passar mais verdade no modo como mostra o desabrochar daquela jovem que está confusa e está passando por uma fase de amadurecimento e de chegada à idade adulta. Não há a intenção de tornar Nadine uma personagem fácil, embora o filme consiga nos fazer gostar dela com muita facilidade, mesmo com todos os defeitos e inseguranças que ela transborda. E talvez justamente por isso gostemos mesmo. Ah, há também um personagem muito legal de um rapaz oriental que fica louco pela Nadine. Difícil não simpatizar com o rapaz.

Quanto à jovem sagitariana de 20 anos Hailee Steinfeld, importante lembrar que ela foi indicada ao Globo de Ouro por sua atuação neste filme, na categoria melhor atriz em musical ou comédia. Ela já havia chamado a atenção dos críticos e da academia no western BRAVURA INDÔMITA, dos irmãos Coen, lançado em 2010, quando ela era ainda mais jovem. Outro filme em que ela chama a atenção, ainda que em papel bem menor, é o delicioso MESMO SE NADA DER CERTO, de John Carney, não por acaso diretor de um dos mais belos filmes sobre a juventude dos últimos anos, SING STREET – MÚSICA E SONHO.

segunda-feira, abril 17, 2017

GIRLS – A SEXTA TEMPORADA COMPLETA (Girls – The Complete Sixth Season)























E uma das séries mais marcantes dos novos tempos chegou ao seu fim. Poderíamos dizer que GIRLS seria uma versão feminina de ENTOURAGE (2004-2011). Ou uma versão mais explícita de SEX AND THE CITY (1998-2004), por também tratar da vida de quatro mulheres, mas a verdade é que se trata de algo completamente diferente, diferente da série dos rapazes de Hollywood, diferente da série das mulheres ricas de Nova York.

O que vemos aqui são quatro moças que são apresentadas a nós no início dos seus vinte e poucos anos. Tão inseguras talvez quanto um adolescente e tão irritantes também, embora possam ser adoráveis e enternecer nossos corações à medida que vamos conhecendo cada uma delas, em seus dramas individuais. Lena Dunham, a criadora e protagonista da série, como Hannah, é o centro das atenções, embora com o tempo a criadora dê espaço para seus colegas brilharem.

Inclusive, talvez o melhor dos episódios da série seja um todo centrado em Marnie (Alisson Williams). Trata-se de "The panic in Central Park", da quinta e melhor de todas as temporadas. Esta sexta e última (2017) não tem a intenção de superar a obra-prima que foi a anterior, mas há vários episódios que brilham e que trazem discussões muito pertinentes aos dias de hoje.

O que dizer de "American bitch", no qual Hannah vai até a casa de um famoso autor que ela admirava, mas que foi alvo dela em um site feminista? O escritor estava envolvido em um escândalo em que se dizia que ele assediava garotas universitárias durante as turnês promocionais de seu livro. A relativamente longa e muito interessante discussão entre os dois personagens é o grande destaque deste tão diferente episódio, feito sob medida para os dias atuais, em que o tema do assédio e do abuso têm sido pontos fortes.

Se GIRLS já era uma série mais ou menos feminista, com "American bitch" esse posicionamento se torna mais claro ainda. É o tipo de episódio que pode ser visto separadamente, por alguém que apenas tem curiosidade pelo assunto em questão e não necessariamente quer se envolver com o universo da série. Para aqueles que desejam, porém, talvez o episódio mais poderoso seja "What will we do this time about Adam?", em que Hannah tem um reencontro com o seu ex-namorado (Adam Driver), depois de já ter vencido a dor de ter sido trocada por Jessa (Jemima Kirke), que nesta temporada ganha menos espaço em cena e mais antipatia dos espectadores, com ares de megera e bem menos glamour. E isso até pode ser visto como uma falha, já que beneficia Hannah, na comparação.

Quem ganha também episódios especiais na nova temporada é Elijah (Andrew Rannells), o amigo gay e roommate de Hannah, sendo o principal deles "The Bounce", sobre sua tentativa de ser ator de uma peça da Broadway. Ele também está bem presente em "Gummies", episódio focado na mãe de Hannah e seu processo de aceitação da nova fase, após a separação do marido que saiu do armário.

O episódio final, "Latching", que mostra a confrontação de Hannah com as responsabilidades da vida adulta e com o bebê, é dos mais estranhos, contrariando tudo o que se esperaria de uma series finale. Como um amigo muito bem disse: está mais para um epílogo; o penúltimo episódio, "Goodbye tour", é o que tem mais cara de final mesmo, já que é o último a reunir as quatro amigas. Ou ex-amigas. Afinal, a vida não é mesmo como uma telenovela.

domingo, abril 16, 2017

O ORNITÓLOGO























Foi meu primeiro contato com a obra do diretor português João Pedro Rodrigues, famoso por abordar a homossexualidade em seus filmes desde O FANTASMA (2000), passando por ODETE (2005) e MORRER COMO UM HOMEM (2009). Nesse sentido, até que O ORNITÓLOGO (2016) é uma obra sutil no que se refere à quantidade de cenas com apelo homoerótico. Na verdade, só há uma cena erótica: a que o protagonista Fernando (Paul Hamy) encontra Jesus, na figura de um pastor de cabras surdo-mudo.

Sim, foi o único filme de natureza religiosa que vi nesta semana, mas nem foi de propósito. A vontade de rever O ORNITÓLOGO vinha do fato de não lembrar mais direito de seu enredo onírico e simbolista quando o vi pela primeira vez em janeiro, em uma maratona, junto com outros filmes. Fazia-se necessário uma revisão para que eu escrevesse a respeito. Mas o curioso é que continuo sem saber direito sobre o que escrever. Não houve, na revisão, uma melhor absorção do que na primeira vez. Ao contrário: como estava com gripe e um pouco febril, a apreciação do filme acabou sendo menos prazerosa.

Mas não deixa de ser uma realização admirável desde o começo, quando acompanhamos Fernando em seu trabalho como cientista observador de pássaros. Sua vida muda quando seu caiaque é tragado pela correnteza de um rio. Ele é resgatado por duas chinesas católicas que o salvam e dizem precisar de sua ajuda para chegar no caminho de Santiago. Em vez disso, porém, elas o amarram e têm planos sádicos para o rapaz.

Fernando desde o começo se mostra ateu. Afirma para as chinesas que não existem demônios, nem existe Deus. Seu encontro com a espiritualidade acontece de maneira curiosa. Acontece uma total conversão, com a rejeição total da vida que leva, da identidade e até das próprias feições. Suas novas feições aos poucos são percebidas pelo ponto de vista das aves. É quando vemos seu outro eu, Antônio, vivido pelo próprio cineasta João Pedro Rodrigues.

Completam o rol de bizarrices um trio de amazonas nuas da cintura pra cima que falam latim, o encontro com um homem morto, um grupo de homens fantasiados para um ritual ao mesmo tempo macabro e idiota, e uma pomba branca, que deve ser a representação do Espírito Santo. Nessa brincadeira entre o sagrado e o profano, João Pedro Rodrigues ganha o espectador com cada elemento intrigante que surge pelo caminho de Fernando. O personagem, por mais que o vejamos com algum distanciamento, é o único elo com o espectador da normalidade do mundo dito real em comparação com o mundo místico que Fernando encontra pelo caminho.

sábado, abril 15, 2017

O NOVATO (Le Nouveau)























A ótima safra de filmes da edição passada do Festival Varilux de Cinema Francês continua gerando bons frutos no circuito brasileiro. Agora é a vez de O NOVATO (2015), longa-metragem de estreia de Rudi Rosemberg, que conta, de maneira sensível, a história de um garoto tímido que tem dificuldade em conseguir amizade na nova escola e acaba por se apaixonar por uma linda garota sueca, que também encontra dificuldade em se socializar, até por não falar direito o francês.

O NOVATO não tem nada de tão diferente entre as tantas comédias que lidam com amores da juventude. Até lembra um pouco o ótimo e mais romântico ABC DO AMOR, de Mark Levin. Mas aqui não há uma intenção de focar tanto assim no amor do garoto pela menina. As amizades que ele faz até ganham mais importância, assim como as questões do bullying e da rejeição, tão comuns no perverso universo estudantil.

Na trama, Benoît (Réphaël Ghrenassia) acaba de entrar em uma nova escola e os pais o incentivam a fazer amizade com os colegas da turma. Acontece que pra ele a coisa não é tão simples. A timidez e a total falta de sensibilidade da maioria dos meninos e meninas acabam prejudicando a sua socialização. Quem primeiro quer sua amizade são justamente garotos que também já têm fama de serem rejeitados por não se enquadrarem nos padrões, como o jovem nerd Constantin (Guillaume Cloud-Roussel) e o gordinho Joshua (Joshua Raccah). Mas quem traz alegria e palpitação para o coração de Benoît é a também recém-chegada sueca Johanna (Johanna Lindsteadt). Junte-se a beleza da garota com a carência afetiva de Benoît e temos aí um caso de fácil identificação e solidariedade do espectador com o personagem. Afinal, quem nunca passou por algo parecido?

Vale destacar a excelente direção de atores do elenco jovem, quase toda composta por estreantes. Quem não é estreante do grupo principal é a garota que faz a deficiente física, Aglaée (Géraldine Martineau), que já contava com uma carreira sólida para a idade. Sua personagem, aliás, traz algo de muito interessante por nunca se fazer de vítima devido a sua deficiência. Ao contrário, tem uma autoestima incrível e que ajuda a compor sua fortaleza. A presença de Aglaée também acentua o caráter marginal do grupo.

Há vários momentos de riso ao longo do filme, o que faz com que O NOVATO seja uma dessas obras que encantam o espectador também pela leveza da condução narrativa. No final, o que temos é uma bela história de amizade e superação em um momento bastante difícil da vida humana, que é a adolescência. Vale destacar, no elenco adulto, a presença do tio de Benoît, que dá algumas dicas para que ele consiga se sair bem na obtenção de seus sonhos e objetivos.

sexta-feira, abril 14, 2017

PERDER A RAZÃO (À Perdre la Raison)























Que bom seria se os filmes ficassem mais tempo com a gente, que a memória fosse mais fácil de buscar as cenas. Vejo muitos filmes e com o tempo eles vão sumindo de meu HD cerebral. As lembranças começam a ficar escassas. E se os vemos em casa, a impressão que temos é de que a apreensão se torna mais difícil ainda, mas até quanto a isso eu não tenho tanta certeza. Mas falemos de PERDER A RAZÃO (2012), de Joachim Lafosse, filme que já vi há alguns meses e de um cineasta que eu nem sabia que existia até ver o maravilhoso A ECONOMIA DO AMOR (2016) e colocá-lo na minha lista de favoritos do ano passado.

PERDER A RAZÃO é um pouco mais problemático e bem menos sutil, mas é mais um filme que trata de uma família em crise. Mas em um registro mais próximo da tragédia. Enquanto A ECONOMIA DO AMOR vai nos matando aos poucos com a tensão dramática da vida daquele casal que na verdade já se separou mas que vive ainda em um mesmo teto, PERDER A RAZÃO mostra a degradação de uma família a partir da pressão psicológica sofrida por Murielle, a personagem de Émilie Dequenne (mais lembrada por ROSETTA, dos Irmãos Dardenne).

O tom trágico já se apresenta no prólogo que mostra o futuro da história, com a protagonista em uma cama de hospital falando sobre "enterrá-los no Marrocos". Enterrar quem? Essa pergunta até sai um pouco da memória quando o filme parte para o ponto de partida e já que o andamento da trama é suficientemente envolvente. Vemos o progressivo e rápido namoro e casamento de Murielle com o marroquino Mounir (Tahar Rahim, que esteve em papel de destaque em O PASSADO, de Asghar Farhadi). Logo eles começam a ter vários filhos desse casamento.

Eles passam a morar na casa do pai adotivo de Mounir, André Pinget (Niels Arestrup), um médico que combina generosidade com uma alta dose de manipulação emocional. A casa é dele e ele faz questão de que o casal more com eles. A presença de Pinget é bastante incômoda naquela casa e as coisas se complicam ainda mais para o casal com a depressão que passa a abater Murielle. Nisso, a atriz foi muito feliz em dar um tom de desespero que nos contagia.

Por mais perturbador que isso seja, não deixa de ser uma prova de que estamos diante de uma obra que incomoda e sufoca. Principalmente quando os personagens estão dentro da casa. Uma viagem para o Marrocos, por exemplo, já traz um pouco mais de estabilidade emocional para a personagem. É, certamente, o caso de ver outros filmes de Joachim Lafosse e conferir se estamos diante de um especialista em inferno domiciliar.

quinta-feira, abril 13, 2017

METROPOLITAN























Para alguns cinéfilos, a escolha do primeiro filme visto no ano se torna uma espécie de ritual complicado que se confunde com uma superstição. Passamos a acreditar que começar com um belo filme vai ser sinal de que começamos o ano com o pé direito. Daí não arriscamos muito: preferimos a revisão de uma obra de que gostamos muito ou uma obra já consagrada pela crítica. Claro que a vontade de ver tal filme também influencia na escolha. E eis que METROPOLITAN (1990), de Whit Stillman, foi o primeiro filme que vi em 2017.

Trata-se do primeiro de apenas cinco filmes desse cineasta americano que costuma agradar bastante no circuito indie. METROPOLITAN lembra um pouco os trabalhos de Woody Allen, principalmente aqueles feitos com mais esmero e cuidado, e a ciranda de amores tanto faz lembrar alguns filmes da década de 1980 (especialmente os de John Hughes) quanto os romances de Jane Austen. Aliás, há uma interessante discussão sobre uma obra específica de Austen entre dois personagens principais do filme, Tom (Edward Clements) e Audrey (Carolyn Farina).

Conversando sobre obras literárias preferidas, Audrey afirma que uma de suas obras preferidas de Austen é Mansfield Park, e Tom, agindo de maneira bem pouco educada, afirma que este livro é horrível, que é considerado ruim até pelos fãs da escritora etc. Mais tarde saberemos que ele sequer leu o livro; apenas uma crítica literária dele. Tom é desses caras que talvez acredite que ler um romance é perder tempo. E apesar de vermos o filme pelo seu ponto de vista na maior parte das vezes, não nos furtamos a considerá-lo um personagem de atitudes estúpidas.

Tom é um rapaz pobre que é convidado por uma turma de jovens ricos a fazer parte daquele clube. Audrey se apaixona por ele, mas ele ainda nutre uma paixão antiga por Serena (Ellia Thompson, que aparece muito pouco na história, mas é bastante citada). Por outro lado, um dos caras da turma é louco por Audrey, o que faz com que tudo pareça uma grande armação do destino. Seja para tornar a vida daquelas pessoas mais interessantes para nós ou torná-las mais miseráveis para eles.

Há uma espécie de anacronismo no filme. O comportamento deles parece de pessoas que vivem no século XIX, mas que pode muito bem ser contemporâneo, da virada dos anos 1980 para os 90, ou até dos anos 1950, já que eles se vestem de maneira bem elegante, de acordo com as convenções sociais requeridas pela classe a que pertencem – exceto Tom, que procura se adequar à turma, embora não disponha de roupas boas o suficiente para tal e acabe encontrando apoio em Nick (Chris Eigeman).

Trata-se de um filme que se preocupa mais com os personagens e a beleza dos diálogos (houve uma indicação ao Oscar de roteiro) do que com um plot, e isso talvez o torne mais especial para quem está à procura de filmes com personagens com profundidade, imperfeitos – nenhum deles parece dono da razão, todos têm defeitos. Também podemos destacar a beleza da fotografia granulada e da direção de arte discreta e bem cuidada.

Fiquei ainda mais interessado em ver METROPOLITAN – e outros filmes de Stillman – depois de ver no cinema o ótimo AMOR & AMIZADE (2016), esse sim uma adaptação de uma obra de Jane Austen. Uma pena que o cineasta filme tão pouco.